Formação continuada e a saúde

Formação continuada e a saúde

 

Como promover a formação continuada e a saúde do professor nas escolas: introdução, teoria, prática e exemplo

O que caberia aos docentes quando o assunto é sua formação continuada e sua saúde?

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O exercício da profissão docente tem sido extremamente solitário. Perto do horário de início das aulas, por exemplo, é comum que cada professor – individualmente – se dirija para sua sala, onde sozinho encontra seus alunos e onde sozinho enfrenta todos os obstáculos e dificuldades do trabalho de ensino-aprendizagem. Isso tem sido assim há muitos anos e, por essa razão, com muita frequência, é difícil que um professor não se sinta ao menos um pouco incomodado quando eventualmente tem consigo, em sala de aula, a presença de outro colega professor. Trata-se da cultura do individualismo, típica das coleções de indivíduos: de meus problemas cuido eu; dos problemas dele, que cuide ele! Si por si e Deus para nenhum!

Mas, contrariamente a essa tendência, quando o assunto é a promoção efetiva tanto da formação continuada quanto da saúde do professor nas escolas, o necessário é que os profissionais da educação estejam abertos para compartilhar entre si suas práticas concretas de ensino-aprendizagem sem temer críticas. Se um colega de trabalho, ao mesmo tempo em que se solidariza com o outro, não puder lhe dizer, por exemplo, a respeito de certa prática: “Isto não está bom!”, então os dois e todos os outros não poderão ser responsáveis juntos, no coletivo, pelo trabalho que fazem.

É óbvio que uma crítica como essa nunca pode ser feita de forma irresponsável. Se indico a meu colega de profissão aquilo que julgo talvez ser uma “falha” no modo como tem realizado o trabalho, devo estar pronto para assumir com ele a responsabilidade, para lhe dar explicações, seguidas de uma excelente sugestão de como fazer aquele trabalho de uma outra forma, ou mesmo para admitir que aquela crítica também é válida em relação a meu próprio trabalho, pois diz respeito a um obstáculo ou a uma dificuldade que eu mesmo ainda não consegui superar. Em todos os casos, trabalharemos juntos na resolução do problema em comum e poderemos convidar outros colegas a se juntarem a nós.

O importante é que os professores, como especialistas em sua própria atividade, assumam juntos, no coletivo, sua parcela de responsabilidade pelo trabalho educacional, mesmo que ele se faça inevitavelmente de forma individual. É preciso lembrar, nesse sentido, que é comum que um professor mais experiente tenha encontrado soluções para um problema com o qual seu colega menos experiente ainda sofre. A troca de experiências nesse caso é fundamental. E isso não quer dizer de forma alguma que professores menos experientes não tenham nada a compartilhar com os mais experientes. Talvez tenham até mais!

Professor, há quanto tempo você leciona? Nesse tempo de experiência, quantas vezes convidou seu colega de trabalho para estar com você em sala de aula? Caso nunca (ou quase nunca) tenha feito isso, que tal sair do isolamento e da solidão, aproximando-se de um colega e convidando-o a fazer isso? Proponha a ele uma troca de experiências. A construção de um verdadeiro coletivo de trabalho docente começa também por aí! Em meu próximo post, falarei um pouco sobre o que caberia aos gestores educacionais.

Formação continuada e saúde do professor: é preciso promovê-las em unidade

formação continuada saúde do professor conjunto equipe coletivoCom base em todos os posts publicados no Blog até o momento, não restam dúvidas de que uma verdadeira formação continuada de professores consiste no apoio e na preparação constante desses profissionais para que possam enfrentar e superar coletivamente obstáculos e dificuldades de trabalho até então não enfrentados ou enfrentados e não superados.

Na medida em que os docentes podem avançar nesse processo, tornam-se mais experientes e, com isso, conseguem solucionar cada vez mais problemas para os quais antes não encontravam solução. Isso promove a saúde dos educadores, pois dá vazão de forma contínua para sua energia psíquica, sem que ela se acumule e assim venha a lhes fazer mal. Os profissionais da educação então se realizam, ao invés de se desrealizarem.

Entretanto, na medida em que os docentes não conseguem ou, o que é mais frequente, são impedidos de avançar nesse processo, diversos problemas do trabalho de ensino-aprendizagem permanecem sem solução. E isso, além de comprometer a qualidade da educação, prejudica a saúde dos professores, pois não encontra vazão a energia psíquica que se acumula em função de obstáculos e dificuldades insuperáveis: os docentes, nesse caso, se desrealizam e, consequentemente, adoecem, sucumbindo debaixo de um real da atividade que se torna altamente tóxico. Verifica-se, nessa linha de raciocínio, que deve existir e deve ser mantida uma unidade da promoção da formação continuada e da promoção da saúde do professor nas escolas.

