O discurso de Oprah Winfrey

O discurso de Oprah Winfrey



 
O discurso de Oprah Winfrey na cerimónia dos Globos de Ouro é um grande discurso em qualquer parte do mundo. Vale a pena ouvi-lo na íntegra (aqui, por exemplo) e lê-lo de fio a pavio (nomeadamente aqui). Ou pelo menos ouvir as suas passagens mais significativas. “Aposto que foi escrito pelo speech writer de Obama”, aventava alguém ontem na redacção do Observador, num reflexo à retórica empolgante da estrela televisiva. Ainda Oprah não descera do palco e já começavam a circular tweets reforçando a ideia de que poderia dar uma boa candidata dos democratas à Presidência dos Estados Unidos em 2020, uma espécie de celebridade anti-Trump. 24 horas depois o entusiasmo já arrefeceu um pouco e, tanto à esquerda como à direita, trata-se de colocar água na fervura.
 
Primeiro que tudo, para se ter uma ideia do apelo da ideia, Bill Kristol, um influente neoconservador que sempre se opôs a Trump, correu para o Twitter para escrever: “Oprah: Sounder on economics than Bernie Sanders, understands Middle America better than Elizabeth Warren, less touchy-feely than Joe Biden, more pleasant than Andrew Cuomo, more charismatic than John Hickenlooper. #ImWithHer.”
 
Naturalmente entusiasmos como este suscitaram reacções do outro lado do espectro político, como a Thomas Chatterton Williams, que no New York Times deixou um apelo: Oprah, Don’t Do It. Para ele, “In a way, the conversation on the left (and the anti-Trump right) around Ms. Winfrey is more troubling than the emotional immaturity and anti-intellectualism pulsing out of the red states that elected Mr. Trump. Those voters have long defined themselves in opposition to the intellectual seriousness Democrats purport to personify.” Mais: “The Oprah bandwagon betrays the extent to which social causes and identities — and the tribal feelings they inspire — have come to eclipse anything resembling philosophical worldviews. American politics has become just another team sport, and if suiting up a heavy hitter like Ms. Winfrey is what it takes to get the championship ring, so be it.”
 
Este ponto, isto é, o significado que o entusiasmo com Oprah tem quando pensamos no que é hoje a política nos Estados Unidos serviu também de mote ao editorial do Wall Street Journal (paywall), Could Oprah Out-Trump Donald?, onde se escreve que “Is is a commentary on the evolution of our politics that the next presidencial election could be a contest between two first name celebrities.” Há de resto alguma amargura e ironia neste texto, onde também se nota, certeiramente, que “Hollywood spent the Golden Globe awards Sunday atoning for its sexual harassment of women, an industry habit running back at least a century. Better late than never.”
 


Num registo semelhante, Matthew Walther escreve na The Week sobre Oprahysteria, notando que “Oprah, like Trump, is a post-political politician. Politics as the dull business of governing or even the old-fashioned art of electioneering no longer exists in this country. Political life has been subsumed into the never-ending process of digital media consumption and 24/7 live-action role-playing that has also swallowed up everything from sports to family life to religion.”
 
É pois já na ressaca do primeiro momento de euforia que encontramos textos críticos em publicações de referência da esquerda americana, como o Huffington Post, como este de Ashley Feinberg: Oprah 2020 Is A Bad Liberal Revenge Fantasy. É uma crónica onde se defende que a política deve ser deixada aos políticos, não entregue a celebridades, por mais bem intencionadas que elas sejam: “Fortunately, we live in a world where we do not have only two options. Neither are we relegated to a pool of wealthy entertainers. The answer to Trump isn’t to elevate an aristocracy of celebrity right-mindedness, with Oprah or Tom Hanks ordering drone strikes with only the purest of intentions. The answer is to elevate politicians who do the politics better than the other guys.
 
