As faces do fanatismo mortal

As faces do fanatismo mortal

As faces do fanatismo mortal contra Charlie Hebdo

Postado por Juremir em 8 de janeiro de 2015 


A França viveu ontem um dia sangrento. Fanáticos religiosos mascarados invadiram a sede da revista ou jornal “Charlie Hebdo” aos gritos de “vamos vingar o profeta”. Doze pessoas morreram. “Charlie Hebdo” é uma publicação satírica. Não perdoa radicalismo religioso. Segue a tradição de Voltaire: ataca sem cessar a ignorância e a superstição. Faz humor contra o mal e contra a intolerância. Não zomba de negros por serem negros nem de gays por serem gays.

Em 2011, Charlie foi atingida por um coquetel Molotov por ter publicado charges de Maomé. Vinha sendo ameaçado desde então por causa de sua “Charia Hebdo”. O ataque de ontem coincidiu com o lançamento altamente polêmico do novo romance de Michel Houellebecq, “Soumission”, que aborda a tomada do poder na França, em 2022, por um partido muçulmano em associação com a direita republicana e com os socialistas. Em novembro, entrevistei Houellebecq para o Caderno de Sábado do Correio do Povo. Ele disse: “Vou botar fogo na França”. A França está em chamas. Em 2001, no seu romance “Plataforma”, Houellebecq antecipou o atentado terrorista de Bali.

O Estado Islâmico ordenou, em outubro de 2014, que todo alvo civil francês hostil ao islamismo fosse atacado. “Charlie Hebdo” havia tirado o pé do acelerador para evitar um ataque. Não foi suficiente. A França foi sacudida em 2014 pelo lançamento do livro de Éric Zemmour intitulado “O suicídio francês”. O autor denunciou o perigo da islamização da Europa, especialmente da França, e pediu a deportação de todos os muçulmanos.

Nos últimos dias, em vários países europeus aconteceram manifestações contra a islamização europeia. A liberdade de imprensa é, mais uma vez, a vítima do terrorismo. Esperava-se que depois da vitória do iluminismo sobre o obscurantismo do Antigo Regime, com a revolução de 1789, o passado estivesse enterrado. A história, ao contrário do que pretendia o neoliberal lunático Francis Fukuyama, nunca termina. O horror sempre pode recomeçar.

Troquei mensagens com Michel Houellebecq. Ele sabe tristemente que as suas ideias se confirmam a cada dia.

A capa de “Charlie Hebdo” desta semana fatídica não poderia ser mais sintomática: “As previsões do mago Houellebecq”. Para quem não sabe, Houellebecq, cuja literatura eu introduzi no Brasil, é o escritor francês mais lido e mais polêmico da atualidade. Mostra as entranhas das sociedade contemporâneas. Em países como a França, livros, ideias e controvérsias ainda podem se encontram com os fatos e com o cotidiano. Houellebecq não é responsável pelo atentado a “Charlie Hebdo”. É o profeta que vem anunciando o pior dos mundos para breve. O Velho Mundo, pelo jeito, nunca se livrará dos rastros de sangue que espalhou e que o perseguem. Numa sociedade laica, o extremismo religioso enfia o pé na porta. O que fazer? Reinventar o iluminismo? Reencarnar Voltaire?

Gritar novamente “esmagai o infame”?

O pavor que se espalha tem a ver com a falta de soluções. Navios abandonados cheios de imigrantes ficam à deriva na costa italiana. Mudar a mentalidade dos fanáticos é uma utopia. Houellebecq será odiado por anunciar a decadência de uma época. A sessão de autógrafos do livro foi anulada e toda a promoção suspensa. Mas 300 mil exemplares já foram. Liguei para Edgar Morin, 93 anos, sábio da complexidade e de tantos lutas desde a resistência ao nazismo, que disse: “Não tenho palavras. Estou perplexo”. Maomé não pode ser caricaturado. Os fanáticos assassinaram o cartunista Cabu. A tolerância está refém da intolerância. Fanáticos acabam por transformar o islamismo no que valeu a Houellebecq um processo por ter dito isso: “A religião mais idiota do mundo”.

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/




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