Mesa posta

Mesa posta

Mesa posta sob o viaduto

 
Da janela do ônibus, todos os dias, eu contemplo a mesa posta sob o viaduto da Rodoviária em Porto Alegre. É quase no encontro da Júlio da Castilhos com a Conceição. Já me preparo alguns segundos antes para ver a cena que se repete: embaixo da placa de concreto, sobre a qual zumbem carros sem parar, uma família montou a sua casa. Tudo é muito arrumado. Tem a cozinha, onde muitas vezes vejo a dona da casa fazer suas lides. É uma família patriarcal brasileira. A mesa, com toalha quadriculada e cadeiras bem posicionadas nos seus devidos lugares, fica num “cômodo” entre a cozinha e o quarto, onde uma cama de casal caprichosamente estendida revela a ordem consolidada.

Por fim, os gradis, que parecem cercar um pátio limpo ou servir de divisórias, funcionam também como varal. Mais recentemente surgiu um quarto de hóspedes com uma segunda cama de casal. Certas manhãs, vejo a família tomar café na mesa bem servida com frutas e flores. No começo da tarde, tem visita. Tudo acontece em torno da mesa com duas cadeiras brancas de espaldar mais alto e duas pretas mais baixas. Dá para sentir a plenitude das conversas ou a força dos silêncios reflexivos. Alguém se levanta e vai à cozinha. Alguém se debruça e cochicha ao ouvido de quem está sentado. Quem são essas pessoas? De onde trouxeram os móveis? Como suportam o frio nas madrugadas? Por quanto tempo ficarão? Como cronista da cidade, eu me emociono e comento com amigos. Digo assim:

– Já viu a casa sob o viaduto da rodoviária?

– Casa?

– Viu a mesa posta?

– Mesa posta?

É o que mais me sensibiliza. Confesso que me emociono. Nunca me passou pela cabeça descer para ir conversar com eles. Não me cabe invadir a privacidade da família. Se eu fosse um pintor genial como Vermeer, retrataria em quadro o que vejo ali e intitularia: cena de família. Ou mesa posta. Como romancista, pergunto: o que houve? Que trama da vida os levou até ali? Penso nisso ouvindo uma canção quase desconhecida de Milton Nascimento: “A cidade é moderna/Dizia o cego a seu filho/Os olhos cheios de terra/O bonde fora dos trilhos/A aventura começa no coração dos navios/Pensava o filho calado/Pensava o filho ouvindo/Que a cidade é moderna/Pensava o filho sorrindo/E era surdo e era mudo/Mas que falava e ouvia”. Por que essa música? Não sei mesmo.

A cidade é moderna. A vida é sempre a mesma. Tudo se transforma para que os mesmos sentimentos se eternizem. A família, seja qual for a sua composição, é tradicional no seu papel de centralizadora dos afetos e protetora do seus. Sob o viaduto, entre duas avenidas de trânsito infernal, ela se reúne, como qualquer família, em torno da mesa para certamente comentar os assuntos do dia, sonhar, planejar a vida e espantar-se sem dúvida com a insegurança crescente. Há dias em que vejo nos seus membros semblantes mais fechados. Em outros, todos sorriem. Vejo abraços, gestos amplos, múltiplas pequenas atividades. Faz tempo que eu não acredito mais nas glórias vãs deste mundo. Só os flagrantes da potência existencial cotidiana me interessam e tocam.

Algo nessa família sob o viaduto me enternece. Vejo ali, ao mesmo tempo, o que todos somos e o que o país pode fazer de nós. Todos expostos. A mesa posta revela uma capacidade de resistência comovente.

 

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/2017/07/10080/mesa-posta-sob-o-viaduto/ 




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