Novo currículo muda ensino

Novo currículo muda ensino

Novo currículo muda ensino nas escolas

03/04/2016 

Autor: Elton Lyrio | emorati@redegazeta.com.br

Documento vai apontar o que é essencial aprender a cada ano

Estamos no meio de um debate muito importante para o futuro do país, mas não se trata da questão política nacional que tem movimentado multidões. Desde setembro do ano passado, está em discussão a versão preliminar da Base Nacional Comum Curricular, um documento que vai definir os conteúdos essenciais que seu filho terá de aprender em cada série.

Foto: Marcelo Prest - GZ

Adriana Melo e Rosseana Mezzadri (em pé) ensinam os alunos nos moldes do novo currículo escolar

Em História, por exemplo, no primeiro ano do ensino médio em vez de estudar a Antiguidade, Grécia, Roma e a Idade Média, o foco – na versão preliminar do documento – passa a ser o Brasil, as Américas e a África. Na Língua Portuguesa, a Gramática só é ensinada por si só até o 3º ano do ensino fundamental. Depois, passa a ser incorporada à produção de textos.

Propostas que deram o que falar entre professores e especialistas. Mas, para além das polêmicas, a certeza é que já era tempo do Brasil ter um documento como esse.

“Isso vai orientar a formulação de currículos nas redes. Trata-se de definir que tipo de cidadão a gente quer formar”, diz Ricardo Falzetta, gerente de conteúdo do Todos Pela Educação.

Mozart Neves Ramos, diretor de articulação e inovação do Instituto Ayrton Senna, destaca que o documento chega para preencher uma lacuna. “Hoje não se tem muito claro quais são os objetivos de aprendizagem”, aponta. Outra questão, segundo ele, é que, embora a autonomia das redes e escolas tenha seu lado saudável, ela acaba gerando disparidades que prejudicam os alunos.

Exemplo disso, Mozart conta ter visto em Vitória. “Conheci uma pessoa que estudou nos três anos do ensino médio o mesmo conteúdo de Física porque mudou de cidade”, cita.

Mozart acredita que os pontos polêmicos como o que diz respeito à História no ensino médio devem ser corrigidos. “Foi um erro que o próprio MEC reconheceu”, diz.

Para a coordenadora da leitura crítica realizada pelo Movimento Pela Base e doutora em educação, Katia Stocco, outro ponto que precisa ser aprimorado é a transição entre a educação infantil e o ensino fundamental.

“Alguns objetivos são muito fáceis para uma criança de seis anos, como contar até 30. Outros, como escrever bilhetes nessa fase, não têm objetivos anteriores que ofereçam ferramentas para isso”, diz.

A versão inicial, ponderam os especialistas, tem muito a ser aprimorada. A Base, porém, não é um “pó mágico” que vai fazer o Brasil desaparecer das últimas posições no mundo da educação.

Sozinha, dizem os especialistas, ela não resolve nada. É um primeiro passo, que precisa de outros para levar a algum lugar.

Base Nacional Comum Curricular (BNCC)

Base Nacional Comum Curricular
Veja as principais polêmicas

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Terceiro ano pode ser por área

Decisivo na vida estudantil da maioria dos estudantes, o terceiro ano do ensino médio pode se tornar flexível, com os alunos escolhendo uma área de conhecimento para se aprofundar. É o que querem os secretários de estado da Educação, reunidos no seu Conselho Nacional, o Consed.

A proposta foi entregue ao MEC no início do mês passado para ser incorporada à Base Nacional Comum, segundo o secretário de Estado da Educação, Haroldo Corrêa Rocha.

Ele explica que a ideia é que o primeiro e o segundo anos do ensino médio tenham conteúdo obrigatório em todo o país, mas o terceiro seja flexibilizado para cinco áreas: Matemática, Linguagens, Ciências Humanas, Ciências da Natureza e Educação Técnica e profissional. Cada escola, ou até mesmo cada turma, teria a sua ênfase. A partir daí, o aluno escolheria.

“O ensino médio rígido e fechado já não atende às expectativas dos nossos jovens. E o perfil de um jovem no terceiro ano é o de alguém que já está pensando para frente, no que cabe melhor em seu projeto de vida”, destaca.

O secretário explica que a ideia do Consed foi dar um passo mais arrojado na mudança do ensino médio. “Não é dizer que o aluno vai estudar apenas uma matéria. Mas se ele tem hoje quatro aulas de Matemática e cinco de Língua Portuguesa e quer a ênfase em Matemática, essa proporção passará a sete por duas”, exemplifica.

Para Haroldo, essa nova dinâmica também ajuda os estudantes a se adaptarem mais facilmente à lógica da universidade, já que terão maior carga de um determinado conteúdo que eles escolherem.

Debate

Assim como em todo o Brasil, no mês que vem, o Espírito Santo vai organizar seu próprio seminário estadual sobre a base. A partir desse encontro é que serão coletadas as sugestões que podem ser incorporadas à versão final do documento que será aprovado em Brasília.

Segundo João Paulo Cêpa, assessor de apoio curricular e educação ambiental da Sedu e coordenador estadual da base, serão abertos canais de comunicação para receber novas opiniões diante da segunda versão do documento, que será publicado até o dia 15 de abril.

Foto: Edson Chagas - GZ

Para o professor de Língua Portuguesa Paulo Bremenkamp, a flexibilização será positiva se houver estrutura nas escolas para isso

27 Estados terão de concordar

A versão final da Base Nacional Comum Curricular deve representar um consenso. É o que afirma o secretário de Educação Básica do Ministério da Educação, Manuel Palácio. “Para começar, todos os 27 Estados têm de estar de acordo com ela”. Para Palácio, as polêmicas fazem parte do debate e são importantes para a construção da Base. “O objetivo é esse mesmo, de suscitar a manifestação de divergências. Nós vamos ter a base quando ela tiver afinidade com todos. É claro que pode haver uma ou outra discordância, mas deve representar consenso”.

Professores criticam pontos da proposta

História e Língua Portuguesa foram as disciplinas que mais suscitaram polêmica na versão preliminar da Base. Para a professora de História do ensino médio do Salesiano de Jardim Camburi Adriana Melo se aprovado como está, o texto pode trazer prejuízo aos alunos.

“A proposta despreza a dimensão cronológica da história. Há uma ausência de contextualização do processo histórico. Como o aluno vai entender democracia sem estudar a ágora ateniense, por exemplo?”, questiona.

Outro ponto é que a proposta foca muito no negro e no indígena. Para Adriana, é preciso haver equilíbrio entre os elementos étnicos, culturais e sociais que formam a sociedade brasileira. “É interessante destacar o Brasil, mas não se pode permitir a não contextualização”, diz.

Para a professora de Língua Portuguesa Rosseana Mezzadri a perda de destaque da gramática se agrava com as lacunas que a Base deixa. “Há momentos em que se cobra coesão e coerência textual, mas não se deixa claro as ferramentas gramaticais para isso”, diz.

Como ponto positivo, ressalta o destaque que o texto dá à diversidade linguística. Palo Bremenkamp, que leciona na rede estadual, concorda e acrescenta que levar o “internetês” para a sala de aula, por exemplo, torna as aulas mais atrativas e próximas do universo do aluno.

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