Pobres e elite na mesma escola

Pobres e elite na mesma escola

Educação só será de qualidade quando pobres e elite estudarem na mesma escola, diz Bernardo Toro

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

O educador colombiano veio para Porto Alegre e participou de almoço na Federasul
| Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Débora Fogliatto

Imagine que o sistema de saneamento de Porto Alegre tem dois modelos: um para os que podem pagar mais, que recebem a água potável e têm acesso a saneamento básico, e outro para os que não podem arcar com as despesas, que ficam sem tratamento de esgoto. Seria impossível considerar que esse sistema é de qualidade. É assim que acontece com a educação na América Latina atualmente, segundo o educador e filósofo colombiano Bernardo Toro. Há um sistema para os que podem pagar e um diferente para os que não podem, fazendo com que as diferenças sejam gritantes entre os que estudam em cada um deles.

Toro esteve em Porto Alegre para conhecer, durante três dias, a ONG Parceiros Voluntários, cuja gestão participativa é baseada em seus ensinamentos. Para ele, o voluntariado “parece ser um esquema de mudança de consciência” que pode ser útil, e que ele planeja aplicar na Colômbia, onde vive. Nesta quarta-feira (18) ele participou do Tá na Mesa, na Federasul, e concedeu entrevista coletiva à imprensa. O professor é autor dos livros A construção do público: cidadania, democracia e participação; Mobilização social: um modo de construir a democracia e a participação e Fala Mestre: precisamos de cidadãos do mundo.

Para ele, que falou sobre questões referentes à América Latina em geral, o problema político no continente está relacionado à uma crise da cidadania, não a questões de esquerda e direita. “As pessoas que protestam contra governos não querem acabar com o Estado, mas querem instituições que se pareçam com elas. O problema é que nunca se deu o próximo passo”, avaliou. Toro aponta que a sociedade é movida por interesses, o que significa que mudanças apenas ocorrem quando há convergência de interesses. “A política não é a ciência do poder, é a ciência de criar convergências de interesses”, acredita.

Para que haja essa convergência, é preciso que grupos se organizem em torno de seus interesses. É por isso que os Estados Unidos conseguiram se desenvolver e se tornar uma potência mundial de forma tão rápida após o fim da colonização no país. “A América do Norte conseguiu se organizar. Sem organização, uma pessoa pode ser comprada, pode ser enganada, porque não sabe defender seus interesses”, apontou.

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Toro avalia que a educação precisa de um projeto para conseguir mudar e avançar
| Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Ao mesmo tempo, embora a educação sozinha não produza mudanças, nenhuma mudança pode acontecer sem educação, segundo o professor. “A educação só tem sentido dentro de um projeto, então a América Latina tem que saber o que quer. O problema é que aceitamos que há dois modelos educativos: um para os filhos das elites e outro para os outros, e aceitamos isso como normal”, disse, enfatizando que é por isso que nenhum país da América Latina, à exceção de Cuba, tem uma educação de qualidade.

Ele aponta que “se fosse uma exigência que políticos colocassem seus filhos em escolas estatais, a educação melhoraria rapidamente”. Toro usa a palavra “estatais” para se referir às escolas estaduais, federais e municipais na América Latina, ao invés de “públicas”, porque considera que as públicas seriam onde todas as pessoas estudassem, não apenas determinada classe social.

O papel do educador não deve ser apenas ministrar aulas, mas sim ser a pessoa responsável pelo aprendizado, disse ele. “Falamos de educador como um docente, mas não deveria ser isso. Dar aulas é uma estratégia, mas a questão principal é a aprendizagem”, afirmou. E a própria sociedade deve atribuir esse papel aos professores, para que eles consigam cumprir sua função. “O problema é que nos últimos cinquenta anos as crianças aprendem as mesmas coisas. E quando elas fracassam, culpam os próprios alunos”, criticou, defendendo que “qualquer pessoa pode aprender qualquer coisa se tiver educação e método”.

Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Ele veio a convite da ONG Parceiros Voluntários | Foto: Caroline Ferraz/Sul21

Outro ponto necessário para que a educação melhore é a valorização dos professores como pessoas que resolvem problemas que precisam ser resolvidos, apontou. Ele usou como exemplo o jogador da seleção brasileira Neymar, que fatura milhões de reais porque consegue fazer com habilidade algo que o Brasil quer que ele faça: marcar gols. “Se pensarmos que a educação é nosso principal problema a ser resolvido, veremos os professores como as pessoas que podem resolvê-lo. Se paga mais para uma pessoa quando se percebe sua capacidade de resolver os problemas que importam”, avalia.

Os países com melhor educação no mundo aplicam essa questão de ter um sistema igual para todos. “Em Estocolmo, o filho do presidente da Volvo e o filho do vendedor de peixe estudam na mesma escola. E são amigos”, disse ele durante a palestra. A educação também tem que ser modelada a partir do trabalho cooperativo, e não de forma vertical, e com a participação de toda a sociedade.

 

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