Nossas dívidas

Nossas dívidas

Nossas dívidas que enriquecem nossa elite

Falei aqui, ontem, de dívida pública.

Faltou espaço para sugerir o livro de Maria Lucia Fattorelli, Auditória cidadã da dívida pública –– experiências e método. É um assunto palpitante. O Brasil não quer saber de auditoria da sua dívida. Por que será? Na sua entrevista à revista CartaCapital, Maria Lucia deu uma pista interessante: “Quando o Plano Real começou, nossa dívida estava em quase 80 bilhões de reais. Hoje ela está em mais de três trilhões de reais. Mais de 90% da divida é de juros sobre juros”. O mito prefere enfatizar que se existe dívida é porque o Estado gasta mal. Até gasta. Mas o grosso da dívida vem da sua lógica de retroalimentação.

As coisas começaram mal por aqui desde a chegada de Pedro Álvares Cabral. Pero Vaz de Caminha pediu ao Rei, na sua famosa carta, um favor para o seu genro. Essa prática nunca mais parou. A nossa dívida externa começou em 1823 com o chamado “empréstimo português”. Pegamos uma grana com a Inglaterra para pagar uma indenização a Portugal pela nossa independência. Em 1906, pelo Convênio de Taubaté, um acordo feito entre os governadores de Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, o governo federal comprometeu-se a comprar os excedentes da produção de café com base num preço mínimo. Para custear esse benesse aos barões da cafeicultura, pegou dinheiro no exterior.

Nunca mais paramos de ajudar nossos pobres mais ricos.

Eles precisam tanto. Não sabem viver por conta própria.

Necessitam de suor alheio.

Maria Lucia Fattorelli indica a razão da rejeição a uma auditoria: “A gente mostra, simplesmente, a parte da dívida que não existe, que é nula, que é fraude”. Um exemplo: “Só existe dívida se há uma entrega. Aconteceu isso na Grécia. Mecanismos financeiros, coisas que não tinham nada ver com dívida, tudo foi empurrado para as estatísticas da dívida. Tudo quanto é derivativo, tudo quanto é garantia do Estado, os tais CDS”. Grande parte da dívida é subproduto da própria dívida: juros, seguros e o escambau. Esse aí também? Claro. A constituição da dívida é uma mágica que enriquece o mágico.

Se há mágico, há quem revele o truque. Nem Lula escapa da análise de Fattorelli: “O que a gente critica no governo Lula é que, para pagar a dívida externa em 2005, na época de 15 bilhões de dólares, ele emitiu reais. Ele emitiu dívida interna em reais. A dívida com o FMI era 4% ao ano de juros. A dívida interna que foi emitida na época estava em média 19,13% de juros ao ano. Houve uma troca de uma dívida de 4% ao ano para uma de 19% ao ano. Foi uma operação que provocou danos financeiros ao País. E a nossa dívida externa com o FMI não era uma dívida elevada, correspondia a menos de 2% da dívida total. E por que ele pagou uma dívida externa para o FMI que tinha juros baixo? Porque, no inconsciente coletivo, divida externa é com o FMI”.

Aí morreu o Neves. Não confundir com o Aécio.

Por que entrevistas assim não saem na Veja, que tem uma tiragem maior? Não consigo saber. Fattorelli tem enfatizado que o custo do bolsa-família é uma ninharia perto do bolsa-rico, os mecanismos de transferência de renda pelo Tesouro Nacional, pelas taxas de juro do Copom, que não passam pelo Congresso Nacional, e pelo BNDES.

O BNDES é a mãe dos ricos: pega dinheiro caro e emprestado barato.

Só para quem, tendo muito, precisa de crédito camarada.

A sorte dos ricos está melhorando.

Agora eles já recebem até moradia de graça.

Na cadeia.

 

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/?p=7361 




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