Para educar, só com carinho

Para educar, só com carinho

Só se educam as crianças se se faz com carinho, segundo o filme "O garoto" de Chaplin

José Paz Rodrigues (*) -

Se não há crianças não há vida nem futuro. Nem progresso, nem alegria, nem desenvolvimento. Os países emergentes que existem hoje no mundo, com aumento anual do seu produto interno bruto, é devido em grande parte a que têm uma população jovem elevada. Tanto de crianças como de jovens. Essa população jovem bem preparada, é altamente produtiva.

Eu, que todos os anos viajo a esse país emergente que é a Índia, desfruto muito ali vendo que há crianças. Tanto nas aldeias como nas cidades. Que no rural é um prazer arrodear-se em menos de cinco minutos dum cento de rapazes cheios de alegria, entusiasmo e educação. Quando no seu dia estive em Bruxelas, comprovei como os casais muçulmanos levavam pelas ruas, no colo, da mão e no carrinho, três filhos em média. Os belgas, como outros muitos europeus, por egoísmo e comodidade, não trazem nenos ao mundo. Em pouco tempo Bruxelas será de maioria muçulmana.

Embora seja pouco correto politicamente assertá-lo, achamos que um dos melhores projetos seria contemplar quanto antes o poder estabelecer um bom salário para as mães. Para as que deem à luz filhos, os cuidem e os eduquem na primeira escola maternal que é a casa. Ver, por exemplo, na cidade de Ourense, casais jovens que não têm filhos, mas que levam por uma pequena trela um ou dous cãezinhos, é para além de chocante, enormemente preocupante. Um país rico é aquele que tem nenos, que são a vida mais importante. Só podem progredir os países que têm crianças. O baixo índice de natalidade na Galiza e Portugal, e em muitos países ocidentais, junto com o desemprego, ao que vai ligado, é um gravíssimo problema social. Que há ter consequências muito negativas no futuro para os nossos países.

Naturalmente, depois de ter nenos, procriando ou adotando, também é muito importante a sua educação. Realizada de forma adequada e harmónica. Com estratégias motivadoras e com didática acertada. Mas, antes temos que ter nenos. Ainda que tenhamos que trazê-los da Bengala. Com as suas famílias, para cultivar os nossos campos que temos a ermo em grande quantidade. O presente comentário está centrado desta vez em afirmar algo muito importante: que as crianças não podem ser bem educadas se na sua educação não são tratadas com carinho. Até o ponto, que me atrevo a afirmar que não se educa se não se faz com verdadeiro e autêntico carinho. Todas as crianças precisam, além de serem bem aceites, de serem tratadas com amor, com cuidado, com bondade, com alegria, com compreensão da sua especial psicologia, sem violência e com um trato afável. Só assim imos conseguir uma verdadeira educação das nossas crianças. Todos os grandes educadores e pedagogos, especialmente Tagore, tinham isto que asserto muito claro e presente. E por isso ficou na história da educação o seu labor pedagógico como modelar. Não conheço nenhum educador ou educadora de que tenha ficado o seu nome e o seu labor de forma destacada para a posteridade, que não tratasse com verdadeiro amor aos seus estudantes e alunos.

Acho que para este meu comentário escolhi o filme acertado. Uma verdadeira obra-mestra do cinema realizada e interpretada por Charlie Chaplin em 1921, sob o título de O Garoto (em Portugal O Menino, e em castelhano El Chico).

 

Ficha técnica do filme:

Título original: The Kid (O Garoto / O Menino / El Chico).

Diretor e Roteiro: Charles Chaplin (EUA, 1921, 68 min., Preto e Branco, mudo com legendas).

Fotografia: Rollie Totheroh.

Atores: Charles Chaplin (O vagabundo), Edna Purviance (A mãe), Jackie Coogan (O garoto), Baby Hathaway (O garoto quando era um bebê), Carl Miller (O artista), Granville Redmond (O amigo), Tom Wilson (O polícia), May White (A esposa do polícia).

Argumento: Uma mãe pobre, sozinha e solteira deixa um hospital de caridade com o seu filho recém-nascido. A mãe percebe que ela não pode dar para o seu filho todo o cuidado que ele precisa, assim ela prende um bilhete junto à criança, pedindo que quem o achar cuide e ame o seu bebé, e o deixa no banco de trás de um luxuoso carro que pertence a uma família de pessoas ricas. Depois de ver uma babá com uma criança, ela se arrepende, porém já é tarde, pois dous ladrões já levaram a criança. Estes, sem saber o que fazer com o garoto, deixam-no numa rua qualquer. Um vagabundo vai passeando e percebe um pequeno “pacote”, que julga ter caído de algum lugar. Vai em busca do “dono”, porém não o encontra. Acaba levando o garoto para casa e, por falta de opção, decide cuidar dele. O garoto cresce, e torna-se seu companheiro, partilhando a pobreza e a comida.

