A mulher africana

A mulher africana

A mulher africana

 Rita Fraga

 

 

Mãe África

 

Do meu peito ainda escorre leite, e esse alimento ninguém pode calar. Ninguém pode roubar, contrabandear, explorar.
Minha África intacta, livre, alimento dos seus filhos.
Mesmo que eu não coma, não beba, meu leite não vai acabar.
Podem tirar todo o meu sangue, rasgar nossas terras em busca de diamantes.
Rasgar nossas vísceras e nos contaminar.
Meu leite continuará a jorrar e será alimento de todos os filhos dessa terra.
Mesmo se esse país virar um deserto e nada restar de pé, meu leite ainda escorrerá,
alimentando os frutos, as larvas, os filhos. Porque aqui nasceu o primeiro homem. Aqui que tudo começou.
E mesmo que o homem destrua o homem, que o homem negue três vezes a sua origem, meu leite ainda assim escorrerá e não será branco, pardo, amarelo, vermelho ou negro. Meu leite será puro e transparente. Correndo nas veias da Terra. Abençoando todos os filhos sofridos da Mãe África.

Diz um provérbio africano:
“Quem educa uma mulher (menina), educa um povo.”

África, africaniedade, sua cultura, suas mulheres.

Escrever sobre a África, sua cultura e sua mulher tem um tempero diferente, porém bem conhecido. Está no nosso gingado, na nossa culinária, na nossa arte, na nossa língua portuguesa e na nossa dificuldade em falar vossa mercê, para o que demos o jeitinho todo brasileiro e criamos você. Muito do nosso vocabulário veio dos africanos, por isso o português de Portugal por vezes nos parece outro idioma. Boa parte dos africanos que vieram traficados para o Brasil foram da África Centro-Ocidental, que inclui as regiões do Congo, Angola e Moçambique. No interior de cada uma dessas grandes regiões contam-se dezenas de grupos étnicos no período colonial e imperial. Até hoje, faz parte de nossa história e de nossa cultura toda essa riqueza da africaneidade. Se você for de São Paulo ou estiver de passagem por aqui, vale a pena conhecer o museu afro: http://www.museuafrobrasil.org.br/, é um passeio imperdível.

Mas, deixando essa paixão um pouco de lado, vamos ao que andei pesquisando e lendo essa semana e trouxe para vocês.

Nessas minhas leituras, nesses meus estudos, aprendi que não há como falar de África sem citar dois grandes encontros: A Conferência de Bandung e a Organização de Unidade Africana foram dois grandes encontros que criaram duas instituições e que marcaram a trajetória do continente africano na segunda metade do século XX. Uma delas, a Conferência de Bandung, foi o encontro ocorrido na cidade indonésia entre 18 e 24 de abril de 1955 reunindo líderes de 29 estados asiáticos e africanos, responsáveis pelos destinos de 1 bilhão e 350 milhões de pessoas. Patrocinaram essa conferência Indonésia, Índia, Birmânia, Sri Lanka e Paquistão, com objetivo de promover uma cooperação econômica e cultural do perfil afro-asiático, buscando fazer frente ao que na época se percebia como atitude neocolonialista das grandes potências, Estados Unidos e União Soviética, bem como de outras nações influentes que promoviam indiscriminadamente seus próprios valores em detrimento dos valores cultivados pelos povos em desenvolvimento. Bem, a maioria dos países que participavam desse encontro vinha amargando a experiência da colonização, o domínio econômico, político e social; eram cidadãos submetidos à discriminação racial em sua própria terra e de domínio europeu.

Por outro lado, a Organização de Unidade Africana, que foi fundada e organizada em 25 de maio de 1963, em Addis Abeba, na Etiópia, por trinta chefes de Estado e de governo africanos, e depois transformada pela União Africana, criada em 11 de julho de 2000, tinha como objetivos: a defesa da independência dos países africanos colonizados, a luta contra toda e qualque manifestação de colonialismo ou neocolonialismo, a promoção da paz e da solidariedade entre os países africanos e a defesa dos interesses políticos, econômicos e sociais dos países-membros e da África em geral.

Houve no finaldo século XIX o surgimento do pan-africanismo como manifestação de solidariedade entre intelectuais de origem africana, espalhados pelo mundo, contra a hegemonia cultural branca.

