Direito de gritar e ser ouvido

Direito de gritar e ser ouvido

Eles conquistaram o direito de gritar. Agora, exigem o direito de ser ouvidos.

As ruas estão cheias de gente, o noticiário buscando dar conta do que faz tanta gente na rua e as autoridades se alternando entre semblantes atônicos e vozes serenas, tentando captar o lait-motiv que conduz os milhares de manifestantes. E quanto mais os porta-vozes do movimento popular afirmam que não têm uma liderança, mais surgem autodeclarados líderes convocando manifestações, incentivando que mais gente chegue ao meio-fio, tentando liderar mesmo sem legitimidade para tanto. 

As redes sociais na internet tratam dos protestos de forma muito desencontrada: a grande maioria aproveita para repudiar ações de vândalos e baderneiros, boa parte tenta imputar aos vândalos à afiliação com estes ou aqueles partidos políticos e grande número de vozes solitárias infere que os protestos são muito amplos e multidisciplinares: demonização da TV Globo, repúdio à PEC-37, apoio à PEC-37, repúdio ao polêmico Marco Feliciano, presidente da CDH/CD, boicote à Copa 2014 devido aos imensos gastos com a construção das novas arenas de futebol.

E há espaço para se defender a preservação da Ararinha Azul, a tarifa zero para o transporte público em todas as cidades e municípios brasileiros, o acesso aos meios de comunicação.O que não falta é senso de pretensão.

Na verdade o movimento em si não é pretensioso e flerta com as velha utopias – educação para todos e de qualidade, saúde para todos e de qualidade, transporte para todos e de qualidade.

Pretensiosos são os analistas do movimento – cada um carrega de ideologia sua percepção e consegue com certa facilidade fazer tricô com linha de trem, ou seja, sempre arranja um jeito de favorecer seu ideário político e fulminante condenação a idéias políticas que condena.

Acho oportuno listar algumas ponderações que tem me ocupado a mente nesses dias de junho de 2013:Populações egípcias, tunisianas, líbias, sírias e gregas foram às ruas ecoar gritos já impossíveis de reprimir, gritos por liberdade política, liberdade de crença, liberdade de ir e vir, liberdade econômica. Sempre… liberdade.

No Brasil não existe nada que se assemelhe aos países que ocuparam as ruas desde 2011, 2012 e 2013. As reivindicações primam pela subjetividade: melhoria dos hospitais, baixo preço das tarifas do transporte público, melhores salários para professores.

Que distância de um sonoro grito por liberdade!

Populações estadunidenses, inglesas, espanholas, alemãs, francesas e até búlgaras encheram as praças públicas para protestar contra o desemprego em massa subseqüente à quebradeiras de conglomerados financeiros iniciadas em setembro de 2009 e ainda perdurando nos dias atuais.

Essas populações, acostumadas há tempo demais com um estado de bem-estar social (de fachada, viu-se depois) levantaram suas vozes contra o sistema financeiro global – de Wall Street às bolsas de valores de Londres e de Paris. E criaram o movimento ‘Occupy’. Movimento rapidamente reprimido por forças policiais desses cândidos lírios nos mais afamados jardins da democracia mundial.

No Brasil não há desemprego galopante e muito ao contrário, o crescimento do pleno emprego tem sido marca desses últimos anos na vida brasileira. Também não há quebradeira de conglomerados financeiro-econômicos. Aqui o “Occupy” é mais embaixo. É ocupar essa geração de jovens com o saudável e antigo hábito de lutar por país melhor para se viver, estudar, trabalhar. Assim, as pautas e reivindicações são tantas quantos são os manifestantes. Inúmeras e para todos os gostos.

O repúdio à TV Globo é mais ao que a TV Globo representa na história recente do Brasil que à emissora de televisão em si. Há muito tempo vem se detectando o grau de manipulação que o jornalismo da Globo busca levar à população, favorecendo com seus poderosos holofotes midiáticos líderes políticos e do pensamento conservador e ocultando premeditadamente outros líderes que ousem tratar de uma agenda positiva para o país, como a inclusão social de milhões de brasileiros no mercado de consumo e as ações afirmativas em benefícios de segmentos vulneráveis historicamente vulneráveis como os afrodescendentes, os povos indígenas, os meninos e as meninas de rua, os quilombolas.

