O brasileiro maluquinho

O brasileiro maluquinho

O brasileiro maluquinho

Paulo Ghiraldelli Jr.

 

 

A pior coisa que pode acontecer a um país no mundo contemporâneo, em termos culturais, é sua escola básica falhar enquanto sua universidade não falha. É exatamente isso que vem ocorrendo no Brasil. Nossa universidade está longe de ser a melhor do mundo, mas ruim ela não é. Todavia, está cada vez mais sozinha. Não temos um bom ensino fundamental e o nosso ensino médio é simplesmente inexistente. O resultado disso é visível nas redes sociais. Nelas, está estampado o pseudossaber que vemos circular no Brasil atual. Há ali um retrato do Brasil. Um retrato feio.


As redes sociais mostram para nós, hoje, um rosto do Brasil que até então não tínhamos. Somos um país que efetivamente tem boa parte de sua população na Internet. 94,2 milhões de pessoas acessaram a internet no terceiro trimestre de 2012 em nosso país.  A quantidade de horas que ficamos na Internet é a maior da América Latina. Nosso tempo em redes sociais é significativo. Então, o que aparece ali, ao menos no Brasil, é sim representativo do país. E o que ocorre na Internet e nas redes? Ocorre o que disse: graça ali o pseudossaber. Há muita gente falando do que não sabe, ou seja, falando o que sabe, mas de modo errado.

 

O que ocorre no Brasil de hoje, e as redes sociais estampam isso, é que os brasileiros possuem informações sobre assuntos que eles não possuem condições de compreender. Há deficiência de tudo, inclusive da própria língua, o português. Nosso povo está se comportando como criança vestida de adulto. É algo ridículo. É como aquele aluno que leu muita sociologia, mas por desconhecer história não sabe o que fazer com os conceitos e categorias que têm em mãos.


Desse modo, encontramos muita gente nas redes sociais que sequer sabe o que são gêneros literários e tipos de narrativa, e por isso acreditam que podem colocar um texto poético ao lado de um texto científico e começar a fazer comparações. Não à toa temos disputa em assuntos religiosos que no passado não tínhamos. Não é por amadurecimento não, ao contrário, é por infantilidade. No passado, no colégio, a minha geração lia a Bíblia como um livro poético e de estória, não de história (sim, tínhamos diferença entre essas duas palavras!). Aprendíamos com a Bíblia, mas não aprendíamos alguma coisa que fazia sentido comparar com o que aprendíamos em evolução, na aula de biologia. Hoje no facebook vemos as pessoas dizendo coisas como “não acredito que o homem veio do macaco”, de um lado, e de outro temos os que dizem que a Bíblia possui “contradições”. Essas pessoas, muitas delas, são universitários! Alguns já são até líderes, governantes com vários diplomas. No entanto, a confusão mental dessas pessoas é alguma coisa que no meu tempo de juventude não tínhamos.


Caso não voltarmos a possuir um ensino médio que seja ao menos 50% do que foi o ensino médio nos anos cinquenta até setenta mais ou menos, o povo brasileiro vai começar a parecer, perante outros povos, antes como uma povo maluco que como um povo emburrecido. Estamos falando bobagem demais. E não estamos percebendo isso exatamente porque, por falta do inglês entre nós, temos muito pouco contato com o mundo lá fora, ainda que estejamos conectados mais que muitos outros povos.

 

Paulo Ghiraldelli Jr. filósofo, escritor, cartunista e professora da UFRRJ




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