Educação politécnica, o que é?

Educação politécnica, o que é?

RUI SARTORETTO


Vou tentar responder da forma mais simples possível e do jeito que sei.


Em primeiro lugar, não se faz educação politécnica com escolas de um turno só. Não se faz educação politécnica com escolas sem oficinas, sem laboratórios, sem bibliotecas atualizadas, diversificadas e informatizadas. Não se faz educação politécnica com prédios escolares construídos para uma escola de produção em série, com salas sem climatização, com forros caindo na cabeça dos alunos, com janelas que não fecham. Com ventiladores que mais parecem helicópteros decolando.


Não se faz educação politécnica enfiando-se goela abaixo ou armando consultas faz-de-contas depois que tudo já estava decidido, apenas para deixar a falsa ilusão de que os alunos e os pais foram ouvidos.


Não se faz educação politécnica com coordenação e supervisões regionais que só aparecem nas escolas para rubricar o livro-ponto (essa excrescência anacrônica), para ver se as fichas e os diários de classe foram corretamente preenchidos, preocupadas apenas com números, registros e normas. Ou para abrir a Feira do Livro. Ou para repassar discursos e ordens de serviço emanadas de escalões superiores.


Acima de tudo, não se faz educação politécnica com professores desmotivados, insatisfeitos, aviltados, ameaçados e - com toda a razão - revoltados. Com professores a quem se oferece um salário inicial que, no primeiro mundo, apesar da crise, corresponderia ao seguro-desemprego, ou ao que, em alguns países, os governos pagam aos mendigos que vivem na rua, para não morrerem de fome.


Não se faz educação politécnica com professoras e professores obrigados a trabalhar em duas e, por vezes, em até três escolas, levando para casa pilhas de trabalhos e de provas para corrigir, nas horas que sobram depois do fogão, do tanque, da vassoura e do ferro de passar. (E sobram?....)


O senhor Secretário de Educação, e o próprio Senhor Governador - ao que sei - são de formação socialista. Pois então eles deviam ter aprendido que as mudanças não acontecem só porque as imaginamos. Que as mudanças não se realizam porque foram escritas no papel. Ou porque figuram nos relatórios. Ou porque palavras bonitas enchem a boca de algumas matronas pedagógicas. Numa linguagem que eles conhecem, as mudanças não começam na superestrutura. Uma literatura, que o senhor Secretário deve ter lido, preconiza que as mudanças, para acontecerem, necessitam de condições objetivas, concretas. Simples e antigo: a semente não germina  em terra seca.


A educação politécnica de que eu tenho notíciais supõe escola de tempo integral. Supõe escolas com laboratórios bem equipados, nas diferentes áreas do conhecimento. Escolas com bibliotecas atualizadas, bem organizadas, geridas e atendidas por profissionais da área, e não por atendentes improvisados. A educação politécnica exige escolas e salas de aula com outra arquitetura.


A verdadeira educação politécnica não se faz sem oficinas e ambientes de trabalho dentro da própria escola. O trabalho, como princípio educativo, fundamento da escola politécnica, não se realiza na empresa privada capitalista. Os objetivos da empresa privada são outros. Sua lógica é outra. Os objetivos da educação politécnica não casam com os objetivos da empresa capitalista. O trabalho, na perspectiva da educação politécnica, busca desenvolver valores e formas de organização diferentes e, por vezes, opostos aos da empresa privada. Mais que procurar o  mundo do trabalho que fica fora da escola, com alunos borboleteando de empresa em empresa, a verdadeira educação politécnica preconiza que a própria escola se transforme num microcosmo laborativo, onde o jovem vai aprender, não os procedimentos específicos de uma determinada profissão, mas os fundamentos do trabalho que são o planejamento, a organização, a utilização racional dos recursos disponíveis, a permanente avaliação crítica do que foi feito, o respeito pelo meio ambiente, a cooperação, o uso da tecnologia e a inovação.

E isso você pode fazer, por exemplo, com a limpeza da escola, com a conservação dos móveis e do prédio escolar, com a organização da biblioteca, com a horta escolar, com uma oficina de carpintaria. Os burocratas de plantão me dirão que essa escola não é possível. Podem até achar isso, mas não chamem de educação politécnica o que não lhe serve nem de arremedo.


A educação politécnica que eu conheço não visa preparar o aluno para o mercado do trabalho. Ela usa o trabalho como princípio educativo, como instrumento de formação para a vida, como fonte de conhecimento e como matéria-prima de crítica social das próprias relações de trabalho. A educação politécnica visa à preparação do cidadão, visa à formação humana em todas as suas dimensões: físico, mental, intelectual, afetivo, estético, político e prático, combinando estudo e trabalho.


A educação politécnica que eu conheço não substitui conteúdos fundamentais por seminários faz-de-conta. A não ser que se queira rebatizar uma dicotomia que já existe na educação brasileira desde D.João VI (aquele que fugiu de Napoleão): uma escola para os do andar de cima (paga) e uma escola para os do andar debaixo. E sendo para os do andar debaixo qualquer escola serve. Pode até ser uma educação politécnica de segunda categoria, mais barata, faz-de-conta, pela metade. Que, afinal, para os do andar debaixo o que importa é saberem ler, escrever e contar. Que mais querem?


Isso que aí está, com nome de educação politécnica, é engodo, é fraude. É vinho falsificado. Os próprios alunos, pelo menos os mais antenados, já estão se dando conta disso, de que estão sendo enganados, expropriados, fraudados. Se esse modelo de educação politécnica fosse realmente a sétima maravilha que apregoam, se fosse realmente uma escola de qualidade, esses mesmos burocratas que a conceberam, e que a querem implantar a qualquer custo, deveriam ser os primeiros a colocar seus filhos na escola pública. Mas, em geral, não é o que acontece: a escola politécnica é para os filhos dos outros; os meus vão para a escola privada. Vai falar em "capacitação profissional", em "preparação para o trabalho" em escolas privadas para ver o que acontece. Isto é para os do andar debaixo.


A exemplo de outras três reformas de ensino que, nos meus 44 anos de sala de aula, já sofri como professor, esse arremedo, esse simulacro de educação politécnica que estão nos impingindo, de forma autoritária, sem a mínima discussão, sem nenhum debate, sem ouvir realmente aqueles a quem mais o tema interessa, está fadado ao fracasso. Por uma razão muito simples: esse ensino dito politécnico, descaracterizado, deturpado, apequenado, distorcido, equivocado, empobrecido, nem vai preparar o aluno da escola pública para o mundo do trabalho nem vai  lhe dar condições para se apropriar dos conhecimentos de que necessita para aspirar a uma vaga numa boa universidade pública, num curso socialmente prestigiado.


A impressão que se colhe é a de que a única preocupação dessa reforma do ensino médio é  melhorar as estatísticas, baixar os índices de evasão e repetência, e preparar mão de obra barata para o voraz e selvagem mundo do mercado. E não pensem que estou aqui defendendo a escola tradicional, da saliva, da prova e do conteúdo pelo conteúdo. Os meus alunos sabem disso.


Não consigo entender como o Senhor Secretário de Educação, a quem eu conheci lá pelos idos de 80 como referência de pensamento socialista, esteja traindo seu passado e se comprometendo com uma proposta de educação politécnica tão reducionista, tão deturpada, tão equivocada. A pedido de quem? Atendendo a que interesses?


Pobre juventude!

RUI SARTORETTO
é professor

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