Mas esse movimento tomou força mesmo a partir da Segunda Guerra Mundial apresentando-se como uma ideologia de defesa dos valores culturais de África e de contestação à ocupação e repartição geopolítica do continente efetuada pelas potências europeias. Neste contexto, a Carta desta Organização Africana proclamava por salvaguardar a soberania e o respeito pela integridade territorial dos vários países, bem como a proteção das fronteiras, resultantes da ocupação colonial. Pretendia eliminar todas as formas de colonialismo na África e o respeito à Carta das Nações Unidas e a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

A África também tem sua heterogeneidade e encontramos na história antiga um matriarcado que constitui uma das grandes qualidades próprias às antigas culturas africanas, que não significava a dominação da mulher sobre o homem, mas a divisão de responsabilidades e privilégios. O poder é, na maioria das vezes, compartilhado entre mulher e homem, assegurando um equilíbrio estável nos negócios de Estado. Muitos são os exemplos, tanto encontrados na Bíblia como em registros históricos de mulheres soberanas na Antiguidade: no Egito, de Makeda (1005-950 a.C.), rainha de Sabá, soberana de um reino que se estendia desde partes do Egito à Etiópia, Sudão, Arábia, Síria e até a regiões da Índia. Além de controlar o comércio riquíssimo da região, de ouro, marfim, responsáveis pela edificação de palácios, estátuas, monumentos, complexos urbanos, represas e sistemas hidraúlicos sofisticadíssimos. A história da África conhece muitas rainhas-guerreiras, estadistas, que em vários casos enfrentaram militar e politicamente os escravistas e colonizadores europeus. Portanto, em várias histórias e contextos africanos, nem sempre o machismo perpétuo prevaleceu. Havia sociedades africanas na quais quem dominava eram as mulheres.

A matrilinearidade: uma prática na África tradicional

Nesse processo de organização social e política dos africanos, era delegado à mulher o poder de comando e decisão. Em função desse modelo de organização, a mulher não se limitava à participação no poder ao lado do homem, mas também era quem decidia sobre as questões políticas, administrativas e econômicas. Desta feita, era a responsável direta pelos destinos e manutenção das comunidades tradicionais. Esse modelo de organização relevante para a compreensão da história da África pré-colonial fora considerado pelos cientistas ocidentais um estágio primitivo no processo de organização social e política, sobretudo porque sua base organizativa estava centrada na família e com uma mulher à frente.

Vários estudiosos ocidentais fizeram interpretações depreciativas das comunidades africanas, dentre eles Friedrich Engels, o que levou estudiosos ocidentais a ratificarem a superioridade do patriarcado como modelo de organização social e política e uma prática inerente aos europeus. Assim eles legitimaram a superioridade da cultura europeia em relação à africana. Em contrapartida, o matriarcado fora considerado um estágio inferior e legítimo dos africanos.
Após vários questionamentos de um lado e de outros, filósofos aqui e ali, chegaram à seguinte conclusão:

Além de não concordar com a ideia de superioridade do patriarcado e inferioridade do matriarcado e que esse último sistema organizacional seria inerente dos africanos, Nascimento afirma que Diop, mostra que nunca foi provado que os povos avançariam de um estágio “primitivo” e matriarcal para um estágio “superior” e patriarcal. (Id. Ibid.)

Para tanto, esse pesquisador africano (Diop) apresentou a sua hipótese de explicação do processo organizacional dos africanos e contestou a tese do matriarcado universal “primitivo”. Esse pesquisador formulou a hipótese dos dois berços de desenvolvimento humano: o do norte e o do sul. De acordo com essa teoria, as formas de organização social surgem fundamentalmente das condições de vida concretas dos povos. No norte, o caráter nômade dos povos indo-arianos implicava a subvalorização da mulher, pois ela representava um empecilho à mobilidade tribal, um peso a ser carregado nos deslocamentos coletivos. Nesse contexto, ela não tinha uma função produtiva na economia do grupo. Por outro lado, nas civilizações meridionais, agrárias, a mulher desempenhava a função central. Ela representava, socialmente, o valor máximo da vida e da produção agrícola: a estabilidade. Suas atividades no cultivo garantiam o sustento da coletividade, enquanto os homens desempenhavam funções arriscadas, incertas ou até economicamente prejudiciais à comunidade, como a caça, a pesca e a guerra (NASCIMENTO, 2008, p. 75).