A própria Oprah, independentemente do brilhantismo da sua oratória, está longe de ter a carreira ideal e impoluta que habitualmente se exige de um candidato à Presidência dos Estados Unidos – e isso não pode deixar de ser lembrado mesmo sabendo que Trump também não tinha essa carreira sem mácula. E não se pense que é só à direita que já se alinham argumentos, como este que encontrei numa crónica especialmente ácida sobre a cerimónia dos Globos de Ouro, uma crónica na conservadora Nacional Review onde se passa em revista muitas das hipocrisias presentes naquela plateia e até naquele palco. Em About That Golden Globes Fiasco escreve-se também sobre Oprah, notando-se que se trata da “The nation’s most prominent retailer of quack medicine, the celebrity shill who made herself some $3 billion pitching supernatural wishful thinking and life-endangering crackpot pseudoscience to poor people and women”.
 
Se nos voltarmos para esquerda e olharmos para o Guardian encontramos um texto, de 2015, quase delirante, mas onde se defende que ela é quase a encarnação do diabo. Trata-se de Oprah Winfrey: one of the world's best neoliberal capitalist thinkers, de Nicole Aschoff. Eis o essencial do argumento desta cronista: “Oprah recognizes the pervasiveness of anxiety and alienation in our society. But instead of examining the economic or political basis of these feelings, she advises us to turn our gaze inward and reconfigure ourselves to become more adaptable to the vagaries and stresses of the neoliberal moment.” Ou seja, em vez de fazer do seu programa e da sua revista panfletos a apelar à revolta contra a sociedade em que vivemos, Oprah cometeu e comete o pecado de tentar ajudar as pessoas a terem a melhor vida possível, o que indigna quem sonha com levantamentos populares.
 
O desequilíbrio de algumas análises, assim como a forma superlativa como hoje é apresentada a luta das famosas de Hollywood, vistas como heroínas de uma coragem inigualável, levou mesmo a Vogue a fazer uma edição especial onde as apresenta como as novas “sufragistas”, uma comparação que tira partido de, no Reino Unido, se comemorar precisamente em 2018 o centenário da vitória desse movimento feminista, pois foi nesse ano que as mulheres viram por fim reconhecido o seu direito de voto. A cronista Joanna Williams é particularmente acutilante em The ‘new suffragettes’ are nothing of the sort, uma coluna na Spectator onde assinala os contrastes entre a luta de então e as campanhas de hoje: “The suffragettes risked imprisonment: today’s feminists wear expensive black frocks to the Golden Globes. The suffragettes went on hunger strike: today’s feminists tweet #MeToo. The suffragettes were subjected to force feeding: today’s feminists pen open letters to the BBC.” Mais: “A combination of narcissism and ignorance allows today’s feminists to compare their suffering to the actions of the suffragettes. (...) Suffragettes like Sylvia Pankhurst recognised that fighting for the vote was about changing society for everyone not just for an elite group of privileged women.  (...) Today’s feminists could not be more different. As we saw at yesterday’s Golden Globes, feminism is now about Hollywood stars donning the mantle of victimhood by wearing black dresses that cost more than most women earn in a year.”


 
Podia terminar com este texto, que ajuda a serenar um pouco os ânimos e a separar o que é um grande discurso proferido com entusiasmo e sentimento dos desejos confusos de todos os que querem deixar para trás quer os tempos de Trump, quer os dos homens poderosos de uma Hollywood demasiado tolerante com os excessos. Mas não. Deixo-vos um pequeno vídeo que dá que pensar até por contrariar algumas ideias feitas. Trata-se de Why Women Prefer Male Bosses onde, com recurso a numerosos estudos científicos, se procura perceber um fenómeno que poucos estão dispostos a reconhecer. Mais: onde se dão sugestões sobre como ultrapassar as distorções que dão origem a um comportamento que parece contra-intuitivo. São só três minutos, vale a pena passar os olhos.
 
De resto, tenham bom descanso e boas leituras.




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