Paulo Freire hoje

Paulo Freire hoje

 

Paulo Freire hoje

Foi com adultos da cidade de Angicos que o educador começou o seu projeto

Cinquenta anos após a primeira experiência de alfabetização de adultos, seu método é visionário de uma escola gestora – mais que lecionadora – do conhecimento
Moacir Gadotti

Neste ano celebramos os 50 anos de uma experiência educacional que marcou a vida de um grande brasileiro, e que se tornou um marco da educação mundial. Trata-se da experiência de alfabetização de adultos de Paulo Freire em Angicos, no Rio Grande do Norte, em 1963. A cidade não é apenas um símbolo da luta contra o analfabetismo, é um marco em favor da universalização da educação em todos os graus que começa na primeira infância. É bom lembrar que um dos primeiros escritos dele foi sobre a “escola primária”, que data de 1960.

Em 2012, Paulo Freire tornou-se Patrono da Educação Brasileira. Neste pequeno artigo, gostaria de fazer a defesa dessa justa homenagem, lembrando um pouco de sua trajetória, começando por Angicos.

O projeto político-pedagógico de Paulo Freire foi fundamentalmente um repensar da própria educação, em geral, e da educação pública, em particular, como uma contribuição para a constituição da democracia e da cidadania. O experimento de Angicos era apenas o primeiro passo do Programa Nacional de Alfabetização que – criado em janeiro de 1964 no governo de João Goulart e extinto pelo golpe civil-militar naquele mesmo ano – visava à eliminação do analfabetismo no Brasil. Angicos foi um projeto de cultura popular que imaginou e concebeu uma nova pedagogia e uma nova educação para uma sociedade democrática com justiça social. 

Paulo Freire analisou, como poucos, a importância das políticas educacionais, criticando a educação bancária, e propôs novos instrumentos técnico-metodológicos que estabeleceram os princípios fundantes qualitativos de procedimentos pedagógicos e de pesquisa científica na área de educação, potencializando a criação de novas epistemologias e de novas filosofias políticas da educação. A alfabetização é um passo necessário, porém insuficiente, para a consolidação desse projeto de cidadania democrática. 

A pergunta que podemos fazer hoje é a seguinte: esse projeto de uma educação para a construção de uma sociedade democrática com justiça social é ainda válido? Caso não seja válido, já não haveria mais por que continuar lendo Paulo Freire. Ou melhor, Paulo Freire seria um autor já superado, porque sua luta pela democracia e pela justiça estaria superada. Ele passaria para a história como um grande educador, mas que não teria mais nada a dizer para o nosso tempo e, particularmente, à educação brasileira.

Pelo contrário, creio que a sua pedagogia continua válida não só porque precisamos ainda de mais democracia, mais cidadania e mais justiça social, mas porque a escola e os sistemas educacionais encontram-se hoje ante novos e grandes desafios com a generalização da informação na sociedade que é chamada, por muitos, de sociedade do conhecimento, de sociedade da aprendizagem. A escola, nesse novo contexto, precisa ser organizadora dos múltiplos espaços de formação, tornar-se um “círculo de cultura”, como dizia Paulo Freire, muito mais gestora do conhecimento social do que lecionadora.

Nesse contexto, o pensamento de Paulo Freire é mais atual do que nunca, pois, em toda a sua obra ele insistiu nas metodologias, nas formas de aprender e ensinar, nos métodos de ensino e pesquisa, nas relações pessoais, enfim, no diálogo. 

Devemos continuar estudando a sua obra, nem para venerá-lo como a um totem ou santo nem para ser seguido como a um guru, mas para ser lido como um dos maiores educadores críticos do século XX. Honrar um autor é, sobretudo, estudá-lo e revê-lo criticamente, retomar seus temas, seus problemas, seus questionamentos. 

Alguns certamente gostariam de deixá-lo para trás na história das ideias pedagógicas e outros gostariam de esquecê-lo, por causa de suas opções políticas. Ele não queria agradar a todos. 

