Alfabetização por linhas tortas

Alfabetização por linhas tortas

Alfabetização por linhas tortas


A descoberta das letras do alfabeto, a junção das sílabas, os sons e as primeiras palavras. A alfabetização é uma das etapas mais importantes na vida de qualquer pessoa. É quando a criança começa a ‘ler’ o mundo de outra maneira e dominar as habilidades essenciais para o desenvolvimento de qualquer cidadão. Mas por uma série de fatores estruturais, sociais e pedagógicos, as escolas brasileiras não estão conseguindo cumprir plenamente essa missão.

Apesar de ainda não haver uma avaliação oficial para medir o nível de alfabetização dos alunos do primeiro ciclo do ensino fundamental, estudos e pesquisas indicam que boa parte das crianças passa pelos primeiros anos escolares sem aprender a dominar as habilidades básicas de leitura e escrita. Preocupado com esse cenário, o governo federal colocará em prática ainda este um ano um programa cuja meta é alfabetizar todas as crianças até os 8 anos de idade. Para isso, prevê bolsas de estudo para qualificação de professores alfabetizadores, materiais didáticos específicos e uma nova prova que será aplicada a todas as crianças no fim do 3º ano do ensino fundamental.

Foi movido pela necessidade de investigar a situação da alfabetização no País que o movimento Todos pela Educação criou no ano passado a Prova ABC. O teste foi aplicado a 6 mil alunos da rede pública e privada que tinham recém-concluído o 3º ano do ensino fundamental. O resultado acendeu uma luz vermelha para a alfabetização no Brasil: 43% dos participantes não tiveram o resultado esperado em leitura. Isso significa que não dominam bem atividades como localizar informações em um texto ou o tema de uma narrativa. Em escrita, o desempenho foi semelhante – apenas 53% atingiram o resultado esperado (veja quadro).

“De certa forma, o resultado já era o que a gente esperava”, lamenta a diretora-executiva do Todos pela Educação, Priscila Cruz. Os prejuízos de um processo de alfabetização mal concluído acompanharão a criança por toda a vida. Não é mera coincidência que apenas 35% dos brasileiros com ensino médio completo possam ser considerados plenamente alfabetizados, segundo apontou a edição 2012 do Indicador do Alfabetismo Funcional (Inaf). O estudo, que investiga o problema desde a década passada, aponta que 27% da população pode ser considerada analfabeta funcional.

“Essas crianças permanecerão sem alfabetização, estão condenadas a não aprender aquilo que têm direito. Nós precisamos ter uma verdadeira obsessão em tornar esses 50% [de crianças com aprendizado adequado em leitura e escrita] em 100%, senão a gente não vai poder olhar para frente”, defende Priscila Cruz.

Para ela, a principal missão da Prova ABC ou de qualquer avaliação educacional precisa ser o de auxiliar as escolas a promoverem mudanças. “A avaliação tem que ser concebida desde o começo como uma ferramenta diagnóstica. Uma avaliação que só serve para produzir número é absolutamente insuficiente”, diz Priscila.


O X da questão

Avaliações podem ser um bom termômetro para identificar que o problema existe. Mas por que as escolas não conseguem garantir a alfabetização de todas as crianças? Essa resposta não é simples e nem há um consenso entre pedagogos e pesquisadores em educação sobre quais são as razões para o fracasso identificado pela Prova ABC.

A professora Cecilia Goulart, do Programa de Alfabetização e Leitura da pós- graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF), avalia que os fatores externos à escola têm grande importância neste processo. “Os gargalos são históricos. Enquanto não tivermos uma sociedade usufruindo de condições básicas de saúde e saneamento, isso tudo vai ser muito difícil. É muito difícil uma criança que vive em condições sociais às vezes degradantes se sentir acolhida na escola e aberta para os processos de ensino-aprendizagem”, aponta.

