O caos de cada dia

O caos de cada dia

O caos nosso de cada dia

 Eu não tenho mais jeito. Quanto mais o tempo passa, mais me sinto solidário com os perdedores mais comuns. Olho a situação do Brasil e lamento: o país sofreu um golpe e hoje é controlado por um presidente com 3% de aprovação popular e um grupo chamado pelo então procurador-geral da República, em sua denúncia, de “quadrilhão”. Mas a Câmara dos Deputados, comprada a peso de gordas emendas, vai fingir mais uma vez que nada há a investigar. A transparência pode esperar. Olho a situação do Rio Grande do Sul e me enterneço com o horror vivido pelo funcionalismo: quase um governo inteiro recebendo parcelado. Os professores estaduais estão em greve. Que mais poderiam fazer? Aplaudir as isenções fiscais e os discursos de austeridade?

Olho a situação de Porto Alegre e me preocupo: o funcionalismo vai entrar em greve. Que mais poderia fazer? Foi eleito como bode expiatório. O IPTU está defasado? Os mais ricos não querem correção. O governo pretendia aprovar uma medida de justiça tributária? Cheguei a achar que sim. Mas não havia lugar para a justa progressividade. Era mais um aumento disfarçado concentrado na classe média. Por que clubes de futebol como Grêmio e Internacional não pagam IPTU? Para sobrar mais dinheiro destinado a salários milionários de jogadores privilegiados? Privatização do dinheiro público. O IPTU não pago acaba no bolso dos “craques”? O clubismo tudo justifica. Até o absurdo.

Há sempre uma suposta boa razão para isentar os ricos de pagar impostos. Nós do rodapé da tabela é que pagamos tudo. Afinal, nossa única contribuição para a sociedade é o trabalho que fazemos. Nosso suor, nosso sangue e nossa mão de obra não nos dão direito a vantagens. Não fazemos gols, não criamos empregos (Lírio Parisotto recebeu uns R$ 400 milhões de isenção fiscal para criar cinco postos de trabalho), não fornecemos mitos nem ídolos. Apenas trabalhamos todos os dias. É muito pouco. Alguns de nós, ingênuos, passam em concursos e dedicam a vida a ensinar ou a garantir segurança a todos. Recebem salários mínimos, mas se consolam acreditando que assinaram um contrato que será obrigatoriamente cumprido pelo ente público. Aí descobrem que a qualquer momento tudo pode mudar. Menos para os ricos.

Queremos que os professores e a polícia trabalhem mais e melhor recebendo menos ou parcelado. Governantes dão de ombros: não há dinheiro. Nunca a polarização foi tão grande. Ela corresponde a duas visões de mundo. Uma quer privatizar tudo. A outra ainda acredita na importância do serviço público, que sempre precisa se aperfeiçoar. Numa visão, tudo é mercadoria. Na outra, há coisas que devem ser garantidas universalmente pelo Estado. O alinhamento da chama, quase apagada, Brasil-Rio Grande do Sul-Porto Alegre (o PSDB é um PMDB com gel no cabelo), está marcando época, a era do parcelamento eterno.

 

 


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