Fiz questão de colocar conforme li, para vocês não terem dúvida. Olha, tenho aprendido cada absurdo. Enfim, vale a pena aprender. De acordo com Diop, nas sociedades nômades a mulher era sim subvalorizada; no entanto, essas sociedades foram patriarcais. Já esse pesquisador africano nos possibilita questionar: que superioridade é essa, quando a mulher era subvalorizada? Será que o fato de essas sociedades terem se constituído patriarcais é suficiente para afirmar que são sociedades superiores? Vendo por esse ângulo, a perspectiva de organização social matrilinear desenvolvida pelas sociedades africanas, por pressupor que homens e mulheres partilhassem as responsabilidades e privilégios políticos e administrativos, não podem ser consideradas nem primitivas nem atrasadas, conforme afirmaram os cientistas ocidentais. A afirmação formulada pelos ocidentais negou a historicidade da mulher enquanto capaz de conduzir um processo político e administrativo e mais ainda que tenha sido identificado como um modelo de organização social e uma etapa no processo evolutivo. Os cientistas africanos não conceberam o sistema matrilinear como um modelo de organização social inferior e nem superior, uma vez que ele não pressupõe a dominação da mulher sobre o homem, mas a partilha do poder e das responsabilidades entre ambos; portanto, havia um equilíbrio das energias na condução política e administrativa do Estado.

Bem, as desigualdades, como em qualquer lugar, são gritantes. Mas elas começam a ganhar espaços e assumir o poder. Mulheres em destaque na política não são incomuns na África. Apesar de só a Libéria, em todo o continente, ter uma presidenta, são várias ministras e deputadas. Ruanda é o único país do mundo com um congresso majoritariamente feminino. A Constituição do país garante 30% das vagas para mulheres, mas, desde 2008, o parlamento é formado por 45 mulheres e 35 homens, enquanto no resto do mundo todo, apenas 17% dos assentos parlamentares é ocupado por mulheres.

É na África do Sul que se registra a maior representatividade feminina no continente. Em termos regionais, perde apenas para os países nórdicos, onde as mulheres ocupam 39,7%. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), os países que isoladamente estão mais perto de Ruanda em termos de representatividade feminina nos congressos locais são Argentina, Cuba, Finlândia, Islândia, Holanda, África do Sul e Suécia, com 40% de mulheres.

Na Assembleia da República de Moçambique (equivalente ao Congresso Nacional), as mulheres ocupam 35% das cadeiras. A presidência da Casa e as lideranças das duas maiores bancadas (Frelimo e Renamo) também são exercidas por mulheres. Nos 28 ministérios moçambicanos, as mulheres mandam em nove ministérios: Justiça, Trabalho, Mulher e Ação Social, Função Pública, Habitação e Obras Públicas, Recursos Minerais, Ação Ambiental, Assuntos Parlamentares e Administração Estatal. OPoder executivo também conta com seis vice-ministras.

A capital Maputo é governada por uma mulher, bem como a sua província. Até o começo deste ano, o segundo cargo executivo nacional mais importante, o de primeiro ministro, era ocupado por Luísa Diogo.

Mesmo melhor representadas na função pública do que em muitos países, quando se olha para dentro das casas não se vê a mesma igualdade no nível familiar. “Recentemente, o governo aprovou uma lei contra a violência doméstica porque a situação atual ainda não é boa. A maioria dos casos acontece em ambiente fechado, e as mulheres ainda não conseguem trazer para fora. Essa é a nossa luta”. Ou seja, não conseguem denunciar. Isso é um problema sério, a conscientização dessas mulheres.

No lançamento simultâneo da Conferência Moçambicana sobre Mulher e Gênero e da Década Africana da Mulher, a representante da agência da ONU, Patrícia Guzman, citou alguns pontos em que o país caminhou no sentido da promoção da igualdade de gênero. Além da crescente participação das mulheres nas decisões do país, a lei contra violência doméstica e o aumento do número de meninas que ingressam no ensino primário e na alfabetização de adultos estão entre as ações mais relevantes.

A Libéria, único país africano comandado por uma mulher, tem como presidenta Ellen Johnson Sirleaf, de 72 anos. Ela é economista formada na Universidade de Harvard (Estados Unidos), ex-presa política e exilada, e está no cargo desde 2006, quando ganhou a eleição enfrentando o ex-atacante da seleção de futebol George Weah. Antes dela, países como Ruanda e Burundi, na década de 1990, e República Centro Africana, nos anos 1970, também foram governados por primeiras-ministras. Em todo o mundo, são mais 16 mulheres a liderar seus respectivos países.

Mas, como todos os países têm raízes, temos regionalizações, temos heterogeneidades. Além da violência doméstica do homem, contra a qual temos que lutar.