Além dos fatores externos ao ambiente escolar, Cecilia avalia que dentro da sala de aula a principal questão é a “aceitação da diversidade de crianças”. Um dos principais desafios é conseguir atender à enorme variedade de perfis de alunos que se encontram em uma mesma sala de aula. Enquanto uns já tiveram contato com livros em casa e têm mais intimidade com as letras, outros são filhos de pais analfabetos e mal sabem a maneira correta de segurar um lápis. O professor tem a difícil tarefa de identificar as necessidades de cada criança e descobrir qual será o método mais eficiente para alfabetizá-la.

“Os tempos e o modos de aprendizagem são diferentes. É preciso um professor sensível que olhe para as crianças dizendo que elas têm condição de aprender”, diz a pesquisadora. No caso de crianças em situação de vulnerabilidade que tiveram pouco ou nenhum contato com a sociedade letrada e os bens culturais ligados à leitura e à escrita, o papel do professor deve ser de intermediador. Cecilia acredita que, assim como em todas as etapas do aprendizado, a alfabetização tem que ‘fazer sentido’ para a criança. Ela não pode pensar que está apenas juntando letras e formandos sílabas – a alfabetização precisa assumir o significado grandioso que ela tem. “Esse processo precisa fazer sentido também para o professor. Não é só um compromisso escolar, a alfabetização é um momento na vida das pessoas que tem um significado social muito grande e, às vezes, o professor perde essa dimensão”, aponta.

Para que o professor consiga assumir plenamente essa missão, o tamanho da turma será determinante. Só assim ele poderá dar a cada criança a devida atenção ao longo do processo. “É fundamental que uma turma de alfabetização tenha no máximo 20 crianças para que o professor possa dar atenção, promover atividades, organizá-las e monitorá-las. Com uma turma grande você não tem essas condições e, na alfabetização, é preciso ler o texto com a criança”, defende Cecilia.

A presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Cleuza Repulho, avalia que a infraestrutura das escolas também é um fator determinante no processo e defende que em salas superlotadas é impossível que o professor consiga sucesso na tarefa.

“Quando você encontra escolas que sequer têm água no banheiro, não tem como não dizer que isso não vai influenciar na aprendizagem da criança. O professor precisa ter as condições mínimas para ficar em sala de aula focado na sua missão. Mas, às vezes, é o professor quem faz a merenda, limpa a escola e ainda dá aula”, critica.


Expectativas rebaixadas

Outros especialistas acreditam que as falhas no processo são mais profundas do que a falta de estrutura, a formação do professor ou o método. Para a professora Maria do Rosário Mortatti, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), o problema está no próprio conceito de alfabetização, que vai muito além do domínio das ferramentas básicas de leitura e escrita. “Ensinar a ler e escrever não é simplesmente ensinar uma técnica de manejo de instrumentos. Trata-se de ensinar um modo de pensar e estar no mundo. A dificuldade advém já da compreensão do que seja ler e escrever e do lugar que essas atividades ocupam no mundo contemporâneo. Hoje as expectativas vêm se tornando cada vez mais rebaixadas em relação ao ensino e à aprendizagem nas escolas”, adverte.

 Ela é a presidente da recém-criada Sociedade Brasileira de Alfabetização (SBalf). A intenção do grupo é reunir diferentes pesquisadores, professores e gestores de educação, com visões múltiplas sobre o tema, para discutir e propor caminhos de superação para os gargalos da alfabetização no País. Maria do Rosário explica que os baixos resultados em indicadores como o Inaf são consequências dessa “baixa expectativa” que se tem em relação ao processo. Aprender a juntar letras e formar palavras é muito pouco. O letrado precisa saber usar essas habilidades nas funções cotidianas da sua vida.

A presidente do SBalf reforça a tese de que a alfabetização precisa ter sentido para a criança a fim de ser bem-sucedida. Mas questiona como é possível o aluno compreender a importância de ler e escrever, se na própria escola muitas vezes a prática da leitura não é disseminada nem mesmo entre os professores.

