A revolução dos pobres

A revolução dos pobres

A REVOLUÇÃO DOS POBRES

Jaque Sousa

No reino Cantuária a balbúrdia estava instaurada. Tudo começou quando um general, chamado Alexandre, amigo intimo do rei Assur, inculcou neste último uma ideia que destoa completamente dos direitos humanos, da moral e ética. O general era um homem ganancioso, ambicioso, falso, estava sempre envolvido nas falcatruas de corrupção, fingia lealdade ao soberano, planejava trai-lo. Apesar de tudo, Alexandre suscitava terror por onde passava. Por ser um habilidoso guerreiro, ter destreza na arte da guerra, vivia rodeado de mimos, bajulações, galanteios. Tinha o dom para ludibriar Assur, conseguia como ninguém influencia-lo, tinha-o nas mãos. Assur estava sempre permeado de ingenuidade, irritabilidade. Alexandre aproveitava as ocasiões e temperamento do soberano para colocar seus planos satânicos em prática, Assur, contudo, confiava cegamente no general, considerava-o um irmão. Não conseguia perceber as más intenções por trás dos seus atos.

A única pessoa que conseguia audiências espontaneamente com Assur, além de Alexandre, era Félix, líder dos sábios, mas diferentemente dos demais, não vivia no palácio pomposo. O rei considerava-o um pai, tinha uma índole ilibada. Ninguém conhecia a história deste sábio tão enigmático, mas muitos gostavam dele, menos Alexandre e a esposa, Hortênsia, pois sabiam o peso das suas palavras na vida do soberano. Félix era um homem de meia idade, baixa estatura, magro, tinha cabelos negros e olhos serenos, pele morena, não falava muito, quando o fazia, conseguia atrair a atenção de todos, morava num casebre no final da cidade, vivia do que os outros lhe dava, uma vida totalmente desprendida dos bens materiais.

Isso tudo fascinava Assur, o qual desejava muito ajudar Félix, afinal, ele era o mais sábio de todos, porém as recompensas sempre eram negadas. Alexandre tinha ciumes, inveja de Félix. Deveria destruí-lo urgentemente e colocar seu plano sórdido em ação, juntamente com a esposa, Hortência, ambos inflamados pelo desejo do poder. Planejavam enfraquecer Assur, vence-lo por meio do cansaço, tirando-lhe a popularidade, iriam usurpar o trono.

-Há uma pedra em nosso caminho. Disse Hortência ao marido.

-Que pedra?

-Félix.

-Realmente você está certa. Ele é muito influente em toda a corte e fora dela, devemos tira-lo do nosso caminho.

-Você tem alguma ideia de como faze-lo?

-Acho que sim. Você é um grande amigo do rei, podemos aproveitar um dos disparates, desatinos de Assur, faze-lo assinar um decreto real para erradicar, matar, todos os pobres e miseráveis do reino, assim conseguiremos nos livrar de Félix para sempre.

-Mas como faremos isso?

-Você irá aproveitar-se do rompante de Assur, persuadi-lo que os pobres são pragas, infortúnios para um reino tão rico como o de Cantuária. Ele estará bêbado, não terá consciência dos atos.

-Tudo certo. Vamos esperar um de seus rompantes ou então, dos banquetes, nos quais sempre fica embriagado.

Muito tempo passou, nada aconteceu. Algo precisava ser feito.

Um dia, Assur, sem conseguir dormir, teve uma ideia. Queria brincar de juiz. Mandou chamar Alexandre e Félix, os quais imediatamente chegaram na presença do nobre. Muitos não compreendiam o que estava acontecendo tamanha hora da madrugada. O palácio inteiro acordou.

-Desejo que vocês, Alexandre e Félix, contem a mim uma história, depois irei dar o veredicto final. Alexandre será o acusador, Félix, defensor, eu, juiz. Podem começar.

Todos se entreolhavam assustados com tal pedido.

Alexandre teve uma ideia. Viu naquele pedido inusitado a oportunidade para convencer o rei da matança dos pobres, já que não havia tido mais banquetes, nem rompantes do monarca com acessos de fúria. O general começaria a história, depois Félix daria continuidade.

-Houve um tempo, muito distante do nosso, no qual um monarca, Augusto I, ficou conhecido como O REI LOUCO. Isso aconteceu porque ele decidira extinguir todos os pobres e miseráveis do reino, matou-os, confiscou seus bens, destruiu as casas, vendeu os animais, acabou com qualquer rastro da classe. Ficou apenas os ricos. Augusto I se tornara riquíssimo. Nenhum outro reino se igualara ao dele.

-E o que você acha dessa decisão, Alexandre? Perguntou Assur.

-Acho correta.

-Por quê?

