Infância que dói

Infância que dói

Estudo revela dados sobre violência no dia a dia de meninos e meninas no Rio de Janeiro e em Recife. Mesmo crianças muito pequenas – de um ou dois anos – estão expostas a constrangimentos físicos e morais.

Franciele Petry Schramm

Infância que dói

Desde cedo, meninos e meninas de comunidades do Rio de Janeiro e Recife sofrem com a violência. Estudo aponta fatores que podem estar ligados à prática violenta


É elevado o índice de agressões e castigos sofridos por crianças de até oito anos em comunidades mais pobres do Rio de Janeiro e de Recife. Quase 80% dos meninos e meninas ouvidos por pesquisadores do Centro de Análises Econômicas e Sociais (Caes) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) já experimentaram algum tipo de violência doméstica.

Gritar, xingar, bater e castigar estão entre as ações violentas mais empregadas pelos adultos contra as crianças. A pesquisa constatou também que fatores como renda familiar, escolaridade dos pais e questões urbanísticas – como condições de moradia, por exemplo – interferem no maior ou menor número de episódios de coação.

Gritar, xingar, bater e castigar estão entre as ações violentas mais empregadas pelos adultos contra as crianças

O sociólogo Hermílio Santos, coordenador do estudo, vê os resultados com preocupação, já que um ambiente violento pode comprometer seriamente o desenvolvimento infantil. Para Santos, qualquer ameaça à aprendizagem e à socialização da criança deve ser considerada um ato de violência.

O estudo foi patrocinado pela Fundação Bernard Van Leer, organização holandesa que almeja melhores condições de vida para crianças de todo o mundo até oito anos, período em que o cérebro humano está em franco desenvolvimento e os laços sociais se fortalecem.

A equipe do Caes analisou a situação de crianças em seis favelas do Rio de Janeiro e em três de Recife e no momento investiga a de crianças que vivem em cortiços e favelas da cidade de São Paulo. O resultado dos estudos já realizados está disponível para consulta no site do Centro de Análises

Análise multidisciplinar

A opção por investigar o problema em comunidades carentes decorre das visíveis condições de vulnerabilidade social e econômica dos moradores dessas áreas. As favelas analisadas convivem, em graus variados, com o tráfico de drogas.

Gráfico de violência em crianças
O gráfico indica o tipo de violência e o percentual de crianças expostas a ela em comunidades pesquisadas no Rio de Janeiro e Recife. Práticas violentas podem comprometer o desenvolvimento psíquico e a socialização infantil. Clique no gráfico para ampliá-lo

As informações foram obtidas a partir da análise de questionários aplicados a crianças de seis a oito anos e a pais (ou responsáveis) de crianças de 0 a 8 anos. Adolescentes e lideranças comunitárias e de instituições que atuam nas comunidades também foram ouvidos. Depoimentos de membros de diferentes gerações das mesmas famílias ajudaram a completar a pesquisa.

Em razão da complexidade do tema, participaram do estudo pesquisadores das áreas de sociologia, psicologia, economia, ciência política e urbanismo. Parcerias do Caes com a Universidade Federal de Pernambuco e com a PUC-Rio contribuíram para a coleta dos dados.

Quanto a crianças de classe média, não é possível afirmar, segundo o sociólogo da PUCRS, que elas não são afetadas pelo problema da violência doméstica. “Não temos conhecimento de dados sistematizados sobre violência contra meninos e meninas desse estrato social no Brasil”, diz Santos.

Resultados similares, realidades diferentes

O estudo revelou dados que precisam ser levados em conta na elaboração de políticas de combate à violência contra crianças. Tais políticas devem ser específicas para cada região, uma vez que, apesar da similaridade de alguns resultados, as comunidades analisadas apresentam realidades diferentes.

No Rio de Janeiro e em Recife, é semelhante a frequência com que meninos e meninas presenciam ou sofrem episódios de violência em casa. No entanto, nas favelas de Recife, as crianças presenciaram mais atos violentos nas ruas do local onde moram que as do Rio de Janeiro, em números absolutos.

As mães são os principais agressores das crianças. Mas, paradoxalmente, são também elas que mais as protegem

As mães são os principais agressores das crianças. Mas, paradoxalmente, são também elas que mais as protegem. De acordo com o coordenador da pesquisa, mães que passam mais tempo com os filhos são as que menos têm atitudes violentas. “Talvez porque criem mais laços afetivos com eles.”

Renda e grau de escolaridade das mães também influem nos casos de violência contra os filhos. As que ganham menos e estudaram pouco agridem mais os filhos do que as que cursaram o ensino médio e alcançaram posição melhor no mercado de trabalho.

Mas a regra, lembra o sociólogo, é que mulheres com diferentes graus de instrução agridem fisicamente seus filhos. Santos ressalta ainda que mães que não trabalham fora são as que menos têm atitudes violentas em relação aos filhos.

O contato dos pesquisadores com membros de diferentes gerações das mesmas famílias revelou que a violência não passa necessariamente de pais para filhos. “A violência é uma opção, um ato voluntário; não é condição hereditária, nem é determinada por precariedade econômica”, afirma Santos.

Uma das famílias analisadas mostrou que o ciclo de agressão pode ser interrompido. Membros de gerações anteriores que foram vítimas de práticas violentas não as repassaram aos filhos. “Nesse caso, a mudança se deveu a investimentos em educação”, diz o sociólogo. 

Violência, coisa de homem?

Em parte das comunidades pesquisadas, as meninas são as que mais sofrem castigos – e em maior intensidade. Santos supõe que isso esteja relacionado com uma espécie de ‘treinamento’ de atitudes violentas dado pelas mães.

“A sociedade brasileira crê, erroneamente, que violência é coisa de homem; nossos dados mostram que isso não é verdade.” Embora os pais agridam as crianças menos que as mães, os dados sugerem haver, segundo Santos, uma espécie de “hierarquia da violência”: os maridos tendem a agredir mais suas companheiras e estas, as crianças.

Gráfico de agressões físicas a crianças
A violência contra crianças começa cedo, como ilustra o gráfico com dados sobre agressões físicas. Em comunidades do Rio de Janeiro, meninos e meninas de apenas dois anos são os que mais apanham. Clique no gráfico para ampliá-lo

Nas comunidades do Rio, crianças de dois anos são as que mais sofrem atos violentos; nessa cidade, assim como em Recife, a violência atinge, com frequência bastante elevada, crianças ainda menores, de aproximadamente um ano. “A violência contra a criança começa muito cedo – e por motivos triviais”, afirma o coordenador do estudo.

Diante de números assim, ele sugere que programas de prevenção da violência infantil sejam iniciados o quanto antes. “Talvez se deva fazer algo nesse sentido já no período de acompanhamento gestacional das mães.”


Franciele Petry Schramm
Especial para a CH On-line/ PR

http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=18274




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