O dia das crianças e os inocentes

O dia das crianças e os inocentes

O dia das crianças e os inocentes da nossa democracia        

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Por Ana Helena Tavares(*), editora do QTMD?

O “dia das crianças” no Brasil é papo para “gente grande”. Acontecimentos importantes – todos eles trágicos – ocorridos em 12 de Outubro de 1968, 12 de Outubro de 1976 e 12 de Outubro de 1992 dão o tom de dramaticidade da data.

O dia em que tantas crianças abrem largos sorrisos – principalmente, as mais abastadas – é também, como nos conta a História, um dia marcado por dor e lágrimas. Crianças só querem saber de pique-pega e não imaginam que a política é a arte daqueles que, mesmo devendo muito, não se deixam pegar.

Em 12 de Outubro de 1968, cem estudantes foram presos pelo “crime” de participarem do Congresso de Ibiúna. A ditadura enquadrou todos na famigerada Lei de Segurança Nacional. Além de presos, muitos foram torturados e exilados. Vários deles são hoje figuras conhecidas na política.

E que punição foi dada aos agentes do Estado que os prenderam arbitrariamente? E quantas pessoas no Brasil conhecem os rostos, os nomes ao menos, daqueles agentes? Será que essa impunidade não interessa aos que dizem lutar contra a corrupção? Será que não é um empecilho para a nossa democracia?

Será que os que se revoltam contra o sistema não percebem que podem, a qualquer momento, ser enquadrados naquela mesma lei, como aconteceu recentemente em São Paulo? Se o nosso sistema de segurança pública é uma árvore podre – e a classe média está sentindo as consequências – por que não se ataca as raízes do problema?

Em 12 de Outubro de 1976, D. Pedro Casaldáliga, hoje bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia, e o padre João Bosco Burnier, assassinado naquele dia por um agente da ditadura, estavam numa delegacia para defender mulheres negras torturadas. Aquela foi uma das 4 ocasiões em que o bispo foi quase expulso do Brasil.

Ainda hoje, policiais, na certeza da impunidade, continuam torturando, matando e desaparecendo com negros pobres. Ah, e se fossem bandidos? Mata! Esfola! Afinal, como qualquer criança sabe, matar formiga é a forma mais eficaz de acabar com todos os formigueiros do mundo. Eu mesma já matei um monte. E elas continuam aí…

Repito: quando atacarão a raiz do problema? Quando entenderão que elefantes brancos não alimentam um povo? Se você defende a truculência policial, sem perceber que ela pode te atingir; se você bate palma para teleférico, porque você pode voar, sem perceber que tem gente no esgoto; é melhor ficar atrás de um vidro à prova de balas.

Quantas crianças trocariam as balas de revólver por balas de açúcar, se pudessem? Crianças, tantas vezes levantadas no colo por candidatos sorridentes, não podem imaginar que a política é feita com muito ódio, mesmo que o Dr. Ulysses Guimarães dissesse que não deveria ser assim.

E foi num dia das crianças, de 1992, que o velho timoneiro da democracia desapareceu após a queda do helicóptero onde estava. Eu tinha 7 anos e via – como ainda vejo – o mundo de cabeça para baixo. Achava – como ainda acho – que morrer no mar é um prêmio.

Ulysses não era um homem de grandes preocupações sociais, mas aprendi a respeitá-lo pela firmeza com que conduziu a redemocratização. Um processo conturbado e lento, que dura até hoje e ainda se mantém manchado por uma anistia que igualou o sangue dos que quedaram ao dos que morreram impunes. Todos inocentes.

http://quemtemmedodademocracia.com/2013/10/13/o-dia-das-criancas-e-os-inocentes-da-nossa-democracia/




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