-Porque Augusto I agiu segundo suas convicções. Às vezes é necessário meios hediondos para alcançarmos fins vantajosos. Um rei não pode ser como os outros, mas diferente. Precisa ser temido, até mesmo odiado, exigir respeito, transparecer autoridade. Reinar com mão de ferro. Escrever a própria história, conquistar territórios, matar pessoas, escravizar outras tantas, acumular riquezas, extinguir culturas. O preço que se paga para ter poder é muito alto, muitas das vezes, com sangue. Um soberano não pode contar com a própria sorte ou virtudes. Valores e princípios devem ser deixados de lado. Tudo se resume em conseguir poder e mante-lo. Para isso, vale tudo, até mesmo provocar extermínios. Monarcas não podem escolher o que é mais conveniente, neste caso, seria a felicidade de todos, antes, pelo contrário, deve arquitetar planos para alcançar seus próprios objetivos imperialistas. Agir com a razão, não com sentimentalismos piegas. Fazer vistas grossas, ser impiedoso faz parte do processo. Não deve demostrar aos outros suas fraquezas.

-Mas e quanto aos pobres?

-Sim, soberano. Continuando. Os pobres e miseráveis são mazelas sociais, verdadeiras pragas, infortúnios, escória da sociedade, a bactéria do coco do cavalo do bandido. Eles espalham doenças, aumentam a violência, desrespeitam as leis, são improdutivos, preguiçosos, com pouco repertório cultural,artístico, possuem deficit intelectual, mal-educados, mal-informados, sem instrução, barulhentos, vergonhosos, alienados. Provocam muitos gastos, sem eles, teríamos mais riquezas, menos crises. São como um ferida purulenta atraindo moscas. Vivem como animais, sujos, suados, fedorentos, mal-trapilhos, reproduzem-se como um câncer incontrolável, perderam a identidade de humanos. São selvagens, bárbaros. Nós somos civilizados.

O circo estava armado. A plateia aplaudia ansiosa por ver sangue.

-Mas como Augusto I conseguiu essa façanha? Perguntou Assur.

-Bom, muitos nobres viviam entediados dentro dos castelos, o rei, então, resolveu oferecer programas de treinamento para todos os nobres que queriam sair um pouco do tédio e desejassem especializarem-se nas tarefas que antes eram realizadas pelos pobres e servos. Muitos fizeram os treinamentos e começaram a trabalhar, com a diferença de que agora eram todos ricos. Trabalhavam por pura diversão, nem salários recebiam.

-E quais foram os resultados? Perguntou Assur.

-Muito bom, soberano. Houve redução da criminalidade, doenças, violências, crises, conflitos. O melhor de tudo, claro, sobrou mais riquezas, uma vez que houve redução dos gastos. Aumentou os benefícios.

-E quem construía quando era necessário?

-Bom, Augusto I terceirizava os serviços quando não havia nobres disponíveis para executa-los.

-O que você me aconselha Alexandre?

-Aconselho o soberano extinguir todos os pobres de Cantuária, sem exceção ou concessões.

-E você, Félix, o que me diz disso tudo? Agora é sua vez de continuar a história.

Félix aproximou-se com a cabeça baixa, receoso, as mãos para trás. Estava esfarrapado, sujo de terra, mais magro do que antes, porém, sereno, calmo. Havia algo diferente no olhar dele, estavam úmidos.

-Como você está, Félix?

-Estou bem, soberano. Estou tão sujo assim porque no caminho, vindo para cá, encontrei um homem precisando de ajuda para desatolar suas ferramentas, as quais, devido ao temporal de ontem pela manhã ficaram atoladas no campo.

-O que você acha da história de Alexandre?

-Equivocada. Vou continuar a história.

Os pobres dos outros reinos, ao saberem que Augusto I tinha mandado matar todos os pobres e servos de Cantuária, decidiram fazer uma revolução, nunca antes ocorrida na história, pararam de trabalhar, foram às ruas reivindicar o direito à vida, propriedade privada. O caos instalou-se em todos os reinos. Motins, assassinatos, suicídios, roubos, saques, pilhagens, virou um inferno. Os sobreanos decidiram se reunirem numa assembleia para decidirem esta revolução. Perguntaram qual era a reivindicação dos pobres, eles disseram que queriam o fim de todas as relações e alianças estabelecidas com Augusto I, além, é claro, melhores salários, condições de trabalho, saúde, segurança, higiene, e o decreto de morte para quem humilhasse, ofendesse qualquer pessoa menos favorecida da sociedade. Os reis acataram as reivindicações, a paz foi restaurada nos reinos novamente, com mais justiça social.

-E o que aconteceu?