A mãe do garoto transforma-se numa mulher rica, porém amargurada por não ter o seu filho. Ela reencontra o pintor, pai do garoto, e conta o que aconteceu na sua vida. É fazendo doações às crianças pobres, que ela chega ao local onde o seu filho vive. E sem que o saiba, encontra-se com ele. O garoto fica doente, e o vagabundo chama o médico. Este, achando que a criança não vive num local apropriado, chama a polícia, para que encaminhe o garoto para um albergue para menores. Levam o garoto, e a mãe finalmente, ao ler o bilhete que deixara na cesta junto ao bebé, tem certeza de que se trata do seu filho abandonado. Sem dúvida alguma, o filme em que Chaplin conseguiu unir a comédia e o drama na sua maior perfeição. O momento em que o garoto é levado para o orfanato, e o vagabundo é preso por dous homens, enquanto escuita os gritos, é de uma comoção inatingível até então. Ele conseguiu passar sem nenhuma palavra, todo o sentimento embutido naquele momento tão triste. Certamente é este um dos melhores filmes de Charles Chaplin. É daqueles filmes que todos deveriam ver ao menos uma vez na vida.

Notas: A trilha sonora de O Garoto foi apenas composta em 1971, pelo próprio Charles Chaplin, e inserida em uma nova versão do filme. O orçamento de O Garoto foi de US$ 250 mil, sendo que o filme arrecadou US$ 2,5 milhões apenas nas bilheteiras norte-americanas. No Brasil foi lançado em DVD juntamente com Vida de Cachorro, também estrelado por Chaplin.

Chaplin levou quase um ano fazendo este filme, a sua primeira longa-metragem. Foi também, o primeiro filme em que ele permitiu dividir os créditos por um sucesso. Jackie Coogan foi, juntamente com Chaplin, o astro principal. Com este filme, entra na sua vida Lita Grey, que viria a se transformar na segunda Sra. Chaplin. Ao começar este filme, ele estava divorciando-se de Mildred Harris, que abortara o seu primeiro filho. O filme teve inspiração na própria infância de Chaplin, na Inglaterra. Ele também, como o garoto, foi para um orfanato, e sofreu a ausência de amor. Foi sonorizado em 1937, com música de Henry Verdun. Em 1971 Chaplin compôs uma nova trilha. A imagem do garoto e do vagabundo sentados numa soleira de porta é a mais reproduzida em todo o mundo, até hoje. Segundo Jackie Coogan, os métodos de Chaplin para colher uma interpretação dele eram no mínimo curiosos: para a cena em que ele precisou que o garoto chorasse (ao ser levado para o orfanato), Chaplin o levou para um canto e contou que seus pais o levariam realmente para um orfanato. O garoto começou a chorar. Pronto, estava preparado. Jackie Coogan, que fez de Garoto, era filho de um casal amigo de Chaplin, da alta sociedade, e que cativou bastante o ator pelo seu talento e carisma. Depois deste filme, transformou-se num ator requisitadíssimo. Uma das primeiras estrelas destacadas do cinema. Casou-se com Betty Grable e afastou-se das telas. Depois do sucesso, já mais velho e careca, ele fez o Tio Fester, da Família Adams.

 

 

Só se educa se se ama:

Muito se tem falado sobre Charlie Chaplin, sobre as suas declarações polémicas e o modo de vida simples que fascinaram toda uma época e ainda possui admiradores em tempos de grandes diretores.

Os seus filmes são extremamente atuais e continuam cativando com as suas mensagens singelas e com críticas de um mundo perdido em valores e ética. Por ter o dom de fazer rir em meio a guerras e fame, Chaplin tirou risos de pessoas em meio à Grande Depressão com a sua comédia pastelão em cinema mudo. Ele foi ator, diretor, produtor, humorista, empresário, escritor, comediante, dançarino, roteirista e músico britânico. O filme “O garoto” foi lançado sem trilha sonora em meados de 1921 e teve a trilha sonora inserida em 1971, pelo próprio Chaplin numa nova versão. Um misto de humor e emoção contagiam o espetador pelo excelente roteiro e interpretações que emocionam muito mais que fenómenos atuais.

O garoto cresce aprendendo as malandragens da sobrevivência e aprende valores de família com o vagabundo. Em paralelo, a sua mãe investe na carreira e se torna uma atriz famosa e rica que jamais abandonou a esperança de encontrar o filho. O juizado descobre o garoto e tenta levá-lo a um abrigo, pois, a vida com o vagabundo era  muito pobre. Porém, o amor dos dous impede a separação e pelo destino a mãe o encontra novamente e acolhe os dous na sua mansão. Chaplin tentava pelos seus filmes passar as dificuldades da época, porém, com uma mensagem positiva no final. A mensagem do garoto é singela e importante, não desista de um sonho nem que seja ele consertar um erro do passado, faça acontecer e mostre o seu valor. Propague o bem e tenha amor ao próximo. A solidariedade não tem classe social e sim integridade humana.

