A Educação precisa de perguntas

A Educação precisa de perguntas

por Marcelo Rocha*

Segundo pesquisas recentes do Inaf/Brasil, que examina os indicadores de alfabetismo funcional no país, realizadas entre 2001 e 2011, houve, nesse período, um avanço na ampliação do acesso à escola. Contudo, no que se refere a leitura, escrita e matemática, apenas um em cada quatro estudantes domina essas habilidades básicas. Ainda conforme números do IBGE, 20,4% dos brasileiros com mais de 15 anos não têm condições de participar de todas as atividades em que a alfabetização é necessária. Há dois anos, o número de analfabetos funcionais ou de pessoas que conseguem ler e compreender um texto simples está estagnado. Desse modo, a pergunta que se impõe diante dessas estatísticas é: se há mais estudantes na escola, por que não há, em uma mesma proporção, um processo de alfabetização plena?

É evidente que seria uma pretensão ter uma resposta categórica para uma questão tão complexa. No entanto, em torno dela, algumas considerações podem ser feitas, sobretudo por professores que, como eu, atuam e preocupam-se, cotidianamente, com os problemas relativos à Educação em nosso país.

Em primeiro lugar, penso que seja necessário repensarmos nossa própria prática docente. Desse modo, e para além dos chavões habituais, isto significa uma espécie de pedagogia do exílio, ou seja, um movimento para fora dos contornos da sala de aula, compreendendo a sociedade como uma grande escola, tal como assevera o educador Henry Giroux. Assim, se a leitura do mundo precede a leitura da palavra, é preciso um movimento de deslocamento do professor dos contornos limitantes de suas disciplinas em direção ao mundo que o cerca.

Além disso, o professor necessita que o Poder Executivo não o veja apenas como um sujeito integrado ao aparelho burocrático hegemônico. Na ideologia tecnocrática que fundamenta, muitas vezes, os planos educacionais, há uma tentativa de separação entre conceitualização e organização curricular da implementação e execução destes processos. O professor torna-se, então, um executor de tarefas sem ter sido consultado sobre projetos elaborados por especialistas que, por sua vez, desconhecem realidades singulares de algumas práticas tão distintas e complexas circunstâncias.

Nesse sentido, o governo e as instituições de ensino precisam entender que uma das lições mais importantes a apresentar aos nossos alunos, além do compromisso com nosso campo de estudos, é a da liberdade e autonomia crítica. O professor, tal como afirma Edward Said, precisa assumir o papel de "falar a verdade ao poder". Isso significa que, para além de consolidar autoridades, devemos compreendê-las, interpretá-las e, sobretudo, questioná-las. Por isso, a Educação precisa é de mais perguntas que busquem examinar: por que este campo dispõe sempre de tão parcos recursos? Por que os professores e professoras são, muitas vezes, meros executores de projetos que não são instados a participar? E, finalmente, por que as instituições de ensino são estimuladas, cada vez mais, ao conhecimento instrumental e técnico, visando à formação de mão de obra para o mercado e nem tanto para a reflexão? Por quê?

*Professor adjunto da Universidade Federal do Pampa, Campus São Borja 

 

Artigo publicado em 13/05/2013 no jornal ZERO HORA - RS 

 




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