-Bom, Augusto I foi perdendo riquezas, poder. Afinal, não fazia mais parte da coalizão. Quase ficou louco. O decreto real determinava a morte imediata dos pobres, mas agora a situação se invertera, o próprio soberano estava pobre. Porém, o próximo na linha de sucessão ainda era uma criança. Se matassem o rei, ficariam sem um. Resolveram, então, revogar o decreto real. Muitos nobres ficaram aliviados, já estavam cansados do trabalho, queriam ócio, pensavam até fazer revolução, como os pobres dos reinos tinham feito. Depois disso tudo, Augusto I decidiu importar escravos, liberta-los, muitos pobres foram viver em Cantuária, que agora era o melhor lugar para se viver, as reivindicações também foram atendidas, nunca houve rei mais sábio, justo, integro, equilibrado como Augusto I, o qual mudou radicalmente depois da experiência pela qual passou. De REI LOUCO, ficou conhecido como REI SÁBIO.

-Hum...

-Melhor é a sabedoria do que as armas de guerra, soberano. Melhor é pensar do que saber, mas saber ouvir, olhar, respeitar, aprender, viver, é o mais importante de todos. Melhor é ser amado, não temido. Apesar de ter vivido pouco, carrego muitas experiências no bojo. Devemos tratar os outros como gostaríamos de ser tratados. As pessoas não são coisas para serem classificadas, expostas, comercializadas, usadas, descartadas. Todos nós fazemos parte da mesma espécie, e como tal, devemos trabalhar para preserva-la. Somos seres humanos. Cada um é indispensável, independentemente das origens, condições, capacidades, recursos, gêneros, etnias, cores. Há uma interdependência entre as classes, não existiria ricos sem pobres. Precisamos uns dos outros. Infelizmente, a igualdade é uma utopia, mas depende de nós alcançar melhores condições para nossos semelhantes, todos merecem ter uma vida digna. Ninguém é melhor do que o outro. Nos completamos. Cada um quebra o galho alheio. Apesar das pessoas menos favorecidas socialmente serem a maioria em números, contudo, constituem a minoria em importância, mas eles são a base de tudo. Não reconhecemos por causa dos nossos pré-conceitos enraizados. Apesar de humilhados, ofendidos, marginalizados, segregados, esquecidos, menosprezados, são eles que constituem as engrenagens da máquina do sistema, as massas, arraia-miúda é a galinha de ouro. Precisamos aprender a valorizar, reconhecer a importância de cada peça no jogo da vida.

-Continue Félix.
 
-Quem preparou sua comida,lavou as louças, fez, lavou, passou, guardou suas roupas, quem limpou o palácio, quem cuidou dos seus filhos,educou-os, quem lhe oferece segurança todos os dias, quem plantou e vendeu o alimento que chega até sua mesa, quem construiu os grandes monumentos ao longo da história, quem lhe carrega em seu camarote, realiza trabalhos manuais, atribui significado a tudo isso? Quem produziu todas essas riquezas?

-Os pobres Félix.

-Exatamente, são essas pessoas que fazem as coisas funcionar. Sei que nunca contei minha história para ninguém, mas nenhum momento é mais propicio como este. Já fui um homem muito rico, possuía bens, propriedades, animais aos montes, servos, servas, tudo. Porém o que mais amava era minha querida esposa, não podíamos ter filhos, por isso, depois que ela morreu, larguei toda minha riqueza, deixei com os meus servos, os quais sempre foram tratados muito bem. Já fiz parte da classe dos poderosos, mas nunca fui como um deles. Eu tinha muitas coisas, mas nunca permiti que coisas me escravizassem. Pessoas são mais importantes. Por isso decidi abandonar tudo para trás, ficar apenas com minhas lembranças, viver em contato com a natureza, simplicidade, prazer saudável, isso é riqueza. Eu sou pobre aos olhos dos homens, mas somente eu sei o que carrego. A escolha é sua. Sou muito mais feliz hoje, a alta sociedade muitas das vezes é invejosa, egoísta, gananciosa, enfadonha, maçante. Fiquei saturado. Felicidade é encontrar-se. O sentido da vida não é ter, mas sentir, aperfeiçoar a cada dia. Eu sei como é o universo dos ricos, se não fossem os pobres, todos estariam encrencados.

Assur passou a tratar melhor as pessoas, ficou menos irritadiço, aprendeu muitas lições com Félix. Alexandre e Hortência foram descobertos e trancafiados em calabouços. Muitos, que eram pobres, ficaram ricos e felizes para sempre.

Sorrisos.

https://www.recantodasletras.com.br/contoscotidianos/6098768

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Gosto de pensar no Natal como um ato de subversão…

– Um menino pobre;

– Uma mãe “solteira”;

– Um pai “adotivo”;

– Quem assiste seu nascimento é a ralé da sociedade (pastores);

– É presenteado por gente “de outras religiões” (magos, astrólogos);

– A “família” tem que fugir e viram refugiados políticos;

– Depois volta e vai viver na periferia;

O resto, a gente celebra na Páscoa… mas com a mesma subversão…

Sim! A revolução virá dos pobres! Só deles pode vir a salvação!

Feliz Natal!

Feliz subversão!”

Autor Desconhecido.




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