Propostas para a Educação
"Professor deve ser aquele que ajuda a mexer no conhecimento para apoiar o aluno a romper a angústia e afrontar a incerteza de nosso tempo"
afirma Leonel Kaz
Fonte: O Globo (RJ) 17 de setembro de 2014
‘Preparar o aluno para um futuro absolutamente imprevisível.” A frase não é novidade. Quem a escreveu — ainda na década de 1930 — foi nosso mais importante educador, Anísio Teixeira. Com o avanço da tecnologia, as ideias pregadas por Anísio ganham novo vigor, como demonstraram os palestrantes do Encontro Internacional de Educação, promovido na Escola Sesc de Ensino Médio pelo GLOBO e “Extra”. A costura a seguir reúne de linhas colhidas de Anísio a propostas apresentadas no evento pelos professores Maria del Pilar, José Pacheco, Rafael Parente, Stravos Panagiotis, José Morais, Pierre Levy, Anna Penido, Tião Rocha e Edgar Morin.
1- Educação integral se exerce não apenas no ambiente da escola — Toda cidade é território de ação para uma educação integral.
2- Não de deve tirar o menino da rua; o que se deve é colocar mais o menino na rua para que ele usufrua da cidade e tenha orgulho dela — Só se ama aquilo que se conhece: toda a cidade e seus equipamentos culturais devem ser extensão natural da escola.
3- É preciso cuidar para que a criança brinque e tenha infância; “adultizar” tem a ver com consumo — Cabe ao professor, desde o início, conhecer a criança, olhar com outro olhar para ela. O olhar amoroso do professor sobre a criança é absolutamente transformador.
4- Educação é um projeto de vida que não acaba; ele se perpetua na nossa contribuição à memória coletiva — Muitas escolas não fazem sentido para as suas comunidades, mas esta busca de sentido deve ser tarefa de todos — direção, professores, alunos e pais (pais integram a escola!) — numa ação de convivência com a “aldeia” que está em torno, para além da aldeia global.
5- A tecnologia permite que os alunos sejam — tudo ao mesmo tempo — leitores, espectadores, autores, editores, livreiros, parceiros, designers e curadores, esculpindo a memória coletiva, sem uma autoridade última — No entanto, nossos educadores tentam colocar o futuro em regras do passado. “O Brasil tem uma escola do século 19, com professores do século 20 e alunos do século 21.” Além de computadores, as novas descobertas da neurociência devem conduzir o professor a buscar novos métodos de aprendizado.
6- Personalizar a educação é ver o outro — O professor vê o aluno, quando ele sai de um modelo de educação em que todas as aulas são entregues a todos os alunos no mesmo ritmo. É aí que ele vê o aluno para ele além de suas notas e sua condição socioeconômica, percebendo o potencial de cada um.
7- O professor deve ser maestro dos saberes, e não mais aquele que apenas dá o saber — A internet está repleta de realidades e o conhecimento deixou de ser acumulativo. O professor deve ser aquele que ajuda a mexer no conhecimento para apoiar o aluno a romper a angústia e afrontar a incerteza de nosso tempo.
8- A cultura, que inclui todas as artes, deve ser colocada a serviço da educação pública de qualidade — O problema não é mais resolver problemas, mas alargar horizontes, pois o que se faz agora não mais se fará daqui a cinco anos. A cultura é o instrumento de adaptação para o imprevisível.
9- O professor mais renomado de uma universidade deve ter visão sistêmica para conhecer o que está sendo ensinado na pré-escola — A universidade não pode estar ausente de sua contribuição ao ensino fundamental (embora não haja referência a este tema no Plano Nacional de Educação).
10- O professor é este que vai se reinventar e o aluno é este que vai ser coautor desta reinvenção — Como? Pela experimentação real, dentro e fora da escola, cuidando da “aldeia” local, cuidando do planeta, aprendendo a trabalhar com seus pares, atuando com o pensamento crítico. Afinal, “a criança se educa, vivendo”.
*Jornalista