Há lutas culturais, principalmente as tribais, que tratam de saúde pública. Quando a menina vai se tornar mulher e passa pela puberdade, as mães conversam e ensinam muitas coisas. Na África, a primeira coisa que é ensinada quando a menina se torna uma moça são questões sobre o parto e sobre a menstruação. Muitas ficam isoladas com as mulheres mais velhas das aldeias. As práticas variam de tribo para tribo. Alguns costumes ainda são aceitáveis; são rituais com canções e danças, ingestão de alimentos, com roupas típicas. Porém outras cerimônias de passagem da menina à vida adulta são impiedosas, como a chamada circuncisão feminina, que é a prática da mutilação genital feminina.

Para você entender melhor como são esses processos:

Clitoridectomia: retirada total ou de parte do clitóris; o sangramento é interrompido com pressão local ou curativo feito na tribo, sem higiene nenhuma;

Excisão: retirada total ou de parte do clitóris, junto com parte ou total dos lábios inferiores; o sangramento é estancado com a sutura, também feita na tribo, sem higiene nenhuma;

Infibulação: retirada total ou de parte do clitóris e dos lábios menores e de parte dos lábios maiores, seguida pelo fechamento vaginal mediante sutura.

A Mutilação Genital Feminina é um costume sócio-cultural que causa danos físicos e psicológicos gravíssimos e irreversíveis, e ainda é responsável por mortes de meninas. Pode variar, envolver a remoção com instrumentos de corte inapropriados (faca, caco de vidro ou navalha) não esterilizados e raramente com anestesia. Viola o direito de toda jovem de desenvolver-se psicossexualmente de um modo saudável e normal. Essa mutilação de mulheres está se tornando uma questão de Saúde Pública. Algo que não se deve desconsiderar são os custos do tratamento contínuo das complicações físicas resultantes e os danos psicológicos permanentes. Têm-se promulgado leis para ilegalizar e criminalizar esse costume. Embora muitos códigos penais não mencionem diretamente os termos Circuncisão Feminina ou Mutilação Genital Feminina, é perfeitamente enquadrado como uma forma de “abuso grave de criança e de lesão corporal qualificada”. Em meados de 2011 foi aprovada pelo parlamento guineense, por exemplo, uma lei proibindo e criminalizando a prática da mutilação genital feminina.

Porém, só queríamos ser mulheres e ter o prazer e sentir o prazer de sê-las.
Mas, enquanto em alguns países africanos as mulheres vêm seus órgãos genitais serem selvagemente mutilados em nome práticas retrógradas, mesmo no mundo dito desenvolvido as mulheres têm tido diferenciações no trabalho, o seu salário é inferior em relação ao dos homens, as mulheres sofrem ainda com a brutalidade e o egoísmo masculinos dentro das suas casas, sendo violadas, violentadas, espancadas por maridos covardes, arrogantes, que violentam as suas próprias mulheres e por vezes, ainda como na África, não se importando com a dor física e emocional de ter que suportar homens polígamos, que muita das vezes são responsáveis pelo contágio do vírus da Aids.

As guerreiras africanas representam diferentes perspectivas de uma mesma luta que se repete e renova a cada dia.

Graça Machel é ativista de direitos humanos e mulher de Nelson Mandela.

Mama Sara Masari é empresária de sucesso.

Leymah Gbowee ganhou o Prêmio Nobel da Paz.

Luisa Diogo foi primeira ministra de Moçambique.

Nadine Gordimer venceu outro Nobel, o de Literatura.

A liberiana Leymah fala de não violência, evoca Gandhi, Martin Luther King e Mandela para dizer que é preciso muita força interior para resistir à opressão.

A sul-africana Nadine Gordimer tem profundo conhecimento do apartheid, mas a história que ela conta refere-se ao heroísmo e à covardia. O heroísmo que interessa as duas não é o do tipo que rende estátuas. É o da prática do dia a dia.

Diferente dos homens, nós nunca quisemos mostrar que somos superiores, pois, afinal, nós os geramos, queríamos apenas respeito, dignidade e participar igualitariamente da sociedade e ter os mesmos deveres e direitos, incluindo a família.

Por isso, vou parafrasear Theo Sowa, chefa executiva do Fundo de Desenvolvimento para as Mulheres Africanas: “Elas são fortes, inovadoras, corajosas e têm visão”, apesar de muitas vezes serem vistas como vítimas e não como parceiras.