São, portanto, amplamente ineficientes e ineficazes todos os programas e ações tradicionais de formação docente continuada que fecham os olhos e viram as costas para os obstáculos e dificuldades reais e concretos que os professores enfrentam diariamente em sala de aula e também fora dela, no espaço maior de toda a escola. Além de amplamente ineficientes e ineficazes, esses programas e ações tradicionais contribuem para prejudicar ainda mais a saúde dos professores, pois muitas vezes não faz nenhum sentido para eles a saída das condições precárias em que realizam seu trabalho para serem reunidos todos em uma sala qualquer da instituição ou mesmo em um grande anfiteatro, no qual são com frequência obrigados a escutar por horas um especialista externo, que invariavelmente fala sobre uma atividade docente cujos obstáculos e dificuldades locais desconhece quase por completo.

Programas de formação docente continuada realmente comprometidos tanto com o desenvolvimento profissional quanto com a promoção da saúde do professor devem ir com os docentes para a sala de aula, respeitando-os como especialistas em sua própria atividade, a fim de nela identificar junto com eles os obstáculos e dificuldades enfrentados no dia a dia. Depois disso, devem atuar junto com eles, ombro a ombro, dentro e fora da sala de aula, na superação e na resolução dos problemas encontrados. Cabe às instituições implementar e apoiar programas dessa natureza.

Professor, você conta em sua escola com o auxílio de um programa de formação docente continuada que vá com você para a sala de aula e que, respeitando-o como especialista em sua própria atividade, procure identificar em parceria obstáculos e dificuldades que você enfrenta cotidianamente a fim de atuar com você na tentativa de superá-los?

Nunca é demais repetir: é seu desenvolvimento profissional e sua saúde que estão em jogo. Exija providências de sua instituição antes de ter de recorrer a um hospital e/ou a um afastamento do trabalho.

Realização e desrealização no trabalho: efeitos sobre a saúde e o bem-estar do professor

inconsciência profissional trabalho docente saúde burnout stressFrequentemente, a aula que se realiza não é a aula planejada e, ao final de um dia de trabalho, é comum que o professor vá para casa muitas vezes esgotado por conta disso. É que o universo de tudo aquilo que ele gostaria de executar sem conseguir constitui-se como energia psíquica acumulada ou, em outras palavras, como energia de realização de atividades docentes que não encontra vazão e acaba por sobrecarregá-lo e desgastá-lo.

Se o acúmulo constante desse tipo de energia não encontrar em algum momento uma vazão na forma de realização do até então irrealizável ou de alguma outra forma, o professor inevitavelmente adoecerá, ao que não raro se seguirá seu afastamento do trabalho. Não surpreende que esse tipo de esgotamento docente (também conhecido como burnout) seja ao final do expediente apenas o primeiro sintoma desse processo de adoecimento!

Também não é difícil perceber que o fenômeno da inconsciência ou, em outras palavras, do subdesenvolvimento do contato social do professor consigo mesmo está relacionado ao já mencionado problema da repetição ao idêntico, o qual diz respeito à repetição de gestos profissionais sem recriação, de forma desengajada. Mas o fato de o professor estar muitas vezes desengajado não significa necessariamente que ele não tem ou não terá energia de trabalho. Ao contrário! O desengajamento docente pode funcionar como um indicador preciso de que o professor está cheio de energia para investir no trabalho, mas é impedido de fazê-lo. E isso – longe de realizá-lo – o desrealiza no exercício da profissão, prejudicando sua saúde e seu bem-estar.

Professor, você percebe suas possibilidades profissionais não realizadas? O trabalho de ensino-aprendizagem que você realiza é o trabalho que você realmente gostaria de realizar? Sente-se desengajado em sala de aula e fora dela? Sente-se esgotado ao final de um dia de trabalho, mas não necessariamente porque se cansou, mas porque não pôde fazer o que gostaria de ter feito? Percebe alguma relação entre esse desengajamento/esgotamento e o fato de ser impedido de realizar seu trabalho do jeito que gostaria ou poderia?