Mas havia uma unanimidade em todos os seus leitores e todos os que o conhecerem de perto: o respeito à pessoa. 

Paulo sempre foi uma pessoa cordial, muito respeitosa. Podia discordar das ideias, mas respeitava a pessoa, mostrando um elevado grau de civilização.

Neste momento, não se trata apenas de celebrar um autor e sua obra. Trata-se, sobretudo, de lembrar e retomar uma causa. A melhor homenagem que poderíamos prestar a Paulo Freire é eliminar o analfabetismo. Hoje temos no Brasil aproximadamente o mesmo número de analfabetos de quando Paulo Freire partiu para o exílio em 1964. 

Eliminar o analfabetismo de jovens e adultos é um direito de cidadania. Precisamos de um pacto nacional pela alfabetização de jovens e adultos que envolva não só os três entes federados, mas, igualmente, a sociedade civil. Não podemos negar esse direito a milhões de brasileiros e brasileiras. Esta poderá ser uma marca fundamental de um “Brasil sem miséria”, pois é sabido que o analfabetismo é fator e produto da miséria de um povo.

Convite à leitura de Paulo Freire

Em 1989, escrevi um pequeno livro com o título: Convite à Leitura de Paulo Freire, em uma série chamada Grandes Mestres. É um livro dirigido aos professores e às professoras. Paulo Freire gostou e foi ao lançamento. Nele relembro um pouco da sua vida e obra. Nesse pequeno, gostaria de retomar esse convite aos leitores e leitoras da revista do professor Carta Fundamental. 

Deixando o Brasil, Paulo Freire passou pelo Chile, onde escreveu, em 1968, sua principal obra: Pedagogia do Oprimido, leitura essencial para quem deseja aprofundar-se no seu legado. 

No Chile, Paulo Freire foi marcado pelo paradigma da educação popular, uma concepção de educação que é a maior contribuição da América Latina ao pensamento pedagógico universal e para a qual ele deu enorme contribuição.

Deixou o Chile em 1969, passando um ano na Universidade Harward (EUA) e depois se tornando coordenador do Setor de Educação de Adultos do Conselho Mundial de Igrejas em Genebra (Suíça), podendo, a partir daí, oferecer consultorias a diversos países da África. Retornou ao Brasil em 1980 para “reaprendê-lo”, como disse ele ao chegar. Paulo Freire foi secretário de Educação do Município de São Paulo (1989-1991), onde trabalhou com o conceito de “escola pública popular” que, nos últimos anos, chamou de “escola cidadã”. Sobre essa experiência como administrador público, escreveu o livro Educação na Cidade. 

Há dois livros que escreveu nos anos 1980 que considero fundamentais na formação do educador: Professora sim, Tia não, onde trata da profissionalização do(a) educador(a), da educação de gênero e da diversidade cultural e Educação e Política, cujo foco central é a educação para a cidadania. Mas o livro que mais me impactou e que considero como um hino à docência é Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. Foi sua última obra. Uma síntese do seu pensamento sobre o papel da docência.

Em 1991, Paulo Freire ajudou a criar um instituto que leva o seu nome. A missão desse instituto não é apenas manter vivo e continuar o seu legado. Paulo Freire não queria ser seguido por repetidores de suas ideias. Ele dizia que queria ser reinventado. Hoje, o Instituto Paulo Freire (www.paulofreire.org) mantém o Centro de Referência Paulo Freire que disponibiliza muitos materiais que a professora e o professor podem acessar. Recomendo especialmente o acervo Paulo Freire, Memória e Presença (www.acervo.paulofreire.org), uma página que armazena fotografias, vídeos, áudios, textos e manuscritos que podem enriquecer muito nossas aulas. Bom proveito!


Moacir Gadotti é doutor em Ciências da Educação pela Universidade de Genebra, diretor do Instituto Paulo Freire e autor do livro "Paulo Freire, Uma Biobibliografia"


Publicado na edição 49, de outubro de 2013

http://www.cartafundamental.com.br/single/show/43




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