O retrato dos estudantes
O retrato dos estudantes que mudaram a cara das escolas de São Paulo
Postado em 07 dez 2015
FOTOS DE BIA PARREIRAS
Não dá para afirmar que eles tenham passado à base de pão e água mas esses eram os ítens mais comuns entre as doações que receberam. Depois vinham macarrão e óleo. Também não da para dizer que estivessem em uma colônia de férias pois era preciso cozinhar, limpar os banheiros, varrer o pátio, dormir no chão e muitas vezes tomar banho no cano com água fria. Era necessário fazer vigia 24 horas por dia a fim de evitar os ataques ameaçados por carros suspeitos que passavam durante a noite.
No sábado passado o gás tinha acabado na escola Antonio Alves Cruz. O almoço estava em risco. Na Fernão Dias Paes, o dia era de faxina pesada. Os banheiros passaram a ser mais limpos que o de costume e não faltava mais papel higiênico. Na escola Maria José, o material didático continuava perfeitamente empilhado e intacto, como deixado pela direção da escola antes da ocupação. Aliás, a ordem em todas as ocupações era não utilizar nem tocar em nada que fosse do estoque da escola. Nem os mantimentos da despensa, nem material de escritório ou de limpeza. As salas que guardavam esses materiais ficaram permanentemente trancadas.
As atividades extras proliferaram. Eram oficinas, manifestações culturais de teatro, saraus e palestras. Os estudantes passaram a ter aulas de disciplinas que não constam na grade curricular. Através de voluntários, assuntos que nunca são tratados na escola passaram a ser e eles fizeram mais sentido na cabeça desses jovens. Era o pragmatismo versus o quadrado da hipotenusa.
A estudante Camila foi quem me chamou a atenção para o fato de que estava tendo aulas que jamais teria pela grade normal. Três dias depois Camila foi presa pela polícia durante um protesto na avenida Nove de Julho.
Demonstraram um apego pela escola e pela educação que uma concepção viciada insistia em dizer que não existia, que eram um bando de vagabundos, sendo que na verdade provaram ser capazes de passar 24 horas por dia na escola se ela for interessante.
O que os alunos reforçaram é que a escola precisa de transformação. Do jeito que é não serve mais, não atende às expectativas dos jovens e não será transferindo-os daqui pra lá que isso irá melhorar. Eles querem sentir-se parte da escola e rejeitam um projeto que reforça ainda mais a imposição, a repressão, que acentua a superlotação de salas, que não investe nem em estrutura nem em conteúdo. Heudes foi um ativista incansável no combate a essa política.
Os estudantes, muitos deles no último ano do ensino médio, deram uma aula de cidadania. Assim como a jovem Eloá, solidária em detrimento a seu ano letivo às vésperas do vestibular, mostrou que a luta não era só contra a reorganização e sim contra o sistema educacional precarizado.
As ocupações representaram ainda uma apropriação do bem público, algo fundamental em se tratando de escolas. Uma oposição à eterna visão de que aquilo que é público não é de ninguém e fica abandonado, degradando. Apropriar-se significa que aquilo finalmente passa a ser público e não do poder público.
Em entrevista, o agora ex-secretário de Educação declarou sentir vergonha do ensino público paulista. Foi um mea culpa incomum (se ele hoje tem vergonha é resultado de um ‘não trabalho’ realizado em duas décadas de tucanato), mas disse o óbvio. Deveria é orgulhar-se dos alunos, sr Herman Voorwald. O ensino é algo abstrato, são as pessoas quem merecem reconhecimento. Reconheça o valor de Lilith que mesmo sendo agredida pelo diretor da escola não correu para baixo da saia da mãe.
Com sua coragem os estudantes conseguiram colocar na prática uma gestão democrática das escolas, algo que o governo não sabe o que é. Os jovens deixaram de ser massa de manobra e passaram a ser massa crítica. Propõe debates e promovem mudanças.
E a emblemática prisão de Elissandro, carregado de cabeça para baixo, simbolizou o que as tais transferências propostas pela atual gestão almejavam: da escola para a prisão. As ocupações eram contra isso também e o DCM homenageia a coragem e determinação de todos os que lutaram contra um estado repressor.