O crescimento que a África vem tendo neste momento muito se deve ao envolvimento da mulher na história e no engajamento desta luta; temos que acreditar e lutar por um crescimento justo e igualitário a todos. Para Sowa “as mulheres africanas movem o continente há gerações”. Para tanto, ela ressalta: É preciso mudar conceito de liderança. A chefa executiva do Fundo de Desenvolvimento para as Mulheres Africanas reconhece “problemas de liderança” em países africanos, mas sublinha que é preciso mudar o próprio conceito de liderança: “enquanto continuarmos a achar que os nossos líderes são só os nossos presidentes e primeiros-ministros, não ultrapassaremos os desafios”.

Para “mudar o mundo”, é preciso que “as pessoas que mantêm a unidade das famílias e das comunidades, que têm integridade e visão”, sejam também elas, líderes.

Palavras brasileiras de origem africana:

A
Abadá: Túnica folgada e comprida. Atualmente, no Brasil, é o nome dado a uma camisa ou camiseta usada pelos integrantes de blocos e trios elétricos carnavalescos.
Abará: Quitute semelhante ao acarajé. A massa feita de feijãofradinho e os temperos são os mesmos. Os bolinhos envoltos em folhas de bananeira são cozidos em banho-maria.
Acarajé: Bolinho de feijão frito no dendê e servido com camarões secos.
Afoxé: Dança, semelhante a um cortejo real, que desfila durante o carnaval e em cerimônias religiosas.
Agogô: Instrumento musical formado por duas campânulas ocas de ferro.
Aluá: Bebida feita de milho, arroz cozido ou com cascas de abacaxi.
Angola: Nome dado a uma das mais conhecidas modalidades do jogo de capoeira. E, também, a um dos cinco países africanos de língua portuguesa.
Angu: Massa de farinha de milho ou mandioca. Angu-de-caroço: coisa complicada.
Azoeira: Barulhada. Zoeira.
Axé: Saudação. Força vital e espiritual.

B
Babá: Origem controvertida. Para alguns estudiosos, é originária do quimbundo; para outros, é do idioma iorubá. Pai-de-santo. Ama-seca.
Bagunça: Baderna.
Balangandãs: Enfeites, originalmente de prata ou de ouro, usados
em dias de festa.
Bambambã ou bamba: Maioral, bom em quase tudo que faz.
Bamberê: Cantiga de ninar entoada por negras velhas da Região Amazônica.
Banguela: Desdentado. Os escravos trazidos do porto de Benguela, em Angola,
costumavam limar ou arrancar os dentes superiores.
Bantos: Povos trazidos do sul da África, principalmente de Angola e Moçambique, que espalharam sua cultura, idiomas e modos.
Banzé: Confusão.
Banzo: Tristeza fatal que abatia os escravizados com saudades de sua terra
natal.
Baobá: Árvore de tronco enorme, reverenciada por seus poderes mágicos.
Batuque: Dança com sapateado e palmas, com som de instrumentos de percussão. É uma variante das rodas de capoeira, praticada pelos negros trazidos de Angola para o interior da Bahia. No sul do Brasil, é sinônimo de rituais religiosos e, no interior do Pará, é uma espécie de samba.
Berimbau: Instrumento musical, composto de um arco de madeira com uma
corda de arame vibrada por uma vareta, tendo uma cabaça oca como caixa de
ressonância.
Bitelo: Grande. Tamanho exagerado.
Bobó: Um tipo de purê feito de aipim ou inhame.
Borocoxô: Molenga.
Bunda: Nádegas, na língua falada pelos bundos de Angola.
Búzios: Conchas marinhas usadas antigamente na África como moedas e, em nossos dias, em cerimônias religiosas e em jogos de previsão.

