A escola como reality show

A escola como reality show

 

 

A escola como reality show

Jorge Barcellos*

 

 

Começou por volta de 1999 com uma ideia original. John de Mol, de Hilversum, uma pequena cidade holandesa, ao ver um grupo de pessoas enclausuradas durante um mês numa redoma de vidro no deserto do Arizona, inventou o Big Brother. A ideia foi desde então copiada à exaustão, transformando-o no segundo homem mais rico da Holanda. A versão francesa ofuscou a audiência do Festival de Cannes; a inglesa, levou 10 milhões de jovens a votar nos participantes, mais do que o milhão e meio que votaram nas eleições britânicas. Não tardou para que a presença de câmeras se tornasse onipresente na nossa vida, mais ou menos como se vê na minissérie Person of Interest, no qual o bilionário misterioso, Sr. Finch (Michel Emerson), desenvolve um programa de computador capaz de utilizar as câmeras de Nova York inteira para determinar a identidade de vítimas e criminosos a serem localizados por seu assistente, John Reese (Jim Claviezel).


E as câmeras chegaram à educação, mas não sem problemas. Começou no Colégio Rio Branco, de São Paulo. Lá, os alunos foram surpreendidos com câmeras em sala de aula. Incomodados, organizaram um movimento e 117 foram suspensos. Educadores e pais começaram a se manifestar a respeito. Agora, a iniciativa chega a Porto Alegre com o Colégio Província de São Pedro. Rosely Sayão, psicóloga e educadora deu o alerta: se isto acontece, é o sinal de falência da escola. É que a função da escola é educar para o exercício da cidadania. A base de sua ação é a relação que estabelecem entre si alunos e professores. Sua característica principal é que é uma relação de confiança, base de todo o campo da ação escolar, do ensino à aprendizagem, sim, mas também seus embates e conflitos, encontros e desencontros, regras e, por que não, transgressões. Numa palavra, é a base da sociabilidade escolar.



Nesse novo Big Brother, câmeras na sala de aula acirram as situações de controle e adestramento no interior do espaço escolar, desumanizam as relações humanas, quebram a confiança da relação entre aluno e professor baseada no encontro. Mas não sejamos teóricos apenas: a iniciativa infringe o Artigo 232 do Estatuto da Criança e do Adolescente, que prevê detenção de seis meses a dois anos a quem “submeter criança ou adolescente sob sua autoridade, guarda ou vigilância a vexame ou a constrangimento”. É o que fazem as câmeras em sala de aula. Observe: não estamos falando de câmeras em berçários para pais que desejam controlar seus filhos a distância, estamos falando de excesso de controle de alunos de educação básica com noções de privacidade.



A questão é profundamente ideológica. Primeiro, a quem queremos proteger com as câmeras? Há inúmeros professores que desejam câmeras na sala de aula, sim, mas eles não visam proteger os alunos, mas a si mesmos naqueles estabelecimentos cujas relações entre seus atores chegou a um nível de desagregação insuportável. Segundo, porque é um novo Big Brother. Porque introduz no universo escolar o lema de um deles, Survivor, que é “Não confie em ninguém!”, slogan que diz tudo sobre os efeitos de câmeras em qualquer espaço a qualquer preço. Sala de aula e câmeras não combinam: a primeira necessita de liberdade e a segunda impõe a cultura do medo, outro nome que damos ao sentimento de falta de defesa que vivenciamos na sociedade e que, agora, avança sobre a escola.



*Doutor em Educação pela UFRGS


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