Polêmica

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“O futuro do Brasil depende de bons professores e de alunos competitivos”

ERIC HANUSHEK


 Esta é a primeira expressão que costuma surgir nas referências a respeito do economista norte-americano Eric Hanushek, pioneiro no desenvolvimento de pesquisas que avaliam o impacto da qualidade dos professores e os efeitos do ensino no desenvolvimento. Professor da Universidade de Stanford e pesquisador do Instituto Hoover, aos 70 anos, Hanushek parte da premissa de que o professor – mais do que qualquer outro fator – é determinante para o sucesso econômico de um país. Entusiasta da meritocracia, defende abertamente a premiação dos mestres de alta performance para que se mantenham engajados na formação de alunos competitivos. Quanto aos maus professores, devem ser realocados. “Não podemos sacrificar nossas crianças apenas para manter o emprego de todos aqueles que acharam que poderiam ser professores”


Eric Hanushek vem provocando há três décadas controvérsias entre educadores e sindicatos por acreditar ser fundamental a responsabilização direta do professor pelo desempenho do seu aluno. Foi ele o primeiro a afirmar, entre outros pontos, que o mero aumento de salário  não tem influência direta sobre a qualidade do ensino, a não ser que o aumento venha acompanhado de uma política de premiação dos melhores professores.

Para ele, um estudante que tem um mau professor pode ficar prejudicado em sua vida acadêmica para sempre. Suas pesquisas o levaram a outra constatação, incômoda para algumas escolas e teóricos da educação: a propalada ideia de que turmas reduzidas apresentam melhores resultados é um mito.

A investigação feita pelo economista sugere também que um professor de qualidade será sempre bom, independentemente do nível de conhecimento – maior ou menor – de seus alunos. Logo, todos lucram com a presença de mestres incluídos nesta classificação. Assim, do ponto de vista dele, este tipo de valor deve ser claramente reconhecido pelas escolas. A começar por salários diferenciados. Hanushek acredita que mudanças positivas em sala de aula e, por conseguinte, na economia de um país, só irão acontecer quando os professores verdadeiramente eficientes forem reconhecidos pelo sistema.

Conhecedor do sistema educacional brasileiro, ele vem afirmando que, com o atual desempenho do país em rankings internacionais de ensino, são mínimas nossas chances de crescer em ritmo chinês ou do Brasil se tornar mais competitivo no cenário internacional. Desenvolvimento - Nos últimos anos, o Brasil obteve notável crescimento econômico, apesar de alguns setores da sociedade chamarem atenção para investimentos insuficientes em educação.

Como o senhor avalia essa situação?

Eric Hanushek - O Brasil cresceu rapidamente. Esse crescimento se reflete melhorando as  instituições econômicas básicas do país para que os recursos sejam mais bem utilizados. Contudo, os ganhos recentes na educação dificilmente podem ser considerados as causas do crescimento, mas eles vão ajudar o desenvolvimento futuro do país.

Desenvolvimento - Mas nos últimos anos o Brasil conseguiu colocar 97% das crianças em sala de aula. Por qual razão esses ganhos não teriam influenciado nosso crescimento econômico?

Eric Hanushek - Os números que reuni nas últimas décadas mostram que avanços na sala de aula têm peso decisivo para a evolução dos indicadores econômicos. Mas o que impulsiona a economia é a qualidade da educação, não a quantidade de alunos na escola. O Brasil permanece nas últimas colocações em rankings internacionais de ensino. Com esse desempenho, as chances do país crescer em ritmo chinês e se tornar mais competitivo no cenário internacional são mínimas. Se as notas dos estudantes subissem apenas 15% nas avaliações, a cada ano o Brasil somaria meio ponto porcentual às suas taxas de crescimento. Isso significaria avançar em um ritmo 10% maior.

Desenvolvimento - De que maneira as políticas públicas brasileiras poderiam atender melhor a esse modelo de desenvolvimento associado à educação?

Eric Hanushek - A introdução de melhores sistemas de responsabilidade para escolas e professores é um elemento importante na melhoria da educação brasileira. A grande demanda por melhorias educacionais está levantando a qualidade dos professores no Brasil. Mas melhorar a qualidade dos professores geralmente requer o recebimento de melhores incentivos. Sistemas de responsabilidade são absolutamente necessários. Além disso, é importante recompensar as pessoas que estão fazendo um bom trabalho. Ou seja, é importante pagar pelo desempenho.

Desenvolvimento - Programas de governo que oferecem dinheiro às famílias para que mantenham seus filhos na escola, de modo a evitar a evasão escolar, seriam equivocados?

