seguir lutando!

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20 de Novembro: a melhor forma de comemorar é seguir lutando!

Matheus Gomes*, especial para o Jornalismo B

Página 6 - ImagemO dia 20 de novembro, dia da Consciência Negra, surgiu em meados da década de 70 em um contexto de conscientização progressiva do movimento negro, que começou a questionar a história oficial que afirmava o dia 13 de maio de 1888 enquanto o dia da libertação dos negros. Relembrar o dia da morte de Zumbi dos Palmares em 1695, ao invés de comemorar a assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel significa ter a compreensão de que a senzala virou favela; a repressão dos senhores de escravos foi substituída pelo arrocho salarial e o descaso dos governos; os capitães do mato se tornaram os traficantes, milicianos e policiais, que exterminam a juventude negra nas periferias do nosso país. 

A mobilização e o caráter de protesto sempre foram as marcas tradicionais dessa data, mas, infelizmente, nos últimos anos boa parte do movimento negro relembra a morte de Zumbi de forma despolitizada e superficial, se contentando em comemorar, ao lado dos mais variados governos, como Dilma, Tarso e Fortunati. Pergunto a eles: qual é o motivo da festa? A verdade é que a situação da população negra continua difícil e o racismo se expressa quando nos encontramos na base da pirâmide social no Brasil.

De acordo com um estudo do IPEA (2010), 63% da população que vive abaixo da pobreza é negra e o mesmo ocorre com a condição racial dos 70% que vivem abaixo da linha de indigência. Ou seja, a pobreza tem cor e a ideologia racista é utilizada pela burguesia para explorar “mais e melhor” um setor significativo da classe trabalhadora. Dentro desse contexto, a situação da juventude é a mais preocupante. Os números mostram que no Brasil está em curso uma guerra não declarada a juventude negra. Entre 2002 e 2008 o número de mortes de jovens negros, na faixa dos 15 aos 25 anos, chegou a 32.349. Em Porto Alegre, os dados do Instituto Sangari, apontam que a taxa de mortes juvenis cresceu 42% nos últimos 10 anos e a grande maioria está concentrada nos bairros da periferia da cidade, principalmente Sarandi, Lomba do Pinheiro, Santa Teresa, Restinga e Rubem Berta, onde também está concentrada a maior parte da população negra.

Frente a esse quadro, a necessidade que está colocada é a de retomar a perspectiva de organização classista e independente dos governos e patrões para o movimento negro. A história de luta dos escravos brasileiros é conhecida pela articulação de um movimento de rebeldia permanente, que foi o protagonista central da luta pela abolição da escravatura. Somente dessa forma conseguiremos dar prosseguimento a luta pelas reparações históricas ao povo negro, que já conquistou vitórias importantes como a aplicação da lei de cotas nas Universidades e Institutos Federais. Os “acordões” entre a base governista e as bancadas ruralista e evangélica limitaram o alcance do projeto, mas mesmo assim se trata do avanço de uma luta iniciada a mais de 30 anos.

Tirar conclusões sérias desse processo é entender que para além de comemorar, o momento exige organização independente para avançar na demarcação e titulação dos territórios quilombolas e exigir o fim do extermínio da juventude negra. Para isso, é necessário relembrar Zumbi e seguir lutando, pois o racismo é parte da estrutura orgânica do capitalismo. Nosso grito de liberdade precisa ecoar alto novamente, é preciso resgatar o espírito combativo do 20 de novembro.

*Integrante da Juventude do PSTU e coordenador do DCE-UFRGS.

Texto originalmente publicado no Jornalismo B Impresso 49, de novembro de 2012.

http://jornalismob.com/2013/11/20/20-de-novembro-a-melhor-forma-de-comemorar-e-seguir-lutando/




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