A imoralidade dos supersalários

A imoralidade dos supersalários

A imoralidade dos supersalários: Sobre reis e brioches

 

   De tempos em tempos, os brasileiros são surpreendidos com relatos de que o Congresso Nacional ou o poder executivo está bancando de forma furtiva pessoas ligadas a políticos, pessoas essas que recebem salários vindos dos nossos bolsos para trabalharem de forma estritamente pessoal, exercendo um cargo que não diz respeito, de modo algum, à política nacional, além dos frequentes casos de nepotismo, supersalários e funcionários fantasmas.

   Há poucos dias, uma reportagem do jornal O GLOBO informou que garçons do Senado Federal, um grupo de 7, têm uma remuneração entre R$ 7,3 mil e R$ 14,6 mil, chegando a mais de 15 vezes o valor do piso salarial dos que trabalham na capital federal. Um deles, José Antônio Paiva Torres, mais conhecido como “Zezinho”, é o que mais recebeu, alcançando um montante de R$ 14,6 mil, incluindo as horas extras, que sozinhas renderam R$ 5,2 mil ao garçom.

   Outro caso foi de Francisco Joarez Cordeiro Gomes, mordomo que trabalha para o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Francisco, ocupante do mais alto posto de assistentes parlamentares, o AP-01, recebeu, apenas em março, para servir refeições e organizar a residência oficial do presidente, R$ 18,2 mil. Renan tem, ainda, à sua disposição, dois garçons que recebem salários brutos de R$ 10,7 mil e R$ 11,6 mil.

   Entretanto, fatos como esses não são novidades no cenário político brasileiro. Em 2009, desvendou-se que o mordomo - Amaury de Jesus Machado, mais conhecido como “Secreta” -  de Roseana Sarney, na época e atual governadora do Maranhão, era um funcionário pessoal pago também pelo poder público, o Senado. Em outra palavras: era pago com o nosso dinheiro. Era um funcionário efetivo da Casa e ganhava cerca de R$ 12 mil.

   Situações como essas chegam a ser danosas aos trabalhadores brasileiros, que acordam cedo para ir ao trabalho, usam transporte público de péssima qualidade, e não ganham nem 10% disso, contribuindo, ainda, com sua renda, na forma de impostos, para sustentar políticos e assistentes parlamentares e seus supersalários.

   Muitos alegam que o Brasil precisa remunerar quem realmente merece e mediante quantia justa. Caso contrário, teremos professores largando emprego para virar garçom no Senado Federal: expõe-se o triste mecanismo de incentivos e seus efeitos.

   Não seria o caso de serviços como esses passarem por licitação e serem tercerizados? Além disso, se consideraram necessários, não deveriam os parlamentares pagar tais contratações com a renda auferida com os já polpudos salários? Ademais, é razoável a existência de tais luxos, dignos de senhores feudais - sendo isso agravado pela existência de financiamento por parte da população, inclusive os mais humildes -, para supostos representantes do povo?

   Tais despesas são morais, considerando-se o estado de vida da população média e a frequentemente alegada falta de recursos para a promoção de melhores serviços públicos? É razoável tal pagamento quando se nega, concomitantemente, reajuste a professores - que ganham, em média, 10% do salário de um dos referidos mordomos -, os quais, além de terem grau superior de ensino, carregam uma enorme responsabilidade - o futuro do país - sobre os ombros? Isto sem comentar os salários de policiais, médicos, bombeiros, entre outros.

   Tais despesas exorbitantes externam de modo contundente a desídia de diversos agentes do Poder Público. Evidencia-se não apenas a irracionalidade dos gastos e o desrespeito para com o erário, mas também, pode-se supor, a mentalidade de certos gestores, os quais criam uma espécie de Corte, um ambiente à parte. Vivem como uma nobreza feudal, uma realeza do Antigo Regime, indiferentes aos anseios da população. Quando solicitados, alegam falta de verbas. Ora, se não há pão, por que o povo não come brioches?


Fontes e leitura complementar:
Mordomo de Roseana Sarney pago pelo senado

Sarney diz que Senado nunca pagou mordomo e critica calúnias

Senado contrata "mordomo" de Roseana para assumir cargo comissionado na Casa - 15-09-2009
 
Mordomo de Renan Calheiros recebe 18 mil

Garçom do senado


Allan Carvalho é estudante de administração na FECAP-SP, coordenador nacional do MCC e articulista da Folha Política.

Ernani Fernandes é estudante de Direito no Largo de São Francisco/USP, escritor e articulista da Folha Política


http://www.folhapolitica.org




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