Liberdade de ensinar

Liberdade de ensinar

Doutrinação, escola e liberdade de ensinar

por Caroline Pacievitch

Ao consultar o dicionário Houaiss da língua portuguesa, verifica-se que doutrinar significa instruir alguém, de forma unilateral e sem questionamentos, em alguma opinião ou princípio particular.

Do http://www.esquerdadiario.com.br/

Observando o uso da palavra, percebemos que doutrinação relaciona-se com o mundo da religião, do dogma e, também, do Direito. A ideia de inculcação de doutrinas possui pouca relação com o mundo da educação escolar tal como defendem professoras e professores atualmente.

É possível perceber tal afastamento no texto das Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais da Educação Básica, um dos principais documentos oficiais a orientar a educação nacional. As Diretrizes defendem uma escola que priorize a justiça, a liberdade, a pluralidade e a solidariedade e que compreenda as pessoas como cidadãs e cidadãos responsáveis e comprometidos com um mundo melhor.

A escola atual tem como marca a oposição à decoreba. Apesar de ser comum conectar a expansão das escolas à formação moral e à criação de identidades nacionais, escola e ciência possuem trajetórias históricas paralelas. Ambas são criações da modernidade e confiam no caráter libertador da razão e na sua força para formar cidadania.

Não existe escola, nem ciência, que não se envolvam nas disputas de seu tempo. Tal como aparece nas Diretrizes acima mencionadas, a produção de conhecimento não se separa das disputas sociais, culturais e econômicas, muito menos de nossos anseios por liberdade e por mudança. Ao longo do tempo, a escola e a ciência foram tensionadas para garantir oportunidades a todas as pessoas e para atender ao bem comum.

Nas escolas, professoras e professores são responsáveis por proporcionar o acesso ao pensamento crítico e a variadas expressões científicas e de outros campos culturais. Essa responsabilidade se conecta com um compromisso com a liberdade, tendo por parâmetro, sempre, a justiça, a equidade e a defesa dos direitos humanos. Todos esses elementos estão condensados na Constituição Federal de 1988 e no conjunto de documentos oficiais sobre a educação brasileira. Auxiliar a desenvolver pensamento crítico, direcionado a uma participação cidadã que promova um mundo melhor é, em última instância, a utopia e a responsabilidade de muitos docentes.

Doutrinação e pensamento crítico são elementos opostos no caminho do ensinar. A educação escolar foi projetada para proporcionar a emancipação e a cidadania, em um mundo reconhecidamente plural. Quando professoras e professores convidam os jovens a conhecer outras histórias, outras pessoas e outras explicações sobre o mundo, eles estimulam a convivência com o diverso, bem como o diálogo com opiniões distintas. Quando apresentam narrativas sobre desigualdade, preconceito e exclusão em diferentes tempos e lugares, permitem que os jovens ampliem de modo respeitoso suas visões de mundo, compreendendo-as para que formem, sempre provisoriamente, suas próprias concepções. Quando convidam a conhecer e analisar diferentes tipos de textos, documentos, mídias e opiniões, constroem situações didáticas que embasam produção de conhecimento original no espaço escolar.

Assim, aos que temem que a doutrinação ocupe o lugar do conhecimento, nas escolas, alguns conselhos:

  • a ideia de que existe um conhecimento neutro que se transmite de forma imparcial é ilusão.

  • O reconhecimento do caráter relativo da escola, da docência e do conhecimento não se confunde com a permissividade sobre qualquer opinião: os direitos garantidos pela Constituição Federal precisam ser respeitados, proibindo-se toda forma de discriminação.

  • A submissão, o silêncio, a adoção de um discurso único e a ausência de debate não são bons antídotos para a doutrinação.

  • Restringir a formação de professores à aquisição dos conteúdos de ensino não contribui para a criticidade, tendo em vista a complexidade das decisões didáticas e a importância de mobilizar os conhecimentos diversos trazidos pelos estudantes.

Professoras e professores formam-se, nas escolas e nas universidades, justamente para mobilizar conhecimentos da ciência e as múltiplas visões de mundo que se manifestam nas salas de aula. Impedir que possam expor, debater e criticar as muitas perspectivas sobre a vida, a sociedade, a cultura e a ciência é, justamente, o que caracterizaria doutrinação.

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Caroline Pacievitch é professora da Faced/UFRGS e membro da Frente Gaúcha Escola Sem Mordaça, Laboratório de Ensino de História e Educação, Grupo de Estudos em Didática da História.

Os artigos assinados não refletem necessariamente a opinião do jornal, sendo de inteira responsabilidade de seus autores.




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