A face desumana de Sartori

A face desumana de Sartori

A face desumana de Sartori

Sergio Araujo

José Ivo Sartori conseguiu a façanha de se tornar governador sem ter assumido nenhum compromisso na campanha. Sequer plano de governo apresentou. Muito menos projeto de desenvolvimento para o Rio Grande. E nos debates não conseguiu responder objetivamente a não pergunta à ele formulada. O que fez, com atuação digna de ator experiente, foi representar um papel estrategicamente definido por sua equipe de marketing: Um oriundi nascido de família humilde, que tirava seu sustento da lavoura, apegado à família, especialmente à mamma, e que trocou a vocação religiosa pelo magistério e depois pela política. Nessa última atividade, foi vereador, deputado, prefeito de Caxias do Sul e agora governador do Rio Grande do Sul. E foi nessa condição de dirigente maior dos destinos do estado e dos gaúchos que a sua verdadeira personalidade finalmente se tornou conhecida.

Como rotular uma pessoa de humilde quando sequer pede desculpas aos milhares de servidores do Executivo estadual pelas dezenas de vezes em que atrasou o pagamento dos seus salários, incluindo o décimo-terceiro salário? Como classificar de coerente alguém que tendo trabalhado no campo e atuado dentro de uma sala de aula, governa de costas para os pequenos produtores rurais e para os professores estaduais?

Como identificar como justo quem promete governar para a maioria dos gaúchos e que tem como uma das suas primeiras medidas de governo o aumento de impostos (ICMS), afetando a população como um todo? Como acreditar nas boas intenções de alguém que na campanha prometeu governar olhando para frente mas que administra destruindo o futuro, extinguindo órgãos públicos de pesquisa?

Pois em se tratando de Sartori, até mesmo a imagem de bom filho, que preza os laços familiares, acabou sendo desconstituída. Por onde anda a dona Elza, tão presente nas peças da campanha eleitoral de 2014, e que nunca mais foi vista ao lado do filho importante, agora governador. Está sendo guardada para a campanha do ano que vem?

E onde anda o gestor competente, que não consegue fazer a economia crescer e que todo mês paga mico nos gabinetes de ministros, sem conseguir convencê-los a revisar a draconiana dívida do Estado para com a União? Isso sem falar nas estatísticas de violência que só fazem crescer em sua gestão e na falta de investimentos imprescindíveis nas áreas de obrigação estatal.

De todas as peças usadas na montagem do estereótipo sartoriano, a única que ainda se sustenta é a honestidade. Mas isso não é qualidade ou mérito, é obrigação de todo e qualquer gestor público. E um gestor público qualquer é o que o Rio Grande menos precisa. O que os gaúchos querem e procuram é um governador diferenciado. Competente, ousado, criativo, de diálogo com todos e não apenas com o seu núcleo duro de governo ou com o seu partido. E principalmente, que atenda as prioridades daqueles que são a razão da existência do Estado, os desafortunados.

Mas nem só de incoerências é formatado o ente José Ivo. Por ironia do destino existe uma grande coerência com o passado. Digo ironia porque uma das poucas coisas que o então candidato peemedebista repetia em profusão na campanha eleitoral era a de que ele governaria olhando para frente e não para trás. Pois a sua única coerência é a identificação com a saga privatista do PMDB, adotada quando o partido ocupa o Palácio Piratini.

Pois a criatura “Sartorão das Massas” quer mais. Quer se reeleger. E para tanto continua desempenhando com afinco o papel que lhe foi destinado. Não pelas urnas, pois esse ele já mostrou ser capaz de interpretar, mas o de dissimulado. Uma espécie de marionete humano controlado pelo PMDB e seus apoiadores. Uma situação que permite até uma paródia do heterónimo de Fernando Pessoa. “Sartori é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é gestor um gestor que deveras mente”.

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Sergio Araujo é jornalista.

 

https://www.sul21.com.br/jornal/face-desumana-de-sartori/# 




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