Eric Hanushek - Os incentivos financeiros do governo para as famílias visando encorajar maior presença nas escolas têm obtido sucesso nesse aspecto. Porém, esses programas não obtiveram sucesso nas melhorias do aprendizado do estudante e em suas conquistas. Se os estudantes forem para a escola e não aprenderem nada, não vai haver melhora na economia. É muito importante garantir uma escolaridade de alta qualidade para os estudantes. É o aprendizado do estudante que importa, e não a mera presença na escola.

Desenvolvimento - Aos professores eficientes, somam-se um currículo escolar com real qualidade, prédios escolares com condições ergonômicas satisfatórias e pais interessados na educação dos filhos. Ainda assim, teríamos estudantes com níveis intelectuais e de interesses diferentes. Como extrair daí bons resultados que influenciem significativamente a economia de um país?

Eric Hanushek - Novamente, professores de alta qualidade podem motivar todos os estudantes a se saírem bem na escola. É mais complicado lidar com estudantes desmotivados ou que chegam despreparados à escola. Ainda assim, boas escolas já mostraram poder superar esses fatores.

Desenvolvimento - Vivemos em sociedades altamente competitivas. O senhor defende uma educação mais competitiva, que formará jovens preparados para enfrentar os desafios dessas mesmas sociedades. De que forma - e em quanto tempo - os professores conseguirão atender a essa exigência?

Eric Hanushek - Sociedades modernas são competitivas. Os melhores trabalhos vão para as pessoas mais bem treinadas. E mais do que isso, cada economia está em uma competição mundial. Trabalhadores brasileiros competem com trabalhadores chineses, vietnamitas e americanos. Nós vemos essa competição em todo lugar. A Seleção Brasileira de futebol está no topo do mundo porque seus jogadores são extraordinariamente bons (em grande parte por causa da competição para assegurar seu lugar no time). Existem poucas evidências de que as escolas se saem melhor se evitarem a competição que nós vemos em todas as partes bem--sucedidas da economia.

Desenvolvimento - As escolas clássicas, inspiradas na Academia de Platão e no Liceu de Aristóteles, tinham profundas preocupações em forjar os valores éticos dos estudantes. Em nossos tempos, Maria Montessori apresentou a proposta pedagógica de buscar harmonizar a interação corpo, espírito, inteligência e vontade, método este que só encontrou ressonância em pequenos nichos de escolas particulares. Insistindo na questão anterior, ainda há espaço para uma educação que coloque em primeiro plano a questão dos valores e não do mercado?

Eric Hanushek - Se preocupar com valores e ética não é algo incompatível com boas escolas. Escolas podem transmitir altos níveis de habilidades cognitivas, enquanto também desenvolvem éticas e valores morais. Na verdade, existem poucas evidências de que o maior desenvolvimento de habilidades acadêmicas prejudica o desenvolvimento de valores. Essa é uma falsa dicotomia (normalmente empurrada por pessoas que não querem ser vistas como as responsáveis pelo principal objetivo das escolas, que é o desenvolvimento de habilidades acadêmicas).

Desenvolvimento - Do seu ponto de vista, educação, economia e desenvolvimento andam de mãos dadas. No entanto, em um país com as características sociais, culturais e territoriais do Brasil, padronizar o nível excelente em educação é um desafio. De que forma pode ser superado?

Eric Hanushek - O governo brasileiro e os brasileiros em si devem reconhecer que o futuro do Brasil depende da melhoria na qualidade das escolas. Se as pessoas não estão dispostas a melhorar as escolas, elas estão aceitando o fato de que o poder econômico do país vai permanecer bem abaixo do que poderia estar. As preocupações recentes sobre o nível e a distribuição de riquezas no Brasil só podem ser expressas por meio de melhoria das escolas.

Desenvolvimento - Dentro dessa proposta, qual o espaço para as características próprias de cada região e para o multiculturalismo, conceitos cada vez mais pregados pelos novos movimentos sociais que lutam contra a globalização?

Eric Hanushek - Existem grandes vantagens na preservação da herança cultural do Brasil. Mas isso pode ser feito dentro do contexto do desenvolvimento e comércio mundial. Muitos outros países do mundo mostraram que isso é possível. Além disso, a qualidade de vida dentro da cultura brasileira pode ser melhorada por meio de escolas de alta qualidade.

Desenvolvimento - O senhor afirma que não adianta aumentar o salário dos professores simplesmente para satisfazê-los, mas que é importante valorizar e incentivar os bons mestres. Como selecioná-los sem se cometer injustiça com os demais, considerando que cada profissional tem características singulares que podem influenciar de  um jeito ou de outro no aprendizado de seus alunos?

