Silêncio crescente no campo

Silêncio crescente no campo

"Fica um gosto amargo na boca e a pergunta que não quer calar: por que os governos ignoram o campo?", questiona Rui Alberto Wolfart

Fonte: G1

As estatísticas de esvaziamento do campo ficam reforçadas pelo fechamento de Escolas na zona rural. Havia 103.300 Escolas rurais em 2003, quando hoje há 70.800. Portanto, foram fechadas 32.500 Escolas em 10 anos. A visão financeira e o desprezo institucional só ajudam a piorar a realidade do campo brasileiro, explicitada na visão de Cleuza Repulho, da União dos Dirigentes Municipais de Educação: as Escolas no campo “tem custo-Aluno muito alto”. Como se, vê a população rural é considerada um fardo, um ônus demasiado aos cofres públicos.

Fernando Haddad reconheceu que as políticas educacionais para o campo foram o ponto fraco enquanto esteve à frente do Ministério da Educação. Depreende-se que a visão larga do que significa Capital Humano não entrou no radar das atenções dos poderes públicos. Os pujantes resultados na Balança Comercial, apresentados pelo conjunto que envolve a produção agropecuária na formação do Produto Interno Bruto – PIB em 2013, infelizmente não sensibilizam os governantes.

Entendem que o campo pode se virar sozinho, como se não houvesse responsabilidades constitucionais objetivas para com essa população. Zander Navarro, renomado Professor, aposentado, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, em recente artigo publicado no jornal “Estadão”, sintetizou o quadro geral do interior do Brasil: “Confrontado com esse inquietante contexto de mudanças, surpreende o imobilismo governamental e espanta a omissão do sindicalismo que deveria representar os mais pobres. Ignoram a nova urgência social – salvar a pequena produção! e parecem concordar com a tendência de esvaziamento do campo e o inchamento das cidades brasileiras.

Cada vez mais, as regiões rurais perdem vozes e ganham o silêncio”. Que o diga Santa Catarina, estado composto por centenas de pequenos municípios, os quais têm em sua malha viária as “linhas”, que são as estradas rurais, conectando-as com as sedes municipais. Tome-se como exemplo o pequeno município de Ipira - SC, com 150 km2. Há “linhas” desertas, onde não há mais habitantes, tendo se transformado num ambiente desolador e deprimente, pois lá estão dezenas de casas e instalações rurais se deteriorando, vazias e silenciosas. Para quem conhece a história da colonização brasileira, fica um gosto amargo na boca e a pergunta que não quer calar: por que os governos ignoram o campo?

Rui Alberto Wolfart é engenheiro agrônomo, especializado em administração, ex-gestor público na área fundiária e produtor rural em Mato Grosso.




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