C
Caçamba: Balde para tirar água de um poço.
Cachaça: Bebida alcoólica. Durante muito tempo, negros escravizados, banhados em suor, giravam manualmente as rodas dos engenhos de açúcar.
Cachimbo: Tubo de fumar, com um lugar escavado na ponta para se colocar o tabaco.
Cacimba: Poço para se extrair água.
Caçula: O mais novo.
Cacunda: Corcunda. Corcova. Costas.
Cafofo: Lugar que serve para guardar objetos usados.
Cafuá: Esconderijo. Casebre.
Cafundó: Lugar distante e isolado.
Cafuné: Coçar a cabeça de alguém.
Cafuzo: Mestiço de negro e índio.
Calango: Lagarto. Dança afro-brasileira.
Calombo: Inchaço.
Calunga: O mar ou, então, a boneca carregada pelas Damas do Paço nos desfiles de reis e rainhas dos Maracatus de Nação em Pernambuco. Símbolo da realeza e do poder dos ancestrais.
Camundongo: Rato pequenino.
Candomblé: Casas ou terreiros de diferentes nações – Angola, Congo, Jeje, Nagô, Ketu e Ijexá – onde são praticados os rituais trazidos da África. Esses cultos são dirigidos por um babalorixá (pai-de-santo) ou por uma ialorixá (mãe-de-santo). Um dos mais tradicionais é o do Gantois, em Salvador, na Bahia.
Canga: Tecido com que se envolve o corpo. Peça de madeira colocada no lombo
dos animais.
Canjica: Papa de milho.
Capanga: Guarda-costas. Bolsa pequena que se leva a tiracolo.
Capenga: Manco.
Capoeira: Jogo de corpo, agilidade e arte, que usa técnicas de ataque e de defesa com os pés e as mãos. As rodas são acompanhadas por palmas, pandeiros, chocalhos, berimbaus e
cânticos de marcação.
Carimbo: Marca, sinal.
Caruru: Iguaria da culinária afro-brasileira, feita com folhas, quiabos e camarões secos.
Catimba: Manha. Astúcia.
Catinga: Mau cheiro.
Catita: Pequeno, baixo, miúdo. Nome dado no Nordeste a um ratinho novo.
Catupé: Cortejo afro-mineiro. As fardas de seus integrantes são enfeitadas de fitas, e dançam e cantam acompanhados por instrumentos de percussão.
Caxambu: Dança e nome de um tambor grande.
Caxangá: Jogo praticado em círculo. Os versos de uma velha cantiga, baseada nessa brincadeira, são bem populares.
Caxixi: Chocalho pequeno feito de palha.
Caxumba: Inflamação das glândulas salivares.
Cazumbá: Negro velho, personagem do Boi-Bumbá Paraense.
Cazumbi: Alma penada.
Chilique: Desmaiar. “Ter um troço”.
Cochilar: Sono leve.
Congadas ou congos: Danças dramáticas com enredo e personagens característicos, como reis, rainhas, príncipes, princesas, embaixadores, chefes de guerra e guerreiros.
Coque: Bater na cabeça com o nó dos dedos.
Cubata: Palhoça.
Cuíca: Instrumento musical que emite um ronco peculiar

D
Dendê: Fruto de uma palmeira.
Dengoso: Manhoso. Chorão.
Diamba: Um tipo de erva alucinógena, maconha

E
Ebó: Oferenda feita aos orixás para se resolver os mais diferentes desejos e problemas.
Eparrei: Saudação a Iansã.
Erê: Divindade ligada à infância. Brincadeira, em Iorubá.
Exu: Divindade que é considerada o intermediário entre o Céu e a Terra. Aquele que está em todos os lugares. Dono das encruzilhadas. Representa a ambivalência humana, os comportamentos e desejos contraditórios.

F
Farofa: Mistura de farinha com água, azeite ou gordura.
Fubá: Farinha de milho.
Fulo: Irritado. Zangado.
Fungar: Assoar o nariz, fuçar.
Fuxico: Falar mal dos outros. Artesanato popular feito com pedaços de panos.
Fuzuê: Confusão.

G
Galalau: Pessoa muito alta.
Ganga Zumba: Título dado aos chefes guerreiros. Um dos mais famosos líderes da confederação de Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, em Alagoas.
Ganzá: Chocalho.
Garapa: Caldo de cana.
Ginga: Movimento corporal na capoeira, na dança e no futebol.
Gogó: Pomo-de-adão.
Gororoba: Comida malfeita.
Grigri: Amuleto que protege o seu possuidor.
Guimba: Resto ou ponta do cigarro.

H
Hã: Interjeição de surpresa ou de admiração entre os iorubás.
Hauçá: Nome de um dos povos africanos. A culinária baiana
conserva o termo arroz-de-hauçá.
Hum-hum: Interjeição de lamento ou de aborrecimento em
Angola.