Eric Hanushek - Em cada país onde isso foi estudado, nós vimos que existem grandes diferenças na efetividade dos professores. Alguns professores são simplesmente muito melhores que outros. Se o nosso interesse é na educação das nossas crianças e no desenvolvimento de habilidades na população, nós devemos recompensar aqueles que fazem o melhor trabalho em ensinar.

“Se as pessoas não estão dispostas a melhorar as escolas, elas estão aceitando o fato de que o poder econômico do país vai permanecer bem abaixo do que poderia estar”

Desenvolvimento - Vivemos em sociedades altamente competitivas. O senhor defende uma educação mais competitiva, que formará jovens preparados para enfrentar os desafios dessas mesmas sociedades. De que forma - e em quanto tempo - os professores conseguirão atender a essa exigência?

Eric Hanushek - Sociedades modernas são competitivas. Os melhores trabalhos vão para as pessoas mais bem treinadas. E mais do que isso, cada economia está em uma competição mundial. Trabalhadores brasileiros competem com trabalhadores chineses, vietnamitas e americanos. Nós vemos essa competição em todo lugar. A Seleção Brasileira de futebol está no topo do mundo porque seus jogadores são extraordinariamente bons (em grande parte por causa da competição para assegurar seu lugar no time). Existem poucas evidências de que as escolas se saem melhor se evitarem a competição que nós vemos em todas as partes bem- sucedidas da economia.

Desenvolvimento - As escolas clássicas, inspiradas na Academia de Platão e no Liceu de Aristóteles, tinham profundas preocupações em forjar os valores éticos dos estudantes. Em nossos tempos, Maria Montessori apresentou a proposta pedagógica de buscar harmonizar a interação corpo, espírito, inteligência e vontade, método este que só encontrou ressonância em pequenos nichos de escolas particulares. Insistindo na questão anterior, ainda há espaço para uma educação que coloque em primeiro plano a questão dos valores e não do mercado?

Eric Hanushek - Se preocupar com valores e ética não é algo incompatível com boas escolas. Escolas podem transmitir altos níveis de habilidades cognitivas, enquanto também desenvolvem éticas e valores morais. Na verdade, existem poucas evidências de que o maior desenvolvimento de habilidades acadêmicas prejudica o desenvolvimento de valores. Essa é uma falsa dicotomia (normalmente empurrada por pessoas que não querem ser vistas como as responsáveis pelo principal objetivo das escolas, que é o desenvolvimento de habilidades acadêmicas).

Desenvolvimento - Do seu ponto de vista, educação, economia e desenvolvimento andam de mãos dadas. No entanto, em um país com as características sociais, culturais e territoriais do Brasil, padronizar o nível excelente em educação é um desafio. De que forma pode ser superado?

Eric Hanushek - O governo brasileiro e os brasileiros em si devem reconhecer que o futuro do Brasil depende da melhoria na qualidade das escolas. Se as pessoas não estão dispostas a melhorar as escolas, elas estão aceitando o fato de que o poder econômico do país vai permanecer bem abaixo do que poderia estar. As preocupações recentes sobre o nível e a distribuição de riquezas no Brasil só podem ser expressas por meio de melhoria das escolas.

Desenvolvimento - Dentro dessa proposta, qual o espaço para as características próprias de cada região e para o multiculturalismo, conceitos cada vez mais pregados pelos novos movimentos sociais que lutam contra a globalização?

Eric Hanushek - Existem grandes vantagens na preservação da herança cultural do Brasil. Mas isso pode ser feito dentro do contexto do desenvolvimento e comércio mundial. Muitos outros países do mundo mostraram que isso é possível. Além disso, a qualidade de vida dentro da cultura brasileira pode ser melhorada por meio de escolas de alta qualidade.

Desenvolvimento - O senhor afirma que não adianta aumentar o salário dos professores simplesmente para satisfazê-los, mas que é importante valorizar e incentivar os bons mestres. Como selecioná-los sem se cometer injustiça com os demais, considerando que cada profissional tem características singulares que podem influenciar de um jeito ou de outro no aprendizado de seus alunos?

Eric Hanushek - Em cada país onde isso foi estudado, nós vimos que existem grandes diferenças na efetividade dos professores. Alguns professores são simplesmente muito melhores que outros. Se o nosso interesse é na educação das nossas crianças e no desenvolvimento de habilidades na população, nós devemos recompensar aqueles que fazem o melhor trabalho em ensinar.

