Crise e isolamento sociais

Crise e isolamento sociais

Crise e isolamento sociais em um cenário de apatia

O cidadão ou cidadã serenos se vê como um indivíduo na multidão durante uma tempestade.

 

A baixa de autoestima social e o sentimento de submissão são acrescidos pelo sentimento de apatia política.

A baixa de autoestima social e o sentimento de submissão são acrescidos pelo sentimento de apatia política. (Reprodução)

Por Marcelo Kokke*

É possível a vinculação entre crise econômica contínua e a elevação do sentimento social de indiferença ou de aceitação para com conduções opressivas e injustas? Ao longo da história, posicionamentos filosóficos e sociológicos remetem à resposta positiva.

Aristóteles, na Política, elenca dois modos como as tiranias podem ser preservadas. O primeiro deles está ligado ao fomento da baixa estima, da subnutrição da confiança social, inspirando o sentimento de vazio e resignação quanto ao tufão que assola a sociedade.

Segundo Aristóteles, o que tende a produzir confiança mútua e espírito de coragem é abalado, é retirado, sendo o objetivo a própria derrubada de ânimo social. Esse sentimento pode ser produzido pela difusão da impressão social de inutilidade completa da revolta. O sentimento do medo prepondera. A segunda linha passa pelo empobrecimento, pela retirada da autonomia financeira, pela imposição do medo da própria subsistência ficar comprometida.

A ascensão financeira de um povo abre espaço para senso crítico em face do injusto, para intolerância em face da opressão. Thomas More, em Utopia, destaca que a pobreza e as privações tornam as pessoas “doces e submissas, além de sufocar o nobre espírito de rebelião.” Há aqui uma quebra de ilusão nacional. O senso comum geralmente alardeia uma dada passividade do brasileiro médio, que deveria insurgir-se em face de tantas injustiças experimentadas pela nação ao longo da história. Entretanto, é justamente o contrário que os clássicos demonstram. A opressão, o mergulho em crise econômica, a queda da autoestima social conduzem a uma resignação e apatia pois a sobrevivência passa a ser a maior das conquistas, deixando de lado aspirações de emancipação pessoal e social.

Mais. A baixa de autoestima social e o sentimento de submissão são acrescidos pelo sentimento de apatia política, de angústia interiorizada que se acumula em lares e não consegue ganhar as ruas. Mas como explicar que em uma situação de crise política, de crise econômica, de total ilegitimidade governamental em face da opinião pública, a integração política social decresça? Pode-se buscar um apoio em More e em Platão para compreender a dinâmica instaurada. Nos diálogos de Hitlodeu, na Utopia de More, há remissão à República de Platão.

Em tempos de turbulência política, de crise, de desilusão e fragmentação social, possuiriam os cidadãos serenos toda a razão em afastar-se das atividades e discussão políticas, toda a razão de afastar-se das ruas. O cidadão ou cidadã serenos se vê como um indivíduo na multidão durante uma tempestade. A chuva torrencial se arremessa impiedosamente sobre os corpos. A multidão louca, a querer proteger-se, corre desorientadamente, uns contra os outros, trombando e desalinhando-se, enquanto vai ficando “encharcada até os ossos”. O cidadão sereno, diante da turbulência da chuva e da total desorientação da multidão que corre e se encharca, sente que não consegue convencer ninguém a sair da tempestade, vê-se como incapaz diante da desorientação social. Nesse cenário, o cidadão sereno “fica, então, dentro de casa, e, como nada pode fazer para acabar com a estupidez alheia, contenta-se por estar ele, pelo menos, seco e confortável”, como salienta Hitlodeu, o mercador de disparates, em Utopia. A autopreservação, no avanço da crise, afirma-se como sobrevivência, a emancipação perde seu significado quando o futuro palpável tem concretude cada vez mais curta.

  • Marcelo Kokke é mestre e doutor em Direito pela PUC-Rio, especialista em processo constitucional, professor de Direito da Escola Superior Dom Helder Câmara, membro da Associação dos Professores de Direito Ambiental do Brasil, membro do Instituto Brasileiro de Advocacia Pública.

 

http://domtotal.com/noticia/1167004/2017/07/crise-e-isolamento-sociais-em-um-cenario-de-apatia/ 

 




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