Tá vendo aquele prédio moço?…

Tá vendo aquele prédio moço?…

 Rosangela Bion de Assis


Quando entrou no prédio Carlos Mayer, onde funcionava o antigo Iapas (Instituto de Administração Financeira da Previdência e Assistência Social), ele era só emoção. Cada parede, janela, corredor, cada canto daquele edifício fazia sua cabeça viajar no tempo. O funcionário do Setor de Pessoal informou que ele deveria se apresentar no dia seguinte no 10º andar, no Setor de Planejamento e, ao perceber seu nervosismo, disse que entendia seus sentimentos: era a alegria de conquistar um emprego público.

– Não é isso, o senhor não imagina… Há uns cinco anos, eu trabalhei na construção desse prédio, desde a fundação até ele ficar pronto. Eu nunca pensei que um dia eu viria trabalhar aqui.

José Hugo Passinho Filho trabalhou por quase 10 anos na construção civil, foi um dos seus primeiros empregos quando chegou a Florianópolis, sozinho, com 18 anos. Nessa época, ele dormia no alojamento da obra. Durante o dia Passinho buscava a sobrevivência, à noite ele buscava conhecimento e informação. Três meses de aulas no Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização) e ele pode matricular-se na 5a série do ensino básico. Era março e as aulas já haviam começado na Escola Básica Getúlio Vargas, no Saco dos Limões, mas a Diretora Valmira lhe autorizou a começar no outro dia. Na primeira noite, apavorado com a sala cheia, a maioria mulheres, ele sentou na última fila e não saiu na hora do intervalo por três dias. Percebendo sua timidez, duas colegas perguntaram: por que não falava?

– Sou de fora, não conheço ninguém.

Daquele dia em diante, Passinho foi, aos poucos, se entrosando com os colegas, passou a responder aos cumprimentos, conheceu professores, como a de Português, Otília de Souza, que despertaram seu amor pela leitura e pela poesia. O despertar da coragem para as lutas veio anos depois, em 1984.

Com dois meses na Previdência Social, em estágio probatório, Passinho encarou a primeira greve. Em plena ditadura militar, os servidores ainda não podiam se organizar num Sindicato e a direção da Acaseps não era ocupada pelo grupo de servidores que, quatro anos depois, encaminharia a fundação do Sindprevs/SC e a fundação da Fenasps. Nada disso intimidou os servidores do Iapas a construírem a primeira greve nacional dos servidores da Previdência Social.

– Eu era jovem, mas havia servidores antigos que também nunca haviam feito greve. Todos tínhamos coragem. Tudo era novo, mas eu comecei a aprender e tomei gosto. Participei de todas as greves e nunca me afastei do Sindicato.

Eram tempos de começar relacionamentos longos. Com Durcelir de Araújo Passinho são 26 anos de casamento. O encontro dos dois só aconteceu porque Passinho e seu amigo encontraram um menino caído próximo ao túnel do Passa Vinte, na Palhoça, todo machucado ao lado da bicicleta destruída. O responsável pelo atropelamento fugiu. Passinho e o amigo estavam de carro e levaram o menino para o Hospital Infantil Joana de Gusmão, onde Durcelir estava de plantão naquela noite. Ela era auxiliar de enfermagem.

Dias depois, Passinho prestou depoimento na Delegacia de Polícia, onde teve que provar, com seu amigo, que não tinham sido os autores do atropelamento. Em seguida foi visitar o menino, que teve perna e braço fraturados, mas se recuperava bem, e encontrou Durcelir pela segunda vez. Preocupada com a falta de sangue no Hospital, ela pediu para Passinho fazer uma doação. Preocupado em não perder de vista aquela mulher que tanto tinha chamado sua atenção, ele convidou Durcelir para saírem. Sete meses depois oficializaram a união e Jorge Augusto, filho de Durcelir, na época com um ano, ganhou um pai. Elenise nasceu dois anos mais tarde.

Em 2001, Passinho começou outra luta árdua, dessa vez para retirar seu filho da dependência química. Envolvido na batalha para salvar seu filho, ele não percebeu o quanto o sofrimento lhe estava afetando.

– Por volta das 14 horas, o pessoal começava a perguntar se eu não ia almoçar, se estava pagando alguma penitência. Eu tinha chego no INSS às 7horas e estava fazendo de tudo para não voltar para casa.

Foi assim até o dia em que ele foi encontrado por um taxista, praticamente sem sentidos, dentro do carro, próximo ao Shopping Itaguaçú. Foi levado para o Hospital Regional e depois encaminhado para tratamento com psiquiatra e para terapia na Univale. Foram três anos de tratamento.

– Isso me ajudou tanto, que eu quis até fazer Psicologia.

Hoje pai e filho passam muito bem. Superada a dependência, Jorge Augusto de Araújo Passinho, voltou a trabalhar. Atualmente é supervisor de vendas. Os dois gostam de passar o fim de semana no Camping do Sindprevs/SC, no Complexo Esportivo e de Lazer Ademir Rosa, onde fazem um churrasquinho e depois apreciam a bela paisagem de Ponta das Canas.

Passinho nasceu e cresceu numa colônia, distante 70 quilômetros de Corumbá, no Mato Grosso do Sul. Ainda menino começou a sonhar com uma vida diferente ao ouvir pela rádio o Correspondente Renner, da Rádio Guaíba, e o Repórter Esso. Poucas casas tinham rádio, mas ele ficava impressionado com o mundo que era descrito pela voz grave. Passinho não poderia imaginar que sua voz um dia também transmitiria informações. Na FM Pantanal, no Programa JC Instrumental, ele fala quinzenalmente, aos sábados, de saúde do trabalhador, direitos trabalhistas, previdência social e lutas sociais.

Aposentado desde setembro de 2011, Passinho é conhecido por todos, pelo seu sorriso e seus abraços carinhosos. Quem não lembra dos braços abertos nas Assembleias, dando daquele cumprimento generoso antes de falar. Sua atuação política também prossegue no Conselho Municipal de Saúde. E sua sede por conhecimento? Essa está muito longe de ser saciada. Passinho cursou cinco fases de Psicologia, na Unisul, com bolsa de estudos, formou-se em Gerontologia, pela UFSC, e, em março desse ano, começou o curso de Ciências Políticas, também pela UFSC. Isso sem comentar todos os cursos e seminários realizados, cujos certificados enchem uma pasta, que ele guarda com todo carinho.

O menino que, dos 10 aos 13 anos, trabalhou numa carvoaria, viu muitos acidentes e amigos morrerem antes dos 50 anos com problemas respiratórios. Ele cresceu ouvindo os outros dizerem que não adiantaria sair daquele lugar, que seria explorado igualmente em outra cidade, que não conseguiria nada melhor porque não tinha estudo, que seu destino já estava escrito. Mas José Hugo Passinho via os aviões passarem pelo céu e queria voar também. Enfrentou todas as barreiras que a sociedade impõe àqueles que não se conformam com pouco e não se acomodam. Superou o preconceito, a falta de amigos, as mudanças culturais, mas também conheceu pessoas que o estimularam a estudar, que o acolheram e que o amaram. Sua vida foi movida, desde muito cedo, por sonhos e coragem. E ele sorri, aos 62 anos, quando fala dos próximos planos, das próximas lutas e dos próximos sonhos.

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