A ditadura finita, a ditadura infinita

A ditadura finita, a ditadura infinita

Paulo Ghiraldelli


A ditadura finita, a ditadura infinitaQuando Chico Buarque fez a música que diz “chama o ladrão, chama o ladrão”, ele marcou nossa história.

Não era mais para esquecermos do tempo que, fazendo política agressiva ou não, éramos acordados à noite pela polícia, e ninguém tinha o endereço ou o telefone de algum ladrão para vir ali ser preso. Pois é, víamos então que o que ocorreria era a nossa prisão.

Logo percebíamos: a polícia era para prender a nós, que não tínhamos nem mesmo aderido à “luta armada”. Prendiam a nós, que éramos do MDB, ou seja, a “oposição consentida”, o partido criado pelo regime para fazer oposição. Éramos presos e torturados, mesmo tendo aceitado o jogo posto pelo regime de força. Passei por tudo isso. Estudei isso. Vivi isso. Não preciso que os que não viveram ou que estiveram do lado dos torturadores me contem o que ocorreu. Também não preciso que os malucos de esquerda inventem um tempo de terror para além do que ocorreu, como Safatles da vida fazem por aí.

Preciso, sim, todo dia lembrar que, para os pobres, para os negros, para as crianças pobres,  tudo isso que vivi não acabou. Estão lá na favela da Maré agora, passando, inocentes, o que eu passei. Não é justo que para os pobres a ditadura militar não tenha acabado. Dilma, torturada, deveria ver isso. Não ver só a Copa. Não devia agir como seu algoz, Médici, agiu.

Paulo Ghiraldelli

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