“Não podemos dizer que faltam investimentos públicos ou projetos de todo tipo [para apoiar a alfabetização]. O que está faltando então? Essa é a grande pergunta que precisamos enfrentar. Assim como o aprender a ler e escrever se tornou algo tão exasperador para muitas criança, uma etapa quase trágica da vida, para o professor também. Se não há sentido, aquilo que poderia ser uma realização humana se torna inalcançável, para a criança e para o professor”, diz.


PNAIC

Um dos parceiros do Todos pela Educação na Prova ABC foi o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Até então, a única prova que o órgão aplicava no ensino fundamental era a Prova Brasil, dirigida aos estudantes do 5º e 9º ano. Agora, com a criação do Programa Nacional de Alfabetização na Idade Certa (PNAIC), o Inep terá a missão também de aplicar uma avaliação universal às crianças do 3º ano do ensino fundamental.

O exame é uma das principais ações do programa que incluirá ainda a distribuição de material pedagógico, o apoio técnico às escolas e um reforço na formação do professor. A inspiração vem de um programa que foi desenvolvido pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em pequenos municípios do Ceará, em 2007, para melhorar o processo de alfabetização.

No ano passado, a prova aplicada pela Secretaria de Educação do Ceará a 184 municípios verificou que em 178 deles os alunos do 2º ano do ensino fundamental atingiram média de proficiência considerada “desejável”, e nos outros seis o nível foi “suficiente”. No começo do programa, apenas 14 cidades estavam no nível de proficiência desejável.

O resultado positivo acabou expandido o projeto também para cidades do Piauí e terminou servindo de modelo para o PNAIC, que começou a ser traçado ainda na gestão do ex-ministro Fernando Haddad. Fazem parte do comitê gestor do programa o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) e a Undime.

Cleuza Repulho, presidente da Undime, avalia que a diversidade das condições das escolas no país exige que haja um programa nacional que possa atacar o problema da alfabetização. “No Brasil nós temos realidades muito distintas, investimentos distintos e as crianças não podem dar a sorte ou o azar de nascer no município mais ou menos rico. O programa é importante porque concentra os esforços em uma única direção. Quando a gente atira para todos os lados, nem sempre a gente acerta o alvo”, pondera.

As redes municipais e estaduais interessadas deverão aderir ao programa para poderem receber o apoio técnico e financeiro.  A primeira edição da prova nacional que irá medir a alfabetização no fim do 3º ano está prevista para 2013. Outra mudança na avaliação será a reformulação da Provinha Brasil, atualmente um exame voluntário que as escolas aplicam aos alunos do 2º ano do ensino fundamental no início e no fim do ano letivo. Com o PNAIC, os resultados da Provinha deverão ser encaminhados para o Inep para servir como mais um indicador do nível de alfabetização dos estudantes.

 Aos professores alfabetizadores será oferecida a possibilidade de participar de cursos de formação que serão ofertados por universidades públicas. Priscila Cruz chama atenção para o fato de que em muitas escolas as turmas de alfabetização não ficam sob a tutela dos professores mais experientes, mas dos recém-chegados. “Isso é um erro. Na carreira, com certeza o alfabetizador é o professor mais importante porque é a partir do trabalho dele que será possível o trabalho dos seguintes”, aponta.

A professora Cecilia Goulart acredita que a preparação do professor é fundamental em qualquer etapa da aprendizagem, mas tem um peso especial na alfabetização. “Nesse processo há questões pedagógicas específicas. É importante que um professor que vá pegar uma turma de alfabetização, seja experiente ou não, se pergunte: o que eu preciso saber para alfabetizar? Ele precisa buscar subsídios, o professor precisa estudar permanentemente”, alerta.

 

http://www.profissaomestre.com.br/index.php/reportagens/ensino/155-alfabetizacao-por-linhas-tortas




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