 “Se as pessoas não estão dispostas a melhorar as escolas, elas estão aceitando o fato de que o poder econômico do país vai permanecer bem abaixo do que poderia estar

Eric Hanushek - Muitos desses são julgamentos que a sociedade brasileira deve abandonar. É um infortúnio quando a sociedade não pode ter um debate civil sobre prioridades e objetivos sem ter pessoas sendo acusadas de má-fé ou visões incorretas.

Desenvolvimento - No Brasil, fala-se muito em melhorar a capacidade dos professores, de modo a que se tornem mais bem remunerados e eficientes. Um professor mais eficiente torna, necessariamente, o aluno mais eficiente?

Eric Hanushek - Como indiquei anteriormente, acho que é necessário olhar para quão efetivos os professores são em melhorar o aprendizado dos estudantes. A efetividade de um professor simplesmente não está totalmente relacionada ao treinamento e à história, então não se deve apenas olhar as características do professor. Salários pagos pelas características que não estão diretamente relacionadas à efetividade em sala de aula não vão ajudar a melhorar as escolas.

Desenvolvimento - O senhor poderia citar os principais fatores que contribuem para que um país seja chamado de primeiro mundo?

Eric Hanushek - Eu acredito que a definição principal de um país de primeiro mundo é aquele que tem um sistema econômico operando próximo ao limite do que é possível – usando os melhores processos de produção, empregando a maior parte da população em atividades habilidosas, sendo competitivo nos mercados internacionais por produtos e serviços. Todos esses aspectos estão obviamente correlacionados a um alto PIB per capita.

Desenvolvimento - O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) do Brasil cresceu 47,5% entre 1991 e 2010. Que avaliação o senhor faz do Brasil após a publicação desses dados? Isso poderá tornar o país mais competitivo?

Eric Hanushek - O IDH é designado para dar ampla indicação de como um país está se saindo em desenvolver as habilidades de sua população. Eu, pessoalmente, não gosto da ênfase na aquisição escolar, porque anos de escolaridade não estão relacionados de maneira muito próxima ao nível de habilidades ao redor dos países. De novo, o desafio do Brasil é levantar a qualidade da educação para todos os seus estudantes porque é assim que o país poderá melhorar a qualidade da força de trabalho futura.

Desenvolvimento - O senhor cita a longa liderança dos Estados Unidos em seu poderoso motor para o progresso científico e tecnológico, devido ao grau de abertura de sua economia e à segurança institucional. O Brasil caminha hoje nessa direção?

Eric Hanushek - O Brasil tem feito alguns progressos essenciais nessas dimensões. Para promover crescimento, é necessário liberar tanto trabalho quanto produtos de mercado de regulamentações e restrições. É também necessário respeitar os direitos da propriedade privada e tentar minimizar a quantidade de intrusão governamental na operação da economia privada. Os países que mais se beneficiaram do investimento no ensino, como Coreia do Sul e Finlândia, têm um ponto em comum: são economias abertas. Quando boa educação vem aliada a uma economia aberta, seu efeito no PIB é três vezes maior do que em países mais fechados. O progresso que o Brasil tem feito nessas direções é encorajador.

Desenvolvimento - Qual a sua avaliação do Brasil hoje no mundo como país emergente, que retirou mais de 20 milhões da linha de pobreza e que, de certa forma, contribuiu no processo deredução da pobreza mundial?

Eric Hanushek - O progresso da economia brasileira tem sido muito forte. As coisas que são necessárias levam muito tempo para serem totalmente conquistadas, e o sucesso de longo prazo virá caso o Brasil continue comprometido com políticas fortes e consistentes. Mas o país já mostrou a determinação e a capacidade de ganhar melhorias na economia em nível mundial. O Brasil é certamente um modelo para muitas nações da América Latina. E tem a possibilidade de se tornar um modelo mundial para o sucesso.

Perfil

Eric Alan Hanushek é PhD em Ciências Econômicas pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), pesquisador do Hoover Institution e professor da Universidade de Stanford, nos EUA. Desde a apresentação de sua tese de doutorado pelo MIT, A Educação de Negros e Brancos, ele vem provocando controvérsias por defender abertamente meritocracia, muitas vezes deixando em segundo plano as políticas afirmativas. Foi consultor para o governo americano em diversos programas voltados ao assunto. É reconhecido por ter apresentado uma das mais amplas pesquisas já realizadas sobre o papel dos professores na formação do aluno e suas implicações na economia dos países. É autor ou coautor de 20 livros sobre economia e educação.




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