I
Ialorixá: Mãe-de-santo. Sacerdotisa.
Iansã: Senhora dos ventos, do ar e das tempestades.
Ibejis: Divindades da alegria e da pureza. Em setembro, seus devotos oferecem comida, doces e presentes às crianças.
Iemanjá: A grande mãe, poderosa rainha das águas.
Ifá: Divindade da adivinhação.
Ilê: Casa, moradia.
Ilê-Aiyê: Bloco afro de Salvador, na Bahia, que realiza um trabalho de valorização e de afirmação da identidade dos negros.
Inhaca: Azar. Mau cheiro.
Inhame: Raiz alimentícia e medicinal.
Iorubás ou nagôs: Povos sudaneses da África Ocidental, que se estabeleceram principalmente nos engenhos e lavouras da Bahia.
Iroco: Orixá e nome de uma árvore sagrada na África, habitada por entidades sobrenaturais e brincalhonas. No Brasil, o seu papel é exercido pela gameleira branca.

J
Jabaculê: Gorjeta.
Jagunço: Guerreiro. Capanga.
Janaína: Um dos nomes de Iemanjá.
Jegue: Jumento.
Jiló: Fruto do jiloeiro.
Jongo: Dança de umbigada na qual homens e mulheres sapateiam, alternadamente, ao centro de uma roda, provocando-se um ao outro, ao ritmo dos tambores e de cantos de desafio

K
Ver “Q”

L
Lamba: Desgraça. Trabalho pesado.
Lambada: Chicotada.
Lelê: Comida feita com milho ou fubá.
Lelé: Maluco.
Lengalenga: Conversa fiada.
Libambo: Corrente de ferro que prendia o pescoço, as mãos ou os pés dos escravizados.
Lundu: Dança e música afro-brasileira.

M
Macaco: Símio de tamanho pequeno.
Maculelê: Dança executada com bastões de madeira, que se batem uns com os outros. No Sudeste há um bailado parecido, conhecido como mineiro-pau.
Mafuá: Lugar desorganizado.
Mambembe: Teatro itinerante.
Mamona: Planta. O talo é usado para fazer bolinhas de sabão em brincadeiras infantis.
Mandinga: Feitiço. Povo temido por seus conhecimentos de magia. Muitos eram islamizados e portavam ao pescoço talismãs com trechos do Alcorão.
Maracatu: Dança afro-brasileira. Em Recife, os denominados maracatus de
nação representam embaixadas africanas com todo um séquito real. Os passos
são marcados tradicionalmente por instrumentos de percussão.
Maracutaia: Trapaça.
Marimba: Instrumento musical, xilofone.
Marimbondo: Vespa.
Massapé: Terra escura, argilosa, própria para a cultura da cana-de-açúcar.
Maxixe: Fruto de uma planta utilizada na culinária brasileira e nome de dança
de salão.
Miçanga: Contas de vidro.
Minhoca: Verme que vive sob a terra e serve de isca para pescar.
Moçambique: Nome de um folguedo popular praticado no Brasil e de um país africano de língua portuguesa.
Mochila: Bolsa carregada a tiracolo.
Mocotó: Pata de boi e também nome de um prato da culinária afro-brasileira.
Mojubá: Meu respeito. Uma das formas de saudar os orixás.
Molambo: Pedaço de pano velho. Farrapo.Moleque: Menino de pouca idade. Travesso. Bagunceiro.
Moqueca: Prato da culinária afro-brasileira, em geral de peixe ou de frutos do mar.
Moringa: Pote de barro.
Muamba: Cesto para carregar mercadorias. Contrabando.
Mucamas: Negras escravizadas, selecionadas para trabalhar nas casasgrandes e cuidar dos filhos do senhor.
Mungunzá: Comida feita de grãos de milho cozido, com leite de coco, semelhante à canjica-doce. Nos velhos tempos, era apregoada nas ruas pelos escravos de ganho.
Muvuca: Confusão. Esconderijo.
Muxiba: Pelanca. Coisa ruim ou feia.

N
Nanã: Divindade da vida e da morte, anterior a idade do ferro, dos mangues e água parada

O
Odara: Bom. Bonito.
Ogum: Divindade do ferro e senhor da guerra.
Omolu/Obaluae: Divindade da cura e das doenças.
Ori: Cabeça humana, sede do saber e do espírito, na tradição dos orixás.
Orixás: Divindades ligadas aos elementos e às forças da natureza.
Oxalá, Obatalá: Divindade da criação, pai de todos os orixás.
Oxóssi: Divindade da caça.
Oxum: Divindade vaidosa e faceira dos rios, fontes e cachoeiras.
Oxumaré: Divindade do saber, o arco-íris ou serpente encarregada de transportar água para as nuvens.

