Educação sem mágica

Educação sem mágica

Editorial ZH

A má qualidade do ensino público no Brasil costuma ser justificada por razões tão óbvias, que ninguém mais as questiona: os professores ganham mal, os alunos têm pouco interesse pela escola e os governos não priorizam a educação como deveriam na hora de aplicar os recursos oriundos dos impostos. Este contexto de conformismo, porém, acaba encobrindo experiências educacionais bem-sucedidas como a que o programa Fantástico, da Rede Globo, mostrou no último domingo na cidade de Cocal dos Alves, no interior do Piauí, um dos Estados mais pobres da federação. A escola Augustinho Brandão acumula dezenas de medalhas em Olimpíadas de Matemática e Química, além de prêmios nacionais de astronáutica, astronomia e física. No Enem, está acima da média nacional. E em 2010 aprovou todos os alunos que fizeram o vestibular. Qual é a mágica?

A diretora Aurilene Vieira responde com singeleza: “A escola tem recebido caravanas e caravanas com estudantes e estudiosos da educação para saber o que acontece aqui. Eu digo: ‘Não precisa, não’. Basta que cada um faça o seu papel e faça isso com engajamento. Seja professor porque você quer ser professor e não porque lhe falta opção na vida. Seja gestor porque você quer conduzir aquela escola proporcionando o melhor para o aluno, e não porque você quer fugir de uma sala de aula. Seja sistema porque você tem ideias para contribuir e quebrar os paradigmas que forem necessários”. Ou seja: não há mágica, nem plano de ensino milagroso: apenas trabalho e comprometimento.

Parece difícil de acreditar, mas os resultados dos alunos nas provas internas e em concursos externos, somados aos depoimentos de pais e dos próprios estudantes, não deixam dúvida. As famílias acreditam na escola como alternativa de ascensão social para suas crianças e os estudantes demonstram prazer em aprender, gostam do ambiente escolar. “Nós chegamos a ter instantes dentro desta escola em que tínhamos que expulsar os alunos, no bom sentido. Aqui parecia que era o melhor lugar. O menino estudava de manhã, mas ele queria ficar à tarde, queria ficar à noite, queria passar a madrugada estudando, porque aqui ele se sentia bem”, conta Narjara Benício, diretora regional.

O primeiro passo para a excelência alcançada pela escola piauiense foi o engajamento dos professores. Depois, a direção e os próprios mestres trataram de convencer a comunidade de que uma escola pública pode, sim, oferecer educação de qualidade e ao mesmo tempo ser um ambiente atrativo para a garotada. “Nosso maior desafio foi fazer os alunos acreditarem nisso. Alunos filhos de pais analfabetos, da roça, que só tinham o que comer, que só dava para o sustento, a roupinha ruim. Então para fazer esses meninos viajarem nesse sonho, de que era possível, sem ter dinheiro, sem ter uma roupa boa, ir lá para Teresina, para a capital, estudar lá. Foi necessário o sonho. Acreditar no sonho. Quando a gente conseguiu fazer esse povo acreditar mesmo que era possível estudar fora, se formar e mudar de vida, pronto” – resume a diretora Aurilene Vieira.

Será tão difícil seguir um exemplo desses?

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