Estudantes são liberados

Estudantes são liberados

Estudantes são liberados após seis horas detidos e prometem continuar ocupando escolas

Foto: Guilherme Santos/Sul21

Pais, amigos e familiares aguardavam estudantes em frente ao Deca | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Débora Fogliatto

Sem comer desde as 7h da manhã, quando entraram na Secretaria Estadual da Fazenda (Sefaz), secundaristas do Comitê de Escolas Independentes (CEI) começaram a retornar para suas casas a partir das 18h desta quarta-feira (15), quando foram liberados do Departamento Estadual da Criança e Adolescente (Deca). Os jovens, que ocuparam a Secretaria por algumas horas, foram reprimidos pela Brigada Militar com spray de pimenta e força física, sendo detidos e levados em camburões. Após seis horas sob custódia policial, foram liberados no fim da tarde.

Os pais, familiares, professores e amigos aguardavam os estudantes do lado de fora da instituição. Uma das meninas que saiu do Deca desabou em prantos quando recebeu a notícia de que uma amiga, que é maior de idade, havia sido presa e estava sendo levada para a Penitenciária Madre Pelletier. Cansados, os estudantes rapidamente iam embora ao deixarem o local.

Contrários ao acordo que foi firmado por outro grupo de estudantes, que ocupava a Assembleia Legislativa até esta terça-feira (14), eles se manifestaram para dizer que não se sentem representados e não pretendem desocupar as escolas. “A gente iniciou a ocupação [da Sefaz] às 7h e pouco. Lá dentro houve divergências com funcionários e tentamos dialogar, acalmá-los, alguns se solidarizaram com a nossa causa. Mas sabíamos que a Fazenda é um dos prédios que tem policiamento mais reforçado, depois do Piratini”, contou Bianca Cunha, estudante do colégio Inácio Montanha.

Bianca era uma das estudantes que estavam na “primeira leva” de menores de idade levados para o DML e de volta ao Deca, onde seus pais ou responsáveis foram buscá-los. Por volta das 11h, a polícia entrou na Sefaz e disse querer dialogar, mas sempre de forma truculenta, segundo ela, impondo que eles desocupassem em 10 minutos, sem apresentar propostas e sem contar com a presença de representantes do governo. “A gente disse que não iria partir para a violência, mas íamos ficar lá. Começaram a puxar os alunos um por um e jogar spray de pimenta em todos que estavam ali para não segurarmos uns aos outros. No caminho, descendo as escadas, havia muita repressão, bateram em mim, abusaram de uma companheira”, afirmou a estudante.

Foto: Guilherme Santos/Sul21| Foto: Guilherme Santos/Sul21

O relato de Ana Laura Juk, da escola Padre Reus, é semelhante. “O que eles chamaram de negociação, na verdade, era a exigência de a gente sair. Foram extremamente violentos, tiraram um a um à força, arrastando pelo prédio e jogando muito spray de pimenta em todo mundo, não conseguíamos enxergar. Não fomos violentos, tentamos nos proteger, ficar abraçados, resistindo e um ajudando o outro, mas eles foram muito violentos e nos tiraram à força”, lembra. Neste trajeto, ela destaca que não havia nenhuma policial mulher dentre os que foram retirá-los do prédio e, por isso, as estudantes afirmam que foram tocadas e levadas por homens. “Todas as outras gurias sentiram essa questão. Me puxaram e minha roupa levantou, e não tomaram nenhum cuidado com isso”, completou.

Segundo os relatos das meninas, uma das manifestantes teria sido agredida sexualmente, quando um policial a segurou com força pelos seios. Ao irem para o DML, essa jovem solicitou que a perícia em seu corpo fosse realizada por uma mulher, mas inicialmente seu pedido não foi atendido. “Tinha uma médica mulher, mas não a atendeu. Disseram que ia ficar registrado que ela se recusou a fazer a perícia, mas falamos com advogadas e elas conseguiram fazer com uma médica mulher”, relatou Ana Laura. “Fomos muito mal tratados lá [no DML], nos sentimos reprimidos porque os mesmos policiais que nos agrediram foram lá”, completou Bianca.

Dentro do Deca, os pais e responsáveis não puderam acompanhar seus filhos e só entraram no local para buscá-los quando foram liberados. “Ninguém pode entrar, a gente veio no camburão e não comemos nada até agora. Ficamos muito tempo, foi bem demorado”, disse Ana Laura. Mesmo com a repressão, porém, as duas não têm dúvidas sobre quais serão seus próximos passos. “Vamos continuar ocupando e resistindo, com certeza”, garantem.

Foto: Guilherme Santos/Sul21

Foto: Guilherme Santos/Sul21

Repressão também do lado de fora

A professora Bianca Damacena, que ensina Português na escola Oscar Tollens, era uma das que aguardava os estudantes do lado de fora do Deca. Pela manhã, ela foi à Sefaz tentar acompanhar os alunos, mas não pode entrar no prédio e se uniu com as outras pessoas que protestavam em frente ao local contra a repressão. O Sindicato dos Municipários (Simpa), que realizava um ato próximo ao local, também juntou-se aos professores e apoiadores.

Quando os estudantes começaram a ser retirados do prédio, a repressão também teve início do lado de fora, conforme Bianca. “Logo veio o Choque com escudo, spray de pimenta, reprimiu muito. Eu sou baixinha, três vezes menor que os policiais, e eles me chutaram, jogaram spray de pimenta na minha cara, me empurraram. E a gente resistiu em um escudo com professores, municipários, e denunciamos que a violência era desproporcional”, contou.

Quando foram sair com o camburão cheio de estudantes, os policiais ainda teriam jogado bombas de efeito moral para afastar os manifestantes do entorno. “Foi uma cena de horror”, resume a professora. “Estamos lutando por educação e para receber salário digno como profissionais. Uma comissão que estava ocupando o Centro Administrativo saiu para apoiar a ocupação deles. Não vamos recuar”, garante.

Policiais jogaram espray de pimenta nos manifestantes na saída da viatura com os estudantes|Foto: Joana Berwanger/Sul21

Policiais jogaram espray de pimenta nos manifestantes na saída da viatura com os estudantes|

Foto: Joana Berwanger/Sul21

 

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