Atacar a História
Por que atacar a História?
por Fernando Horta
Na última semana, o governo de fato de Michel Temer aprovou uma reforma do Ensino sem consulta àqueles que trabalham e vivem o Ensino diariamente. Sem ouvir professores, alunos, psicólogos, pedagogos ou quaisquer outros que não os donos de grandes empresas de ensino “gourmet” (cursinhos), os religiosos neopentecostais e um punhado de pessoas com “notório saber” em educação, como Alexandre Frota ou Lobão, Temer alterou toda a estrutura do ensino brasileiro, retirando obrigatoriedades, fragilizando a profissão de professor e introjetando uma variável perigosa: o “mercado”.
Dentre todas as absurdas alterações uma delas tem um caráter político duradouro e perigoso. Afora os velhos discursos de “preparar para o trabalho”, “adequar para os novos tempos” ou “responder às demandas de alunos e pais” uma perigosa meta-agenda esconde o ataque à História. Nenhuma das razões dadas pelo governo justifica ESTA reforma. Algumas razões justificam UMA reforma, que, se estivéssemos numa real democracia, deveria ser discutida e planejada com os agentes que vivem o dia-a-dia do ensino. Mas, como absolutamente nada em um governo ilegítimo se mostra minimamente republicano e democrático, temos um ataque sem precedentes aos professores e ao ensino brasileiro. Nem mesmo os militares foram tão longe na desestruturação do ensino, especialmente o ensino público.
Vários aspectos já estão sendo criticados como, por exemplo, o fato de a “reforma” aprofundar a diferenciação entre ensino público e privado, fazendo com que alunos da rede pública tenham acesso a menos conteúdos embora sejam expostos a mais tempo de aula. Aqui, contudo, quero tratar de um efeito político a longo prazo que parece estar ainda sendo negligenciado por colegas professores e que, penso, é pior do que até agora se tem falado. Nos últimos anos temos visto na História um pipocar de autores produzindo uma “História não politicamente correta”. De Narloch’s a Razzo’s, passando por outros “discípulos” de uma neodireita que intelectualmente empobreceu muito se comparado à direita dos anos 60 e 70, diversas “novas teses” históricas têm sido apresentadas como se fossem fruto de “pesquisas”, com um caráter “revisionista”.
Claro que a História vive de novas visões e novas versões, mas, como toda a ciência, tais “novas ideias” devem vir embasadas em sólidas evidências. O que ocorre é uma “revisita” a pensadores pobres do início da Guerra Fria que foram, em seus próprios tempos, descartados por falta de solidez científica, erros empíricos ou mesmo sustentações filosóficas falhas e imprecisas. É o caso de Ludwig von Mieses que foi desconstruído pelo próprio Milton Friedman como “não científico”, Friedrich Hayek que teve suas teses claramente denunciadas por causa de um viés interpretativo político associado aos regimes fascistas, ou mesmo Ayn Rand que é considerada, pela maioria da academia, uma mediana escritora de literatura, mas não uma filósofa. Isto para citar apenas três das “novas” personalidades ressuscitadas por um pensamento conservador, anacrônico e defasado no campo das ciências humanas, que está induzindo uma série de “abordagens” históricas, econômicas, políticas e sociais que se pode dizer são, no mínimo, inconsistentes com o que se conhece hoje.
Dizer que não houve golpe ou ditadura no Brasil entre 1964 e 1985, que o feminismo é uma forma de “dominação comunista” ou que – pasmem – o nazismo está situado no espectro político da esquerda são bobagens correntes ouvidas e repetidas na sua imensa maioria por jovens leitores de blogs, quando leem alguma coisa. Na imensa maioria estes jovens são apenas seguidores de “youtubers” cujos vídeos são de sofrível conteúdo, para se dizer o mínimo. De posse deste “saber cibernético” neoconservador, os jovens têm atacado violentamente professores de História, Sociologia, Filosofia e Economia como se todos tivessem seus títulos de doutores reconhecidos. Este estado de coisas que deslegitima a História por ser “de esquerda” ou autores “por terem sido refutados” supostamente em algum blog ou vídeo preocupa muito a nós historiadores porque evidenciam um caráter crescente de irracionalidade, intolerância e ignorância num caldo de violência muito preocupante.