P
Patota: Turma. Grupo.
Peji: Altar.
Pirão: Papa grossa de farinha de mandioca.
Puíta: Tambor vibrador, semelhante à cuíca brasileira.

Q
Quenga: Guisado de quiabo com galinha. Mulher prostituída.
Quengo: Cabeça.
Quequerequê: O canto do galo, cocoricar.
Quiabo: Planta. Fruto do quiabeiro.
Quibebe: Comida feita com abóbora.
Quibungo: Bicho-papão, monstro com um buraco no
meio das costas, que se abre quando ele se abaixa para
comer as crianças que encontra no meio do caminho.
Quilombos: Comunidades organizadas por negros escravizados que se
rebelavam contra o cativeiro. Atualmente, são sítios tombados e preservados pelo
Patrimônio Histórico Nacional, habitados por remanescentes desses antigos refúgios.
Quilombola: Habitante de Quilombos.
Quimbanda: Curandeiro e adivinho.
Quimbundo: Um dos idiomas falados em Angola.
Quindim: Doce feito de gema de ovo, coco e açúcar.
Quitanda: Venda.
Quitute: Comida gostosa.
Quizomba: Dança, festa, alegria. Tema de um enredo da Escola de Samba de Vila Isabel em 1988.

R
Ranzinza: Rabugento. Teimoso.
Reco-reco: Instrumento de percussão no qual o músico esfrega com uma vareta as aberturas feitas em um gomo de bambu ou numa peça de madeira.
Ritumba: Tambor. No Pará, há uma dança de São Benedito chamada retumbão.

S
Sacana: Patife. Sem-vergonha.
Samba: Do “semba”, dança de umbigada ou de peitada praticada em algumas
regiões da África. Considera-se que o primeiro samba gravado no Brasil foi Pelo
Saravá: Saudação.
Sunga: Calção.

T
Tanga: Roupa.
Tantã: Tambor.
Tipóia: Rede usada como transporte. Tecido para descansar o braço ou a mão.
Titica: Excremento de aves.
Tribufu: Feioso ou feiosa.
Tunda: Dar uma surra em alguém.
Tutu: Feijão cozido e refogado, reforçado com farinha.

U
Umbanda: Sistema de práticas divinatórias afro-brasileiras com elementos do espiritismo, do catolicismo e da pajelança.
Ungui: Tutu de feijão, em Minas Gerais.
Urucubaca: Azar, má sorte.

V
Vatapá: Um tipo de pirão da culinária afro-brasileira, à base de peixes e camarões.
Vissungos: Canções de trabalho outrora ouvidas nos serviços de mineração e, hoje em dia, em algumas comunidades remanescentes de quilombos no interior de Minas Gerais.

X
Xangô: Divindade dos raios, dos trovões e da justiça. Tem como símbolo um machado de dois gumes.
Xilofone: Instrumento musical de teclas de madeira. Marimba.
Xingar: Ofender.
Xinxim: Guisado de galinha, com azeite-de-dendê, que ainda leva camarões secos, amendoins e castanhas de caju moídos.
Xodó: Amor.

Z
Zabumba: Bombo. Tambor.
Zambi: Divindade suprema dos povos bantos.
Zanga: Pirraça. Antipatia.
Ziquizira: Doença. Mal-estar.
Zonzo: Estonteado.
Zumbi: Espírito que vagueia entre as sombras. Último líder do Quilombo dos Palmares. No dia 20 de novembro, data de sua morte, comemora-se o Dia Nacional da Consciência Negra.
Zunzum: Boato.

Fonte: http://frecab.com.br/2012/10/palavras-brasileiras-de-origem-africana/

Fontes:

http://ogumdaestrelaguia.blogspot.com.br/2012/04/os-orixas-e-os-santos-catolicos.html

http://osnegrosnobrasilatual.blogspot.com.br/2010/11/os-grupos-africanos-que-vieram-para-o.html

http://superverme.blogspot.com.br/2009/09/mulher-na-africa-antiga.html

http://nofemininonegocios.com/mulheres-africanas-ainda-olhadas-como-vitimas.phtml

http://www.pime.org.br/missaojovem/mjevangincultafricana.htm

http://mnoticias.8m.com/moh.htm

http://www.onu.org.br/unase/sobre/situacao/

http://www.scalabriniane.pcn.net/port/Panor/Africa.htm

http://www.sociologia.ufsc.br/npms/teresa_kleba_lisboa.pdf




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