Se está em dificuldades nessas áreas, não há dúvidas de que um programa de formação docente continuada que se preocupe também com a promoção de sua saúde poderia e deveria ajudá-lo antes de você ter de recorrer a um hospital e/ou a um afastamento do trabalho.

O real da atividade por trás da atividade realizada pelo  professor

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O ser humano, diz Vygotsky, é pleno de possibilidades não realizadas a cada instante e as possibilidades que ele de fato realiza são uma ínfima parte do universo de possibilidades que seriam realizáveis nas situações em que se encontra. Com base nessa ideia, é possível afirmar que todo professor em sala de aula tem diante de si, a cada momento, na interação com os alunos e com outros destinatários de sua atividade, inúmeros gestos profissionais possíveis de serem realizados.

Mas os gestos profissionais docentes que concretamente se realizam são uma parte irrisória do conjunto de gestos profissionais de ensino-aprendizagem que seriam realizáveis.Assim, a atividade docente – de forma mais ampla – possui um volume que ultrapassa em muito o mero volume da atividade concretamente realizada e observável. Faz igualmente parte da atividade docente todo o volume da atividade não realizada, o qual – em diferentes graus – constitui a própria esfera da inconsciência, isto é, do real da atividade de ensino-aprendizagem.

Adaptando as palavras do psicólogo Yves Clot e de seus colegas, pode-se dizer que a atividade docente também diz respeito àquilo que o professor não faz, àquilo que o professor tenta fazer sem conseguir, àquilo que o professor queria ou poderia ter feito (mas não fez!), àquilo que o professor acredita poder fazer em outro momento, etc.Nesse sentido, apesar de planejar muito bem uma aula, é comum que o docente se queixe de não ter conseguido dar essa aula como planejou e/ou como teria gostado.

É comum que ele, muitas vezes frustrado, reclame do fato de que este ou aquele detalhe de sua aula não sai ou nunca pôde sair como planejado e esperado por conta de inúmeros impedimentos (obstáculos e dificuldades, que podem ser ou parecer de fato insuperáveis). A aula que o professor pretendia ter dado, mas não conseguiu, faz parte – então – do universo do real da atividade de ensino-aprendizagem por trás de sua atividade efetivamente realizada.

Professor, quais seriam suas possibilidades não realizadas? O que você poderia ou gostaria de fazer em seu trabalho, mas é impedido? Quais seriam esses impedimentos e como você lida com eles? Fala sobre isso com seus colegas? Eles falam sobre isso com você? O que diz a gestão de sua escola sobre esse assunto? É seu desenvolvimento profissional e sua saúde e bem-estar que estão em jogo.

Obstáculos e dificuldades no trabalho: efeitos sobre a saúde do professor

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Apesar de os obstáculos e dificuldades de trabalho encontrados nas escolas serem inúmeros e frequentemente imprevisíveis, muitos deles – se não a grande maioria – passam “despercebidos”, isto é, não é possível que o professor tome consciência deles ou a eles reaja em função, dentre outras coisas, de diferentes graus de desengajamento causado ao longo do tempo pela precariedade das condições de exercício da profissão.

Esses obstáculos e dificuldades não são, entretanto, totalmente indesejáveis, pois têm o potencial de desencadear no professor processos de tomada de consciência e, dessa forma, de se constituírem como o motor da recriação dos gestos profissionais docentes no momento de sua repetição.

O problema é que a ausência de percepção dos obstáculos e dificuldades ou mesmo a própria percepção da impossibilidade de superá-los faz com que o docente nem sequer tente reagir a eles e leva a que os gestos do professor se repitam praticamente ao idêntico, sem adaptação às condições reais de sua execução.

Tais fatos – como será ressaltado no próximo post – representam justamente o princípio do adoecimento docente no trabalho, além de indicarem de forma inequívoca que a possibilidade efetiva de repetição com recriação de gestos profissionais é, por excelência, promotora da formação e da saúde do professor no trabalho, enquanto sua impossibilidade leva inevitavelmente à estagnação profissional e ao adoecimento.

Professor, quais são os obstáculos e dificuldades que você enfrenta em sua sala de aula? Você consegue superá-los a cada vez que se manifestam ou se trata de obstáculos e dificuldades que considera insuperáveis e, por isso mesmo, já nem se esforça mais? Como costuma reagir quando esbarra nesses obstáculos e dificuldades que parecem insuperáveis? São questões que dizem respeito a sua consciência profissional e, consequentemente, a sua saúde no trabalho e também fora dele.

 

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