O Enem e o escárnio dos pobres

O Enem e o escárnio dos pobres

"Nas federais, aos pobres, só restaram as cotas sociais, raciais ou vagas ociosas. Tudo isso passa longe do mérito acadêmico",

afirma Roberto Boaventura da Silva

Fonte: Diário de Cuiabá (MT)

Quando o MEC começou a impor o Enem (Exame Nacional do Ensino médio) para as universidades federais, o ministro da época – Fernando Haddad – afirmou que, a partir daquele exame, o Ensino médio do país melhoraria.

Na mesma linha, sem o menor senso crítico e o temor de serem desmentidos, muitos dirigentes embarcaram naquela conversa fiada, inclusive a reitora da universidade onde trabalho, defensora desse exame injusto, inconsequente e inconfiável.

De minha parte, rebatendo aqueles tolices, escrevi vários artigos (até agora já são cerca de trinta) dizendo que nada melhoraria no Ensino médio em função daquele exame.

Nada melhorou!
Para eventual incrédulo e/ou governista de plantão, recomendo a leitura do último relatório do TCU (Tribunal de Contas da União) sobre a situação do Ensino médio no país.

Particularmente, fiquei sabendo do documento pelo Bom Dia Brasil (Globo:20/03/14). Os dados são estarrecedores, principalmente quando se compreende que as vítimas do desmonte desse estágio de nosso Ensino formal (estudantes da rede pública) terão de passar pelo Enem, caso não queiram perder tempo em instituições particulares.

Todavia, se quiserem, o Prouni e o Fies – além do sustento de grupos/famílias de empresários do setor – vieram para isso mesmo. Prouni e Fies são mel na chupeta de estudante pobre. São escárnios para esses brasileiros. Em breve, muitos desses estudantes não terão o que fazer com diplomas tão vazios de conteúdo.

Pois bem, do relatório, o primeiro dado exposto diz respeito à falta de formação de Professores do Ensino público. De 580 Escolas, de 20 estados da federação, cerca de 32 mil não são qualificados para as disciplinas em que atuam. Em Física, Química e Sociologia estão os maiores problemas.

Dos 400 mil Professores que atuam no Ensino médio, 60.564 não foram sequer encontrados nos postos de trabalho. Ao invés de estarem em sala de aula, muitos estão nas administrações das unidades: direção, coordenação, orientação... Outros estão emprestados (embora, muitos sejam imprestáveis à qualidade do Ensino) para repartições públicas diversas. Esse contingente, em geral, é formado por um exército de serviçais dos partidos políticos da ordem. Muitas secretarias de Educação estão abarrotadas desse tipinho boçal de gente. Dá ânsia de ver alguns deles!

Ainda dos 400 mil Professores, em 11 estados, 40% são Professores com contratos temporários; ou seja, o que deveria ser exceção, virou regra nesses lugares. Detalhe: muitos desses contratados sequer terminaram o curso superior. Conheço casos. Alguns, embora com deficiências acadêmicas de base, já estão em sala de aula. É a reprodução da miséria intelectual; talvez, a pior das misérias sociais.

O relatório apontou ainda que a previsão para daqui a dois anos é faltar 38 mil Professores em 475 municípios. Nesse quesito, mais um discurso do MEC vai para o brejo: que o Enem é democrático; que qualquer estudante, de qualquer lugar, pode fazer a inscrição para o exame.

Claro que pode! Mas não passa numa pública. Quem passa é o estudante das particulares, que raramente é submetido à situação (obviamente, necessária) das inúmeras greves dos Professores.

E assim, o governo petista já conseguiu detonar com sonhos sólidos dos estudantes pobres. Nas federais, aos pobres, só restaram as cotas sociais, raciais ou vagas ociosas. Tudo isso passa longe do mérito acadêmico. Na melhor das hipóteses, os pobres também podem ocupar vagas nas licenciaturas, em geral, dispensadas pelos filhos das elites.

*ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - dr. em Jornalismo/USP; prof. de Literatura/UFMT




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