Os chamados países mais desenvolvidos, esses que formam o brilhante colar Elizabeth Arden, países como os Estados Unidos, o Japão e a velha Europa, lutam com garras e dentes para manter em seus domínios eventos esportivos de tal magnitude como as Copas de Futebol os Jogos Olímpicos. E fazem isso porque sabem quão poderoso é para um país ser vitrine do mundo globalizado, altamente interconectado por infovias e redes sociais, ao menos por um par de semanas ou um mês. Entendem que a visibilidade planetária em um mundo profundamente interdependente do ponto de vista econômico-financeiro alavanca as estatísticas que anunciam o volume do seu Produto Interno Bruto (PIB), atenua ou extingue as taxas de desemprego, capta megainvestimentos estrangeiros para criação e fortalecimento da infraestrutura social e industrial do país.

Por que no Brasil isto seria diferente? Nunca em nossa história – de não mais que 513 anos – um país sul-americano havia sido escolhido para sediar as Olimpíadas. E o Brasil foi. Mais de seis décadas se passaram desde que o Brasil – oscilando entre ser a 5º, 6º ou 7º maior economia do planeta – sediou um evento como a Copa do Mundo de Futebol. Mas, agora em 2014, o Brasil voltará a ter protagonismo que lhe é de direito e em um campo onde reina há tanto tempo – o mundo do futebol-paixão nacional.

Pois bem, qual o real interesse dos que desejam boicotar a Copa 2014?

São contra os pesados investimentos na construção das arenas esportivas, porque se estas não saíssem das pranchetas dos arquitetos esse volume imenso de dinheiro seria automaticamente  transferido para a melhoria da rede de saúde pública hospitalar, da rede de escolas e universidade públicas?

Nada mais ingênuo que isto.

Tenho absoluta certeza que se a Copa de 2014 fosse na Bolívia ou no Canadá e não no Brasil, nenhum centavo a mais seria investido na saúde e na educação salvo aqueles previamente destinados no Orçamentos Anuais da União. E se os Jogos Olímpicos de 2016 tivessem sua sede transferida do Rio de Janeiro para Osaka ou Los Angeles, nenhum centavo a ser gasto em obras de infraestrutura ou ‘que tais’ iriam engrossar os orçamentos a serem gastos com a saúde e a educação do povo brasileiro.

Há muita má fé somada com doses brutais de ignorância rondando as intenções dos que desejam que esses dois megaeventos no Brasil sejam rotundo fracasso.Nem os próprios manifestantes parecem saber exatamente o que merece ser alvo de protesto. E, no entanto, existe tanta coisa que infelicita o povo brasileiro e que poderia fazer parte das reivindicações populares. A começar pelo antigo anseio para que a justiça brasileira seja célere, passando pelo velho sonho de termos no país uma real democratização dos meios de comunicação, deixando de ser a opinião pública pautada por apenas cinco ou seis famílias quatrocentonas de São Paulo e do Rio de Janeiro.

E, também, sem deixar ao largo o grave problema da terra no país: paraíso de latifundiários herdeiro do antigo sistema de sesmarias do Brasil Colônia e inferno em ebulição de milhões de pequenos e médios agricultores de norte a sul do país.

No fundo, por trás de cada grito e de cada cartaz empunhado, por trás de cada homem e mulher, jovem e idoso, a verdade que não quer calar é uma só: o clamor generalizado por justiça.

Passamos séculos em demasia criando os atuais abismos sociais a separar um punhado de “muito ricos” de uma extensa maioria de “muito desvalidos”. Agora a corda esticou muito e estes desvalidos buscam seu lugar ao sol: sol de justiça, sol de direitos, sol de cidadania, sol de aprendizagem, sol de direitos humanos, sol de representatividade, sol de diversidade humana.

Uma palavra a mais. Agora longe das análises e mais próximo do meio fio das ruas. O que fazer com vândalos e baderneiros que buscam incriminar os protestos por todo o país?

Simples:Quando os vândalos começarem a quebrar tudo, os verdadeiros manifestantes devem se sentar, facilitando assim a ação da policia para reprimir e prender os culpados por esses tipos de ações altamente incompatíveis com o estado de direito. Não se deve esquecer que após as manifestações ainda queremos nossa cidade melhor e não uma cidade destruída.

Fiquemos por aqui. (As manifestações começaram e preciso me inteirar melhor sobre o que está acontecendo.) 

Por Washington Araújo

http://www.cidadaodomundo.org/2013/06/eles-conquistaram-o-direito-de-gritar-agora-exigem-o-direito-de-ser-ouvidos/




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