A última fronteira contra este avanço seria a educação e, dentro dela, o vigoroso ensino da História. Pois aí entram as medidas de Temer. Ao tornar a História não mais obrigatória no ensino brasileiro, Temer introduz a variável do “mercado” em oposição à formação. Na disputa política das narrativas históricas, não é difícil perceber que escolas agora terão um imenso espaço para “escolher” quais narrativas serão ensinadas em suas aulas, à revelia de qualquer formação acadêmica histórica. Antes desta famigerada mudança, já era visível a oposição que as escolas particulares faziam aos professores mais engajados politicamente. Esta oposição, entretanto, não era total, eis que era obrigatório o ensino de História. Agora, o mercado das escolas e cursinhos terá as mãos livres para decidir que narrativas históricas chegarão aos ouvidos da nossa juventude. A Academia, historiadores consagrados ou mesmo jovens e bons pesquisadores serão emudecidos e não é segredo que em pouco tempo as narrativas “revisionistas” serão maioria, emudecendo os esforços científicos de compreensão do passado e do presente.
Afinal, se qualquer discurso pode ser desqualificado por ser “político”, como querem os pensadores neoconservadores, não há mais que se falar em autoridade científica. Se um pensador como Karl Marx é “inútil” por ser de “esquerda”, o que será dito de João Luís Fragoso, Hebe Mattos, Carlos Fico ou João José Reis, para ficarmos em uma pequena amostra da imensa gama de historiadores do Brasil cujos competentes trabalhos foram vitais para desconstrução das narrativas senso comum sobre a formação do nosso país? Em pouco espaço de tempo, pelo emudecimento das narrativas racionais e acadêmicas, teremos ainda mais forte o revigoramento do pensamento fascista, cuja base epistêmica é sempre a exclusão e o preconceito.
Existe uma linha diligentemente montada em todas as sociedades que se pretendem humanas e socialmente desenvolvidas, que leva o pensamento chancelado pela Academia aos bancos escolares num tempo relativamente curto. Da ponta da pesquisa histórica acadêmica, até os livros escolares, toda uma corrente de profissionais sérios e bem formados são acionados através de cursos, seminários, revistas científicas e outras ferramentas, para que o benefício social da pesquisa atinja quem os poderá propagar no tempo: as novas gerações. Diminuir o tempo de reverberação entre a academia e a escola deveria ser o objetivo pedagógico mais importante de um governo. Com Temer e sua “reforma” este caminho foi literalmente interrompido.
Os efeitos históricos disto serão sentidos em menos de cinco anos com a predominância de narrativas inconsistentes sobre os tempos e a preponderância de uma memória politicamente conservadora sobre os discursos mediados racional e cientificamente. Em termos políticos, isto significa uma dificuldade ainda maior para ensinar cidadania, participação, igualdade entre outras noções básicas de formação social e política contemporânea. Tais ideias serão “bloqueadas” para aqueles que mais precisam delas. Os efeitos gerais disto serão alienação da parte mais jovem da população e uma ojeriza pela política que redundará necessariamente numa sociedade mais violenta, menos inclusiva e incapaz de se criticar e assim modificar-se. Está perigosamente instalada a semente do atraso social e nossa dependência econômica e cultural. Todo processo criativo, em qualquer área, se dá a partir da noção de “inconformidade” dos homens com seu tempo e sua sociedade. Um ensino que não permite crítica e inconformidade está fadado a criar uma sociedade estagnada, política, social e economicamente. Somos uma das primeiras gerações desde a República a trabalhar (ou permitir) que as gerações futuras tenham menos condições intelectuais que as atuais. Estamos deixando um planeta pior, um mundo pior e também jovens com menos capacidade para o futuro. Isto não pode se chamar “reforma”, é o ocaso pensado de toda uma ideia de país.
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Fernando Horta é professor, historiador, doutorando na UnB.
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