A sindicância sob a perspectiva dos alunos

A sindicância sob a perspectiva dos alunos

Manifesto Ildo Meneghetti – A sindicância sob a perspectiva dos alunos.

 

                Fazem mais ou menos seis meses – não sabemos exatamente – que nossa escola está sob uma sindicância. A sequência destes fatos teve início com o falecimento do antigo diretor. Não é de nosso conhecimento quais as causas da sindicância, nem o que havia de errado com a parte administrativa da escola. Não sabemos, e nenhuma das partes, seja a Direção, ou a Secretaria de Educação, importou-se em nos informar o que realmente estava acontecendo. Tudo o que viemos a descobrir depois foi fruto de especulações e boatos.

                Nosso apelo através deste manifesto é absolutamente imparcial. Não estamos defendendo “A” nem “B”, não estamos falando de política da escola, de chapas, direção antiga ou defendendo pessoas específicas; assim como nossa intenção não é acusar ninguém, nenhum órgão público ou entidade administrativa que comande a educação do estado. Nosso objetivo, na condição de alunos da escola, é fazer algumas perguntas e tê-las enfim respondidas, e sendo estas respostas igualmente imparciais, livres de emoção ou subjetividade dos envolvidos.

                Vamos agora relatar o que nossos olhos testemunharam. Os fatos descritos a seguir são empíricos e transparentes, sujeitos a nossa percepção como estudantes alheios à administração da escola:

                Nossa escola não possui um Grêmio Estudantil devidamente ativo. Em meio a este fogo cruzado, de professores tensos e tristes, com a direção tão bagunçada como estava, não tivemos nenhuma representação. Não tínhamos a quem recorrer, e todas as nossas reclamações estiveram suprimidas. Essa é uma situação que já existia antes mesmo da sindicância, mas com a atuação desta, nossa voz foi abafada por definitivo. Sem uma entidade dentro da escola que nos representasse, nossos testemunhos não foram ouvidos, e tudo aconteceu distante da comunidade e dos alunos.

                Como alunos do EMP (Ensino Médio Politécnico) viemos também reclamar a própria mudança no ensino médio. Relatamos em comum consenso que fomos prejudicados este ano. Não tivemos oportunidades de saída de campo, diversas turmas ficaram sem professores de várias disciplinas durante muito tempo. Nossas aulas foram parcas, e é com tristeza que se constata que a grande maioria dos alunos, se dependesse apenas das aulas da escola nesse período, não conseguiria passar em nenhum ENEM ou vestibular. E não estamos aqui para reclamar dos nossos professores, pois parte de toda essa improdutividade é devido à sindicância. 

                Nós, alunos, testemunhamos apenas desordem. Atraso de horários, falta de coisas pífias como papel, giz, caneta de quadro branco. Os próprios professores compravam seus respectivos materiais. Chegou aos nossos ouvidos que a escola estaria devendo alguma quantia em dinheiro, até questões como desvio de verba tornaram-se sussurros entre os corredores. Entretanto, a nós, nada foi esclarecido.

                Nada até o dia 0493, quando tanto alunos, quanto professores e a comunidade foram convidados a comparecer numa reunião que se passaria no prédio da ACIR (Associação de Comerciantes Internos da Restinga), e o que se sucedeu a partir dai é o foco deste texto. Não chegou ao nosso conhecimento que algum aluno tenha comparecido a esta reunião, pois na ocasião fomos “convidados”, não “convocados”, e isso sem aviso prévio. Mas os professores estiveram presentes, e o que relatamos agora é baseado em seus depoimentos.

De forma meio tendenciosa, foi exibido à “comunidade” – que não estava presente substancialmente, e, enfatizamos, sem a existência de um Grêmio Estudantil – as mudanças promovidas pela sindicância. O atual diretor interventor falou sobre como a escola estaria mais bonita, mais limpa, bem cuidada. Como já foi dito, nossa intenção não é criticar ninguém, e esse depoimento é imparcial. Não questionamos a competência do atual diretor, mas é de conhecimento dos alunos que nossa escola sempre foi maravilhosa. Nossos professores são excelentes em sua grande maioria, existem vários exemplos antigos de alunos que passaram no vestibular contando apenas com a educação passada no colégio. Toda essa bagunça começou há pouco tempo, mais precisamente com o fim da última chapa diretiva, no ano de 2012, e intensificou-se com o começo da sindicância. Queremos deixar bem claro que não precisamos ser “salvos” por ninguém. A função da sindicância, até onde alcança nosso conhecimento, é a de fiscalizar a administração da escola e arrumar o que estiver errado até que tudo se encontre devidamente legal para as próximas eleições. Correto?

