Mães bíblicas, mães modelo
As crianças judias estavam para ser executadas no Egito. Sabendo disso, a mãe de Moisés o colocou em uma cestinha, deixando-o seguir pelo rio. Mas instruiu a irmã do garoto a acompanhar a cestinha pela margem, pois ela deveria chegar ao lugar de banho da princesa, filha do Faraó, exatamente na hora que a moça estivesse no rio. De fato, a princesa achou o bebê e o adotou. Todavia, não podendo cuidar dele na infância, pois ainda era um lactente, conseguiu uma serviçal que amamentasse a criança e ficasse com o garoto até que atingisse certa idade e pudesse ser integrado ao palácio. A mãe de Moisés, uma judia serviçal da princesa, foi a escolhida para cuidar da criança. Assim, Moisés ganhou dois lares: o seu mesmo, cuidado pela mãe, e depois o de adotado pela princesa, podendo então se educar como um príncipe e usufruir do bom e do melhor na condição de egípcio, e não de escravo.
A moral dessa história poderia ser esta: “não basta ser mãe, é necessário ser inteligente”. Ou então: “só o amor não é suficiente, é fundamental a esperteza”. Ou ainda, em tom antes desafiador que normativo: “o amor aguça a inteligência”.
O último lema é desafiador porque se põe na contramão do corriqueiro. Dizemos que o amor cega ou deixa as pessoas tolas, mas é o amor que move a mãe de Moisés na sua transformação de estrategista inteligente. Claro, pode-se objetar que o amor que nubla a visão o faz em relação ao amado, não quanto ao que o cerca e muito menos quanto ao necessário para salvá-lo. Levamos isso em consideração. Mas, convenhamos, a história poderia ter outro desenvolvimento. A mãe de Moisés poderia amá-lo demais e tentar fugir com ele e ser pega, ou então tentar escondê-lo e, não podendo voltar ao lugar de refúgio, perde-lo para a fome ou algum animal. O que salta aos olhos na história é que o amor da mãe judia – e a expressão “mãe judia” não se consagrou à toa – a fez não ir pelo caminho da simples proteção, mas da estratégia, do cálculo. O resultado de tudo isso foi melhor do que o esperado, pois assim Moisés conseguiu um posto na sociedade egípcia, a de homem livre e educado, e não a de escravo.
É interessante que o Ocidente tenha desprezado esse tipo de “amor de mãe” e optado por um outro modelo, muito menos interessante. O modelo adotado foi o de Maria, mãe de Jesus.
Maria seguiu um caminho diferente. Nunca mostrou qualquer inteligência, somente submissão e, em certos casos, até condescendência exagerada. Quando Jesus sumiu para ir ter com os sábios na Sinagoga, na volta ele deveria ter levado uma boa sova e ter ficado de castigo. Não há indicações de que Maria tenha sido severa com ele, apesar do garoto, aos doze anos, já poder muito bem imaginar o mal que havia causado. Depois, na sequencia da vida de Jesus, sua mãe adquiriu cada vez mais uma posição antes de estorvo que de aliada. Por várias vezes Jesus a repreendeu e, enfim, ele nunca lhe deu lugar de destaque em nada. Não ouviu qualquer de seus conselhos. Manteve-se sempre distante dos afazeres familiares e, ao escolher criar uma religião, que foi o que decidiu no deserto, o fez contra tudo que seus pais, principalmente Maria, poderiam querer. A mãe cristã par excellence nunca se colocou como mulher, mas como uma serviçal ou, no máximo, uma testemunha da história. Uma testemunha que nada testemunhou, uma vez que, na verdade, o único Testamento de uma mulher (que eu saiba) é o de Madalena.
Por reduzir a mãe a isso, o Ocidente cristão comemora o Dia das Mães. Isso deve ser antes de tudo fruto de má consciência! Em Israel não há comemoração desse dia, embora exista um que aqui não temos, o Dia da Família.
Essa historieta deveria dar o que pensar.
© 2013 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