Ser ou não ser professor

Ser ou não ser professor

Ser ou não ser professor, eis a questão

Luís Fernando Santos Corrêa da Silva

25/03/2017

 
Foto Meramente Ilustrativa

Milhões de jovens brasileiros se deslocarão para a escola no dia de hoje, assim como durante todo o ano letivo. Escolas são espaços bastante diversos, visto que algumas são públicas, outras são privadas, algumas possuem biblioteca, quadra de esportes e refeitório, outras não possuem sequer banheiros adequados. Quando se trata da educação pública é possível encontrar também especificidades regionais na organização da educação brasileira, visto que alguns Estados investem mais em educação do que outros, priorizando a formação das gerações futuras em detrimento de outros investimentos que talvez merecessem a mesma sorte. Entretanto, mesmo em um quadro de imensa diversidade encontramos algo presente em todas as escolas, sempre imprescindível para que a educação aconteça: a figura do professor. Definitivamente, sem professor não há educação e se admitirmos a importância da figura do professor então nos caberá sempre uma pergunta de grande importância: por que motivo, razão ou circunstância alguém decide ser professor? A pergunta é simples, mas a resposta não é simples, até porque a decisão por uma profissão passa por aspirações pessoais e também decorre de uma análise profunda das condições do mercado de trabalho.

Salvo alguma rara exceção que desconheço, ninguém acorda num belo dia de domingo decidido a se tornar professor. O interesse pela profissão se constrói ao longo dos anos, em contato com as experiências que recolhemos e mediante uma avaliação do que queremos para a nossa vida. A escolha da profissão também depende de uma avaliação das condições do mercado de trabalho, por isso as pessoas consideram a empregabilidade, o nível salarial, as condições de trabalho, etc. Tudo isso significa que a decisão de se tornar professor é um constructo complexo, pois ninguém nasce professor ou se torna professor por intervenção divina. Para se tornar professor é preciso formação, anos de estudo, investimento econômico e emocional em uma profissão que se pretende seja para a vida toda. E talvez aqui resida um problema que está posto para a sociedade brasileira de hoje: poucos jovens querem seguir carreira na docência e essa tendência tem crescido ao longo dos últimos anos.

São muitos os motivos que afastam os jovens da carreira de professor, alguns até eventualmente superestimados. É inegável que principalmente na escola pública os níveis salariais e as condições de trabalho deixam bastante a desejar e que isso tem levado a um desinteresse cada vez maior pelos cursos de licenciaturas nas universidades. Segundo pesquisa realizada pela Fundação Carlos Chagas em 2011, apenas 2% dos jovens que chegam ao final do ensino médio teria interesse em cursar Pedagogia ou algum curso de licenciatura. Esse quadro tem se refletido na diminuição progressiva dos estudantes em tais cursos e, em muitos casos, no próprio fechamento de cursos principalmente em instituições particulares. Ou seja, em um momento em que país pretende avançar nos indicadores de escolarização da população, e para isso precisa de professores, tem diminuído o interesse dos jovens pela carreira docente.

Neste quadro, as famílias continuam procurando por boas escolas para matricular seus filhos, imaginando que isso significará um diferencial na disputa por uma profissão de prestígio e remuneração elevada no futuro. Mas afinal, quem serão os professores encarregados dessa empreitada nos próximos dez ou vinte anos? Esse talvez seja o preço da histórica desvalorização da profissão de professor, figura ainda insubstituível no processo de ensino. Enquanto não houver uma mudança substancial no estatuto da carreira, que signifique a valorização da profissão em todas as suas dimensões, permanecerá uma dúvida mesmo para aqueles que se interessam pela profissão: ser ou não ser professor, eis a questão.

Outras palavras

I – Se a docência como profissão é cercada de incertezas e de dificuldades, no Rio Grande do Sul há algo que deve ser motivo de orgulho para os professores estaduais. O CPERS, sindicato da categoria, tem um histórico invejável de luta pela qualidade da educação e pela valorização dos professores. No dia 15 de março ocorreram duas mobilizações contrárias à reforma da previdência em Erechim, uma delas organizada pelo CPERS e com grande participação de grande número de professores, além de outros sindicatos e respectivos trabalhadores. A primeira vitória, mesmo que parcial, foi obtida nesta semana. O governo retirou da proposta de reforma da previdência os estados e municípios, de modo que qualquer reforma da previdência estadual dependerá de proposta do Governo do Estado que deve ser aprovada na Assembleia Legislativa.

II – Dados divulgados pela Organização das Nações Unidas (ONU) dão conta que o Brasil despencou 19 posições no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), ocupando agora a 79º posição entre 188 países. Os dados são relativos ao ano de 2015, início do ciclo de crise econômica. O aumento da desigualdade entre ricos e pobres foi o aspecto que mais contribuiu para que o país perdesse posições no ranking, fato que reforça uma tendência histórica consagrada: nos períodos de crise, o andar de baixo é quem paga a maior fatia da conta.

III – Escrevo a coluna antes do jogo entre Ypiranga e Internacional na noite de quarta-feira. Desconheço o resultado da partida, mesmo que você que me lê já saiba o que aconteceu no confronto. Como colorado, simpatizante do Ypiranga e sócio de ambos clubes, me sinto contente por poder presenciar a decisão de uma Recopa Gaúcha em Erechim. Sou colorado e meu coração não me permite torcer contra o Internacional, mesmo sabendo que a conquista seria muito mais significativa para o Ypiranga, que colocaria uma taça inédita no armário e ainda de quebra poderia somar pontos preciosos na luta contra o descenso. Acima de tudo espero um bom jogo, de um Ypiranga embalado após a vitória do último final de semana, mas ainda com a corda no pescoço, contra um Internacional que ainda carece de afirmação. Mas fica registrado o meu desejo, que D’Alessandro erga a taça, mas que o Ypiranga obtenha duas vitórias nas duas rodadas finais do campeonato e permaneça na elite do futebol gaúcho.

Professor de Sociologia da Universidade Federal da Fronteira Sul

E-mail: lfscorrea@gmail.com

 

http://www.jbvonline.com.br/site/noticia/53288/ser-ou-nao-ser-professor-eis-a-questao 




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