                A segunda pauta dessa reunião é que, de fato, nos ofendeu. Quase todos os professores e funcionários da escola foram acusados de irregularidades e infrações a artigos (que estão em anexo ao fim desde documento), e isso sem provas. Sim, nós alunos sabemos disso porque somos as principais testemunhas dos professores. Acusações como infrequência, falta de profissionalismo, inadimplência, dentre outras ainda mais esdrúxulas, que poderiam ser facilmente contestadas se os alunos fossem consultados, tomaram sabores de verdades e instauraram o caos na escola. Não estamos defendendo todos os professores e funcionários, pois não é de nossa alçada saber quem fez o quê, mas nós testemunhamos o trabalho destes; nós somos o termômetro de suas competências. E, mais uma vez, não fomos sequer ouvidos.

                Um abaixo-assinado (que está anexado a este documento) foi realizado pelo ensino médio, citando grande parte dos nomes que sabemos estarem fora destas acusações, mas não obtivemos nenhum retorno. Professores que trabalharam por mais de vinte anos, que sempre foram frequentes, excelentes profissionais, que tiveram participação significativa no crescimento da escola, foram removidos. O que será de seus alunos? Perto do fim do ano, o curso de Magistério perdeu três de suas professoras, como ficarão os alunos com isso? A sindicância pareceu não se importar.

                Nosso apelo é que nos escutem, nos enxerguem. Nos falta um Grêmio Estudantil, mas não é por isso que não temos representação, não temos união; não temos nossas reclamações. Não fossos consultados, nem informados, todas as mudanças nos foram impostas sem a oportunidade de reagir. Nos recomendaram o ano inteiro que ficássemos calmos, em silêncio, prometendo que tudo se resolveria, que a sindicância iria nos salvar, e até agora, último trimestre letivo, tudo só tem piorado. Fizeram uma sala nova, mudaram a entrada, alguns consertos, mas nenhuma destas coisas justifica a brutalidade com que nossa escola foi tratada. Nenhuma exibição de troca de lâmpadas ou pintura de paredes sanará a ausência dos professores que saíram sem motivos; nenhuma obra influencia no rendimento dentro da sala de aula, onde nossos professores se encontram exaustos e envergonhados.

                Sabemos muito bem que existia dentro da escola um estado de mesquinhez e falsidade, como em qualquer extensão da sociedade, e muitos professores falaram uns dos outros, promovendo acusações falsas. Não estamos reclamando disso e defendendo eles. Nosso questionando está relacionado ao posicionamento de um órgão tão importante como a Secretaria de Educação, que se sujeitou à fofocas internas e não exerceu uma justiça imparcial, mas que acabou promovendo mais discórdia e ataques. Nosso colégio está ruindo, e não queremos isso. Não queremos um “interventor messias”, não estamos questionando a competência do nosso atual diretor, mas o que de fato queremos é transparência, queremos ser levados a sério.

                Pedimos que nos escutem e também averigúem essa situação. Queremos que os verdadeiramente injustiçados sejam ressarcidos, enquanto os devidamente culpados sejam advertidos. Esse não é o papel de uma sindicância? Não suportamos mais tal situação, nesse ínterim de discórdia, os mais prejudicados somos nós, alunos. A Secretária de Educação não está sentada na carteira da sala de aula para saber de fato do que precisamos, a visão desta sindicância é superficial, e está nos ferindo. Não confiamos na Secretaria de Educação, porque ela não buscou nossa confiança. São 32 anos de história, de conquistas, de amor e dedicação que foram tratados com desprezo nos últimos meses, e nós repudiamos isso.

                                                                              Manifesto recorrente a sindicância atual no colégio estadual Eng. Ildo Meneghetti. Idealizado por alunos do ensino médio politécnico, e respectivamente redigido pela aluna Daphini Moraes Couto, da turma 2F, no turno da manhã.




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