- A fachada da EE Fernão Dias
- O aluno Pedro Henrique Carvalho, que tem 18 anos e está no primeiro ano do ensino médio, da EE Godofredo Furtado. Atrasou nos estudos porque tem que trabalhar e em alguns períodos que precisou fazer trabalhos em período integral. Ele quer concluir o ensino médio e fazer uma faculdade onde possa atuar na sociedade
- Barraca na varanda da Fernão Dias
- Alunos olhando as fotos dos protestos do dia anterior
- Cenas das ocupações das escolas em São Paulo
- A faxina na Fernão Dias. Na organização desse movimento os alunos tomam a iniciativa para fazer as tarefas, que vai desde a segurança, faxina, comitê de informação, cozinha
- Cenas das ocupações das escolas em São Paulo
- Cenas das ocupações das escolas em São Paulo
- A aluna Luana Folks, mostra as marcas do diálogo com a PM
- Pamela Clodus, 16 anos e uma das motivadoras da organização e limpeza da Escola Godofredo Furtado. Ela acha que a educação pública está abandonada e com poucos recursos. Quem segura as escolas são os professores, que são excelentes, mas muitos funcionários não têm a menor motivação para fazer os trabalhos de manutenção dos prédios
- Vinícius Ramos defende a escola como uma segunda casa, colaborou em diversas funções durante a ocupação, ajudou a limpar as carteiras e paredes. Eles tem apoio dos pai e da população entorno, que leva água e alimentos
- Lucas Ramos tem orgulho de estudar e já estar no ensino médio, porque veio de uma família de pais analfabetos e ele está crescendo. Ajuda na limpeza e fez diversos consertos na escola
- Cenas das ocupações das escolas em São Paulo
- Alunos dormem numa das salas de aula, na escola Godofredo Furtado
- Depois do almoço a limpeza da cozinha
- Cenas das ocupações das escolas em São Paulo
- Recado da moçada na fachada da Godofredo Furtado
- Cenas das ocupações das escolas em São Paulo
- Cenas das ocupações das escolas em São Paulo
- Cenas das ocupações das escolas em São Paulo
- Cenas das ocupações das escolas em São Paulo
- Cenas das ocupações das escolas em São Paulo
- Cadeado no portal da EE Caetano de Campos, ali só entram os alunos. Esta foi a única escola que não consegui entrar e tinha um pai ameaçador na porta
- Cenas das ocupações das escolas em São Paulo
- Cenas das ocupações das escolas em São Paulo
- Os recados da garotada na frente da Caetano de Campos, cujo prédio portentoso já foi sede do Colégio Porto Seguro, caro e de elite, com ensino exemplar. Sugiro que olhem as fotografias desse colégio no google, para verem o que é uma escola bem equipada e faça uma comparação com as escolas públicas em prédios abandonados
- A camiseta do Movimento dos Secundaristas
- Cenas das ocupações das escolas em São Paulo
- Cenas das ocupações das escolas em São Paulo
- Cenas das ocupações das escolas em São Paulo
- Cenas das ocupações das escolas em São Paulo
- Um debate sobre o ensino e as ocupações das escolas, na Fernão Dias
- Cenas das ocupações das escolas em São Paulo
- Cenas das ocupações das escolas em São Paulo
- A aluna Ana Beatriz fala: o governo olha as escolas como uma empresa e quer economizar em educação, a coisa mais importante para o crescimento do país. Depois gastam com prisões. A mãe dela batalhou por uma vaga no Fernão Dias
- Cenas das ocupações das escolas em São Paulo
- Mateus Carvalho está no terceiro ano do ensino médio, estuda no Fernão há 8 anos e quer continuar estudando para ter uma vida melhor
- Gabriel é filho de professor, está no terceiro ano do ensino médio e diz: querem economizar em educação, quando deveriam estar investindo muito mais nessa área. Não entende porque chamam a polícia se nós não somos bandidos
- Cenas das ocupações das escolas em São Paulo
- Cenas das ocupações das escolas em São Paulo
- Cenas das ocupações das escolas em São Paulo
- Cenas das ocupações das escolas em São Paulo
- Cenas das ocupações das escolas em São Paulo
- Aluno mostra livro Pedagogia da Libertação, do educador Paulo Freire
- Cenas das ocupações das escolas em São Paulo
- Cenas das ocupações das escolas em São Paulo
- Igor e Alexander mostram as funções que exercem
- Cenas das ocupações das escolas em São Paulo