De forma muito acertada, a brasileira Luciana Azevedo Rodrigues fez uma crítica do presente filme que apoia o nosso comentário. O cinema mudo de Charles Chaplin assistido numa época de tantos sons, encanta ao lembrar quão importante é o silêncio para a palavra, para o pensamento e para a vida humana. Este filme realizado em 1921, mostra a difícil trajetória de uma relação de afetividade entre o digno vagabundo e um garoto abandonado pela mãe, quando recém-nascido; filho de uma atriz e de um pintor que, ao longo do enredo do filme se tornam famosos e sofrem a culpa de terem negado o vínculo amoroso de um pelo outro em prol do sucesso e reconhecimento. Ao se arrepender por abandonar o filho dentro de um carro, a mãe retorna para pegá-lo de volta, descobre que o carro foi roubado.

Os ladrões ao descobrirem o bebê, jogam-no ao lado de latas de lixo. Carlitos, o vagabundo, tão despreocupado com o que vinha dos céus e tão envolvido com as cousas do chão, encontra a criança e mais do que depressa, tenta encontrar alguém que possa ficar com ela, liberando-o dessa responsabilidade. A luita para não ficar com a criança cessa quando ele vê que não há alguém que possa cuidar dela senão ele, tão sem jeito, tão vagabundo. Ao longo de cinco anos, o garoto e mais ele dedicaram-se um para o outro na luita pela sobrevivência e, mesmo nessa dedicação, no seu jeito de cuidar da higiene do garoto, é difícil não comparar o lustre que ele dá na pele do garoto com o do sapato, ou do carro quando ao mesmo tempo confere se o menino se limpou adequadamente.

A própria ideia de adequação é colocada em xeque a todo momento no filme, como se não fosse mais possível falar em adequação, quando a organização das relações se adequam cada vez mais às necessidades de reprodução do sistema económico pautado no lucro, no Capital. Isso ocorre de modo explícito quando a figura do médico e dos oficiais de justiça, que ideologicamente são aqueles a quem compete cuidar são apresentados como aqueles que se negam a perceber o que precisa de cuidados. Nesse sentido, o vagabundo cuida e sofre a perda quando o garoto é retirado não de sua cama, de uma cama qualquer, onde ambos dormiam carinhosamente. Levado pelo dono da cama alugada até o juizado de menores, devido à alta recompensa oferecida no jornal, o Garoto é recuperado por sua mãe, que ao ficar famosa também passou a fazer caridade nas imediações da casa onde o vagabundo e o garoto moravam.

Em uma de suas passagens por ali, a atriz descobre que o garoto era seu filho abandonado. O filme termina com o aperto de mão entre polícia e vagabundo, com o “carinhoso” beliscão do polícia na bochecha do garoto na porta da bela casa da atriz. O que se poderia dizer sobre os significados desta última cena? Esta é uma dentre as várias questões que o filme leva a pensar. O seu silêncio, assim, fala muito mais que muitas falas de hoje em dia! As imagens falam por sim mesmas, demonstrando mais uma vez que uma imagem vale mais que mil palavras. E que o amor é o aspeto humano mais profundo de todos, que move até montanhas. Embora, infelizmente, seja hoje aquilo que mais falta no mundo atual e entre os seres humanos, levados pela cobiça e o dinheiro.

 

 

Temas para refletir e elaborar:

Depois de ver o filme, utilizando a técnica de dinâmica de grupos do “cinema-fórum”, debater sobre os aspetos fílmicos do mesmo, o roteiro e a linguagem cinematográfica utilizada pelo excelente diretor e ator Charlie Chaplin. Refletir sobre os papéis dos protagonistas da fita e a problemática social que na mesma aparece.

Juntos, professores e alunos, seria bonito realizar nos estabelecimentos de ensino um debate-papo ou tertúlia, depois de ler a seguinte formosa mensagem de Robindronath Tagore: “Tenho de confessar que eu fui um tunante e que deixei de ir à escola quando tinha treze anos; com o qual o meu exemplo não é bom de seguir; mas depois tratei de desquitar-me do tempo perdido e pus-me a esta tarefa de ensinar aos meus nenos de Santiniketon. Para ser mestre de crianças é completamente necessário ser como uma criança, esquecer o que sabemos e que chegamos ao final dos conhecimentos. Se se quiser ser um verdadeiro guia de crianças, não há que pensar em que se tem mais idade, nem que se sabe mais, nem nada do género; há que ser um irmão mais velho, disposto a caminhar com as crianças pela mesma senda do saber elevado e da aspiração. E o único conselho que posso dar-vos nesta ocasião, se tendes que dedicar-vos a ensinar aos filhos do homem, é este: que cultiveis a alma da criança eterna. Com alegria e com amor”.

Em grupos de alunos realizar trabalhos por equipas, seguindo o modelo de Freinet, sobre a legislação de Proteção de Menores e os sistemas de acolhida e a adoção de crianças. Paralelamente poderiam organizar-se amostras de trabalhos, fotos, cartazes, livros e murais alusivos, poemas, contos, etc., elaborados pelos próprios alunos.

 

 

http://www.pglingua.org/opiniom/as-aulas-no-cinema/5998-so-se-educam-as-criancas-se-se-faz-com-carinho-segundo-o-filme-qo-garotoq-de-chaplin

 




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